Saiyba Bashir / The New York Times
Saiyba Bashir / The New York Times

Assassinatos em série de crianças no Paquistão incitam tumultos

Em janeiro de 2018, uma menina de sete anos foi estuprada e assassinada em Kasur. Antes, outros 12 casos de estupro de crianças haviam sido denunciados

Salman Masood, The New York Times

09 de outubro de 2019 | 06h00

CHUNIAN, PAQUISTÃO - Muhammad Faizan, de oito anos, desapareceu no dia 16 de setembro; ele foi a quarta criança a desaparecer na cidade de Chunian, no leste do Paquistão, desde o mês de junho. Outros três meninos estavam sumidos havia várias semanas. O corpo de Faizan foi encontrado em uma área deserta a cerca de três quilômetros de sua casa, em Ghosia Abad, bairro pobre de Chunian, distrito de Kasur, na Província do Punjab. A autópsia mostrou que, antes de morrer, havia sido estuprado.

A polícia encontrou também dois crânios, ossos e peças de roupa perto do corpo. Ghazala Bibi, a mãe de um menino de 9 anos que havia também desaparecido, Ali Hussnain, reconheceu a camisa do pequeno. Os pais de dois outros, de oito e 12 anos, respectivamente, foram informados de que as vítimas eram os seus filhos.

Os crimes provocaram horror e revolta em todo o Paquistão. Em Chunian, houve protestos violentos. As pessoas cercaram a delegacia de polícia, acusando-a de negligência. No início de outubro, o chefe de polícia de Kasur, Sohail Habib Tajik, comunicou que um homem de 27 anos, que fora preso para esclarecer as quatro mortes, confessou a autoria dos crimes. Mas a prisão e a confissão  não respondem à indagação dos pais: por que isto continua acontecendo em Kasur?

Em janeiro de 2018, Zainab Amin, de sete anos, foi estuprada e assassinada também em Kasur. Antes dela, outros 12 casos de estupro de crianças haviam sido denunciados em um raio de aproximadamente um quilômetro. O assassinato de Zainab incitou vários tumultos, e o governo prometeu que estes ataques nunca mais voltariam a ocorrer. Mais de um ano depois, porém, os relatos de abusos não param. “Não existe proteção da polícia para as crianças no Punjab”, afirmou Sarah Ahmad, presidente do Departamento de Proteção e Bem-Estar da Criança da província, acrescentando que é preciso impor leis mais rigorosas.

Assassinatos em série

Há diversas teorias a respeito do motivo que torna Kasur um problema maior do que outros lugares - as pessoas culpam a pornografia, as gangues do crime organizado que vendem vídeos criminosos pela internet, as divisões sociais e a prostituição ligada ao crescimento dos centros urbanos. Tajik, o chefe de polícia, informou que casos de estupro são denunciados no país inteiro, mas que Kasur chama a atenção porque há evidências de assassinatos em série. Ele também culpou a urbanização rápida de muitas cidades e centros menores pelo esgarçamento da ordem social.

Pais desesperados estão enfurecidos com a polícia e temem deixar os filhos saír. As autoridades, afirmaram, os tratam com indiferença, em geral aconselhando que procurem os desaparecidos por conta própria. O primeiro-ministro Imran Khan demitiu recentemente policiais de Kasur e deu início a uma investigação. “Todos os autores serão responsabilizados”, prometeu. Também anunciou um novo aplicativo de celular que pode ser utilizado para informar o desaparecimento de uma criança.

Mas estas medidas são um escasso conforto para as famílias das vítimas. “Ali Husnain era o meu filho mais velho. Éramos muito ligados um ao outro”, disse Bibi. “Agora, carregaremos esta dor a vida inteira”.

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