Zach Wise para The New York Times
Zach Wise para The New York Times

Assim como as pessoas, os camundongos não desistem

Pesquisa da Universidade de Minnesota indica que roedores são influenciados pelos custos irrecuperáveis de maneira semelhante aos humanos

Erica Goode, The New York Times

03 Agosto 2018 | 15h15

Imagine que, pensando em uma agradável noite fora, você paga US$ 175 por um ingresso para assistir a um musical da Broadway. Sentado no lugar marcado, você logo percebe que as atuações são ruins. Você sai no intervalo entre os atos, ou fica até o fim do espetáculo?

Estudos a respeito do processo de tomada de decisão dos seres humanos indicam que a maioria das pessoas fica até o final, embora, logicamente, o dinheiro já gasto com o ingresso não devesse interferir na escolha.

Essa “falácia dos custos irrecuperáveis", como a chamam os economistas, é uma das muitas formas de interferência das emoções humanas nas decisões que tomamos, às vezes com resultado prejudicial. Mas a tendência de levar em conta investimentos anteriores ao tomar as decisões do presente parece não ser exclusividade do Homo sapiens.

Num estudo publicado no mês passado na revista Science, pesquisadores da Universidade de Minnesota relataram que camundongos e ratos são igualmente influenciados pelos custos irrecuperáveis.

Quanto mais tempo eles investem na espera por uma recompensa, menor a probabilidade de desistirem da busca antes do fim da espera.

“Seja o que for que aconteça com os humanos, acontece também com outros animais”, disse A. David Redish, professor de neurociência da Universidade de Minnesota e um dos autores do estudo.

Mais importante do que a semelhança entre as espécies foi a descoberta relevada pelo estudo indicando que os custos irrecuperáveis afetam apenas os indivíduos que decidiram buscar uma recompensa, apontou o Dr. Redish, e não enquanto ainda pensavam em tomar a decisão.

Na prática, os animais pareciam não considerar o tempo gasto para tomar a decisão como parte do investimento - para o Dr. Redish, isso indicaria que processos cerebrais diferentes podem funcionar em aspectos distintos da tomada de decisões. Essa ideia contraria a noção segundo a qual “tempo é tempo, que acaba sendo gasto de ambas as maneiras", disse ele.

Shelly Flagel, professora assistente de psiquiatria da Universidade de Michigan, que não participou do estudo, disse que a pesquisa traz “implicações de grandes consequências".

Por exemplo, disse ela, o comportamento lembra a conduta “apresentada por pessoas afetadas por vícios".

No estudo, comandado pelo estudante de doutorado Brian M. Sweis, três laboratórios de pesquisas da Universidade de Minnesota colaboraram para realizar testes em camundongos, ratos e seres humanos. Os roedores foram treinados para buscar migalhas de sabor específico num labirinto quadrado que contava com um “restaurante” em cada canto.

Os humanos foram “ensinados" a buscar no computador vídeos de gatos, concursos de dança, paisagens e acidentes de bicicleta. Roedores e humanos tinham um limite de tempo para as tarefas de busca.

No caso dos roedores, os animais entravam primeiro numa “zona de oferta” perto de um restaurante, ouvindo um sinal agudo que indicava quanto tempo seria necessário esperar para receber a recompensa - este tempo variava aleatoriamente entre 1 e 30 segundos.

Os animais poderiam pular a oferta, que seria então cancelada, ou entrar na “zona de espera” do restaurante, dando início a uma contagem regressiva indicada por um toque cada vez mais grave. Em qualquer momento durante a contagem regressiva, o roedor poderia optar por sair do restaurante.

Na versão humana do experimento, era oferecido aos indivíduos um vídeo com os botões “permanecer" e "pular". Uma barra de progresso da transferência indicava quanto mais seria necessário esperar para ver o vídeo. Ao clicar em “permanecer”, tinha início uma contagem regressiva, e a tela indicava o progresso do download.

O estudo revelou que, quanto maior o tempo gasto pelos roedores na “zona de espera", maior a probabilidade de suportarem até o fim a demora, ainda que, quanto mais esperassem, menos tempo teriam para buscar comida.

De maneira semelhante, quanto mais os humanos esperavam o download de um vídeo, maior a probabilidade de aguardarem até o fim da transferência.

Surpreendentemente, o tempo gasto pelos indivíduos deliberando se aceitariam ou não a “oferta” não afetou sua desistência ou permanência.

“Obviamente, o melhor é entrar o mais rapidamente possível na zona de espera", disse o Dr. Redish. 

“Mas ninguém faz isso. De alguma maneira, as três espécies sabem que, se entrarem na zona de espera, pagarão esse custo irrecuperável, e acabam passando mais tempo deliberando na zona de oferta para evitar que fiquem encalhados.”

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