Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Astro do futebol escondido onde todos podem ver

Ex-jogador da seleção turca fugiu de seu país natal em 2015 e agora administra padaria nos Estados Unidos

John Branch, The New York Times

13 Junho 2018 | 10h15

PALO ALTO, CALIFÓRNIA - A maioria dos fregueses não reconhece o sujeito atlético que cuida do Tuts Bakery and Cafe, recolhendo os pratos sujos. Todos adoram seus doces e pedem chá ou café com leite, a tartine de abacate ou o menemen, tradicional café da manhã turco.

O homem, Hakan Sukur, 46 anos, é um dos atletas mais famosos da Turquia, seu jogador de futebol mais festejado, um herói da Copa do Mundo e veterano das principais ligas europeias. Ele transformou a fama numa carreira política e foi eleito para o parlamento da Turquia. Assim sendo, como ele veio parar aqui - indagando se um dia voltará para casa, se os filhos algum dia verão seus pais idosos, e se seu país, a Turquia, voltará a seguir o rumo da democracia?

“É o meu país; amo o meu povo, ainda que a opinião que eles tenham de mim seja distorcida pela mídia", disse Sukur.

Ele deixou a Turquia em 2015, quase um ano antes do mortífero golpe de 2016 que fracassou na tentativa de derrubar o regime autoritário do presidente Recep Tayyip Erdogan, que já foi seu amigo e aliado político. Estima-se que 250 pessoas tenham morrido no acontecimento, e mais de 60.000 foram detidas desde então: jornalistas, acadêmicos, adversários políticos. 

Sukur, a mulher e os três filhos já tinham deixado o país na época da tentativa de golpe. Mas seus laços políticos, fama e riqueza fizeram dele um alvo. Mandados de prisão foram expedidos com seu nome, e seu pai foi detido por quase um ano. Sukur disse que seus imóveis, negócios e contas bancárias foram confiscados pelo governo. 

Amigos na Turquia dizem que ele poderia ter tudo de volta se fizesse demonstrações públicas de apoio a Erdogan. “Eu viveria uma vida muito boa e me tornaria ministro se aceitasse jogar o jogo, se fizesse o que pedem", disse Sukur. “Mas, agora, estou vendendo café.” O mais famoso fugitivo da Turquia começou a apanhar os pratos sujos das mesas próximas.

Sukur ainda é o maior goleador da história da seleção da Turquia, com 51 gols. O mais famoso ocorreu logo no início da disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo de 2002, ajudando a Turquia a bater a Coreia do Sul, país anfitrião. No campeonato turco Super Lig, ele comandou o Galatasaray, de Istambul, e levou a equipe a oito campeonatos e uma vitória na Copa da UEFA em 2000. 

Ele se aposentou em 2008. Depois de algum tempo como comentarista de TV, Sukur conquistou um assento no parlamento da Turquia em 2011 como membro do Partido da Justiça e do Desenvolvimento, de Erdogan. Sukur era um discípulo de Fethullah Gulen, um clérigo que viveu em exílio voluntário na Pensilvânia por quase 20 anos. O movimento de Gulen, Hizmet, tenta há décadas empurrar a Turquia na direção da democracia, do ensino e da abertura cultural.

Erdogan já foi um aliado. Mas ele começou a suspeitar de todos que pudessem ameaçar seu poder. Em 2013, ele fechou uma rede de escolas preparatórias apoiadas por Gulen, e Sukur deixou o partido.

No segundo semestre de 2015, Sukur veio a Palo Alto, onde tinha amigos. Ele comprou parte do café, garantiu um visto de investidor e pediu à mulher, Beyda, e aos filhos que se juntassem a ele. “Quero que tenham uma vida livre e sejam independentes", disse Sukur.

O golpe ocorreu meses depois. Sukur nega qualquer envolvimento ou conhecimento dos fatos. 

Seu plano de longo prazo para a vida nos Estados Unidos é construir uma academia de esportes, como pensou que faria na Turquia.

Como a maioria dos fregueses de Sukur, nem todos os vizinhos sabem quem ele é. “Outro dia um dos vizinhos veio à padaria e havia pessoas tirando fotos comigo", disse Sukur. “Ele perguntou: ‘Por que estão tirando fotos contigo? Você nem é tão bonito assim.'”

Sukur riu. O pico de atividade da tarde terminou, e ele teve tempo para relaxar.

 

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