(Magdalena Wosinska/The New York Times)
(Magdalena Wosinska/The New York Times)

Astro de “Deadpool”, Ryan Reynolds sofre com crise de ansiedade, mas encontra refúgio no palco

Ator é mais discreto que seus personagens exagerados no cinema poderiam sugerir

Cara Buckley, The New York Times

23 Maio 2018 | 10h00

BEVERLY HILLS, Califórnia - Você jamais poderia imaginar pela fisionomia atraente e tranquila deste sujeito e pelas vibrações positivas que irradiam dele nas capas das revistas, mas Ryan Reynolds é muitas vezes, sem dar nada a perceber, uma pessoa extremamente ansiosa.

Ele fica paralisado pelo terror e pelo enjoo antes de cada entrevista na televisão, a ponto de achar que vai morrer. Na época em que atuava em comédias de situação na ABC, gostava de preparar o público, em parte para fazer com que gostasse dele, mas em geral para redirecionar o próprio pânico ou, como ele a define: “a energia que me impele a vomitar”.

No hotel Four Seasons, em Beverly Hills, na conversa que tivemos uma destas tardes, ele quase não tinha se alimentado o dia todo, porque as entrevistas o deixam absurdamente nervoso.

“Sofro de ansiedade, sempre sofri de ansiedade”, disse Reynolds, 41. “Não apenas como quando a gente comenta, ‘Estou ansioso por causa disso’, eu  chego a sentir um verdadeiro pânico. Não é brincadeira”.

Era a admissão de um homem cuja existência, e a própria esposa, são aduladas pelas revistas de celebridades, e que, em 2010, recebeu o título de Homem Mais Sexy dos nossos tempos da revista “People”.

Então, talvez não surpreenda que o sujeito responsável por um dos maiores sucessos de bilheteria de 2016, “Deadpool”, sobre um sardônico anti-herói da Marvel dotado de uma mente perversa, desbocado, só podia ter elaborado ao longo da vida o seu tipo maldoso de humor destilando-o dos próprios medos.

“Deadpool”, personagem em grande parte desconhecido do público em geral, custou 58 milhões de dólares - muito menos do que a maioria dos filmes de super-heróis - e o seu lançamento foi preparado por uma ampla campanha destinada principalmente aos fãs com vídeos virais, cartazes bobos e os irreverentes tweets promocionais do próprio Reynolds. (“Haverá sangue. Armas. Bombas F e sexo de unicórnio francês explícito e habilmente iluminado”.)

O filme faturou 783 milhões de dólares no mundo todo, recebeu duas indicações ao Globo de Ouro e  tornou Reynolds um dos Homens do Ano da GQ, o guia de moda, cultura e estilo masculino, de 2016.

Também marcou o autêntico momento da fênix ressurgindo das cinzas para Reynolds, cujos importantes relacionamentos - um noivado com a cantora Alanis Morissette, um casamento de três anos com a atriz Scarlett Johanson - às vezes ofuscaram uma carreira de altos e baixos que incluíram um fracasso  como super-herói de 2011, “Lanterna Verde”.

“Deadpool 2”, lançado no mundo inteiro em meados de maio, quebrou recordes na pré-venda de ingressos para um filme com classificação restrita.

Pessoalmente, Reynolds é muito mais contido e discreto do que muitos dos seus personagens exagerados na tela. Depois de estrelar “O dono da festa” (2002), sobre um estudante no sétimo ano de faculdade, cercado por sujeitos em bares que lhe oferecem bebidas fortes e acabam descobrindo que ele “é uma versão incrivelmente chata de sujeito parecido com o herói deles”, como contou.

“Fora do set, ele não é uma figura tão imponente”, disse a atriz que contracenou com ele em “Deadpool”, Leslie Uggams. “Ele não é nenhum Rei de Hollywood”.

A razão disto é que, como Deadpool, Reynolds é canadense. E é também um sujeito engraçado.

A internet está repleta das coletâneas mais variadas dos seus melhores tweets - ele tem 10,6 milhões de seguidores - muitos mais ou menos da idade das duas filhas que ele tem com a esposa, Blake Lively. (O casal mora no lado norte de Nova York.)

A sua comicidade, afirma, se origina de mecanismos de autodefesa que ele aprendeu ainda criança,  como o mais novo de quatro irmãos em Vancouver, na Colúmbia Britânica. Seu pai, Jim Reynolds, um ex-policial que posteriormente se tornou atacadista de produtos alimentícios, foi “o distribuidor de stress na nossa casa”, segundo o ator.

O pai também era um personagem. Ele fazia vinho tinto no balde, desses de lixo,  no porão da casa, uma coisa venenosa, abominável, afirmou. Mas também  apresentou ao filho os grandes astros da comédia, como Buster Keaton e Jack Benny.

Com tudo isto, ele aprendeu a canalizar a tragédia para o absurdo. (O pai teve mal de Parkinson e morreu em 2015.)

Depois do ensino secundário, Reynolds foi para Los Angeles, onde ingressou em um grupo de humoristas especializados em cenas de humor. Com pouco mais de 20 anos, já tinha uma vida tumultuada; segundo ele, esta foi uma “fase realmente desequilibrada”.) Muitas vezes, acordava no meio da noite paralisado pelo pânico, apavorado com o seu futuro. Foi uma época em que costumava encher-se de remédios por conta própria, mas depois que alguns dos seus amigos morreram de overdose, reduziu a frequência nas baladas.

Seguiram-se papéis maiores, e também menores, e novamente maiores. Antes de “Deadpool”, seus filmes de maior sucesso junto à crítica foram  também os menos vistos, dramas como o independente “Enterrado vivo”, em 2010, e “Mississippi Grind”,  em 2015. Embora “Lanterna Verde” tenha sido um fracasso, ele descobriu que o arquétipo do principal papel masculino não servia para ele, e que se sentia mais inclinado a ironizá-lo, o que faz nos créditos finais de “Deadpool 2.”

Reynolds, que usa o aplicativo de meditação Headspace, disse que assim que entra no palco, tem plena consciência de que o pânico aumentará.

“Quando a cortina se abre, eu ligo a máquina das besteiras, e ela assume o controle, mas novamente desaparece assim que saio do palco”, contou. “É um ótimo mecanismo de autodefesa. Imagino que se você vai pular de um rochedo, também pode voar”.

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