Ran Nendelson/HBO
Ran Nendelson/HBO

Assassinato de jovem palestino em 2014 é tema de nova série da HBO

Com dez episódios, 'Our Boys' é criticada por, supostamente, criar uma falsa equivalência entre os terrorismos palestino e judeu

Isabel Kershner, The New York Times

04 de setembro de 2019 | 06h00

JERUSALÉM – O fato de o assassinato ter sido perpetrado a sangue frio o tornou, em primeiro lugar, um tema para o filme: um adolescente palestino raptado em uma rua de Jerusalém por judeus ortodoxos foi sufocado, espancado e queimado em uma floresta de madrugada. Mas Our Boys, série de dez episódios que começou a ser exibida em agosto na HBO, está sendo atacada em Israel, em grande parte por causa de sua singularidade, em meio a uma batalha carregada de emoção e de conteúdo ideológico a respeito da política das perdas e da vitimização.

Alguns críticos acusaram os criadores de falsearem a realidade e ignorarem o que consideram a praga mais comum do terrorismo palestino contra os israelenses: a criação de uma falsa equivalência entre os dois, manchando a imagem de Israel. “A série diz ao mundo todo que israelenses e judeus são assassinos cruéis e sedentos de sangue, e que os palestinos são maltratados e oprimidos”, escreveu no Twitter Yair Netanyahu, o filho do primeiro-ministro de Israel.

Hussein Abu Khdeir, o pai de Muhammad Abu Khdeir, o adolescente palestino assassinado, contou que ele e sua esposa, Suha, assistiram a alguns dos episódios. “Choramos muito”, afirmou. O seriado produzido pela HBO e pelos Keshet Studios de Israel dramatiza a morte de 2014 e a busca dos seus autores.

As autoridades israelenses descreveram o assassinato como uma vingança pelo sequestro e a morte de três adolescentes israelenses por militantes palestinos na Cisjordânia. Os seus corpos haviam sido encontrados dois dias antes. Os dois casos dominaram o noticiário em Israel no verão de 2014, elevando as tensões e contribuindo para uma espiral de violência que culminou com uma guerra de 50 dias de duração com Gaza.

A série

No primeiro episódio, a série passa rapidamente sobre o drama dos adolescentes israelenses condenados, para tratar da morte do adolescente palestino e da investigação realizada pela polícia de Israel. Os agentes penetram no mundo fechado dos yeshivas de Jerusalém para procurar os assassinos – um homem ortodoxo e os seus dois sobrinhos adolescentes.

A reação negativa à série começou depois que os dois primeiros episódios foram ao ar em meados de agosto, quando dez famílias israelenses de soldados e civis mortos por palestinos assinaram uma carta dirigida à HBO exigindo um esclarecimento na televisão de que o terrorismo palestino é estatisticamente mais significativo do que o terrorismo judeu. A HBO não respondeu às queixas, e a crítica se tornou ainda mais virulenta.

Os diretores – Hagai Levi de The Affair e In Treatment; Joseph Cedar, o diretor israelense nascido em Nova York de Norman e Footnote; e o diretor palestino Tawfik Abu Wael, de Last Days in Jerusalem, que cresceu em uma cidade árabe em Israel – ficaram na defensiva. Eles afirmam que haviam previsto as críticas pelo fato de o filme se concentrar na vítima palestina, mas não estavam preparados para a maldade. “Na realidade, isto não reflete o que está na tela”, explicou Cedar, referindo-se às críticas.

Embora as queixas venham principalmente da direita, os diretores disseram que também foram recriminados pela esquerda, segundo a qual o seriado subestima a ocupação das terras palestinas. Falado em hebraico e em árabe, o seriado mergulha nos mundos da vítima e dos perpetradores.

Boaz Kukia, o pai de Ron Kukia, um soldado de folga que, aos 19 anos, foi apunhalado e morto em 2017 em uma parada de ônibus no sul de Israel, assinou a carta à HBO. O problema, ele disse, é que o mundo tratará o terrorismo contra os judeus como se fosse “destino, como o crime ou os acidentes de trânsito”.

Mas Robi Damelin, cujo filho, David, militar, foi morto em 2002 por um atirador palestino enquanto estava de serviço em um posto de controle na Cisjordânia, defendeu a série. “Nós não vemos o sofrimento dos outros”, disse. Robi faz parte do Fórum dos Pais e das Famílias, uma organização conjunta palestino-israelense de pessoas que perderam parentes no conflito e estão trabalhando para a reconciliação.

O diretor Levi afirmou que todo o processo foi “muito sofrido”. À pergunta se ele teria feito alguma coisa diferente diante do furor, ele respondeu: “A questão maior é se eu faria isto de novo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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