Victoria Will para The New York Times
Victoria Will para The New York Times

Astro de 'Hamilton' mergulha nas turbulências de uma nova era

Aclamado durante a era Obama, Lin-Manuel Miranda está pronto para enfrentar os desafios do governo Trump - e do segundo filho

John Leland, The New York Times

07 Março 2018 | 10h00

Lin-Manuel Miranda estava de férias da faculdade quando descobriu como Nova York foi criada. Ele trabalhava para um jornal bilíngue fundado por seu pai e cobria um evento chamado "Salsa, Blues e Trevos". Oferecido por um pub e restaurante irlandês no bairro dominicano de Washington Heights, o evento também tinha música klezmer (da liturgia judaica) e merengue.

Para Miranda, então com 20 anos, foi uma visão da multiplicidade de culturas diferentes de Nova York sem que uma se opusesse à outra, mas mesclando-se lado a lado. Ele se deu conta de que as instituições que permaneceram foram as que "abraçaram todas as sucessivas ondas de imigração".

No espaço de algumas dezenas de anos, esta visão acabou moldando o trabalho que o lançou para o mundo.

Aos 38, Miranda, criador e astro original do sucesso da Broadway "Hamilton", pode parecer uma fantasia da era Barack Obama. Ele cumpre a promessa do ex-presidente de "acabar com a divisão entre a América Vermelha e a Azul", como disse à revista Rolling Stone, e trabalhando as diferenças da nação como um patrimônio, e não como um campo de batalha. "Hamilton", romance liberal sobre um ícone conservador, convida o público a jogar em múltiplos times ao mesmo tempo.

Agora, em um clima ainda mais turbulento, Miranda prepara seu próximo ato. E, como tinha de ser, esta é uma pausa do palco. Ele e a esposa, Vanessa Nadal, tiveram seu segundo filho, Francisco, no dia 1º de fevereiro. 

"Estou realmente ansioso por não ir ao ensaio no dia seguinte", disse Miranda em dezembro. "Ansioso por acampar com a minha família, e com esperança de começar algum novo projeto de criação literária".

O pai de Miranda, Luis A. Miranda, foi assessor político do ex-prefeito de Nova York Edward I. Koch, e fundou a Federação Hispânica, uma organização sem fins lucrativos. Originário de Porto Rico, chegou a Nova York aos 18 anos, com um diploma de universidade e um inglês limitado, para fazer pós-graduação. Casou-se com uma colega, Luz Towns, que é psicóloga clínica.

Miranda nasceu em 1980 e aprendeu a fazer malabarismos com várias identidades. Na casa da família, viveu na maior parte do tempo com a mesma babá que criara seu pai em Porto Rico. Falava espanhol com as várias babás.

“Eu mudava de código entre as duas línguas quando tinha 5 anos”, contou.

Em família, o pai falava com ele em espanhol, e a mãe, em inglês. A casa vivia cheia de políticos e parentes que os visitavam vindos de Porto Rico.

A irmã mais velha de Miranda, Luz, costumava levar para casa álbuns de hip-hop; seu pai adorava os musicais da Broadway. Miranda gravava ambas as tendências nas fitas cassetes que trocava com os amigos. "Tive a sorte de crescer em uma época em que nossa moeda corrente era a coletânea que a gente conseguia reunir", disse. "A gente trocava as fitas, agora somos amigos".

Um destes seus amigos era Chris Hayes, hoje apresentador da MSNBC. Anos mais tarde, quando Hayes assistiu a uma das primeiras oficinas de "Hamilton", ficou impressionado com os paralelos entre o personagem-título e o criador do musical. "Vendo o Hamilton da peça como imigrante, que vive em um bairro de classe alta com essa atitude competitiva que Lin e eu tínhamos - a de 'vou mostrar a estes caras da alta que eu sou um deles' - parecia mesmo com Miranda", contou.

Quanto à mudança do clima político em torno de "Hamilton", Miranda disse que é outro tema explorado no espetáculo. A união que sobrevive ao personagem-título no final da peça é tão turbulenta quanto as pessoas que hoje compram ingressos. E mesmo na época atual, os políticos não expressam suas divergências com pistolas.

"Não podemos controlar a maneira como o mundo reage ao nosso trabalho", disse. "Só podemos controlar o trabalho em si. Por isso, meu espetáculo é aprovado por um governo, mas nem tanto pelo governo seguinte".

No fim das contas, a história tem espaço para ambas as visões da América, e nenhuma delas dura para sempre.

"Como diz Vonnegut, é isso aí", escreveu Miranda. "Este é o momento".

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