Ilustrações de Randall Munroe
Ilustrações de Randall Munroe

Um astronauta pode tocar na superfície da Lua e sobreviver?

Tocar pedras lunares é uma coisa; tirar a luva e expor-se ao vácuo do espaço é outra. A experiência não seria necessariamente fatal

Randall Munroe, The New York Times

22 de novembro de 2019 | 06h00

Doze pessoas caminharam na Lua desde o primeiro pouso dos humanos no satélite 50 anos atrás, mas ninguém jamais tocou diretamente sua superfície. Os astronautas usavam roupas espaciais ao saírem do módulo de pouso. Ninguém chegou a tirar uma luva ou bota.

“Depois que entramos e tiramos os trajes e as luvas, havia de fato um pouco de poeira lunar no chão, e as rochas não tinham sido embaladas ainda”, disse Charlie Duke, astronauta do programa Apollo que pousou na Lua em 1972. “No caminho de volta, recolhi as pedras que flutuavam pela espaçonave. Uma delas passou flutuando por mim, e eu a apanhei e meti no bolso do traje. Quando voltei, guardei-as em um pequeno recipiente do tamanho de um frasco de remédios, e então entreguei-o à Nasa.”

Tocar pedras lunares é uma coisa; tirar a luva e expor-se ao vácuo do espaço é outra. A experiência não seria necessariamente fatal. Em geral, a pele humana é capaz de suportar uma breve exposição ao vácuo. Uma pessoa equipada com um traje espacial dotado de isolamento da pressurização no antebraço para permitir a remoção de uma luva provavelmente poderia tirar a peça durante uma caminhada espacial sem sofrer nenhum dano permanente.

É claro que não seria confortável. Em 1960, durante um teste envolvendo um balão de altitude elevada, a luva pressurizada do coronel Joe Kittinger, da força aérea, apresentou vazamento, expondo a mão dele a condições semelhantes ao vácuo por várias horas. Sua mão inchou e perdeu a sensibilidade, mas não sofreu danos permanentes.

A sensação de temperatura na Lua, entretanto, depende do local em que nos encontramos. Na Terra, as mais quentes rochas aquecidas pelo Sol podem chegar a 76°C, mas, na Lua - onde o Sol se mantém visível por semanas de uma vez e não há brisa para aliviar o calor - a temperatura fica ainda mais alta.

O módulo de pouso da Apollo 16 aterrissou na manhã lunar, quando o Sol ainda estava perto do horizonte, mas, conforme ele foi subindo no céu, a temperatura no chão aumentou. De acordo com Duke, quando os astronautas partiram, a temperatura já passava dos 90°C. O lado escuro, que fica duas semanas sem luz, desprovido do isolamento do ar, fica mais frio que a Antártida no inverno.

A temperatura da poeira não seria um perigo grave para a mão de um astronauta. A poeira lunar age como isolante térmico - o material é oco, cheio de espaços vazios, e a ausência do ar impede que o calor de uma parte do solo se espalhe para outra (ou para a pele dele). Com base em medições do solo lunar e parâmetros da Nasa, seria provavelmente possível tocar o solo lunar mais quente com a mão desprotegida sem sentir nenhum desconforto térmico.

Mas, se a mão tocasse em uma rocha, a dor deve ser considerável. É como ocorre com as roupas quentes saídas da secadora: mesmo que todas as partes da roupa estejam com a mesma temperatura (quente), o tecido, isolante, pode parecer morno, enquanto um zíper, mais denso e condutivo, pode queimar ao contato com a pele.

“Houve uma única ocasião em que me recordo de ter sentido o calor emanado pela superfície da Lua", disse Duke. A tripulação tinha deixado uma estrutura de metal sob a luz direta do Sol por dois dias, como parte de um experimento. “Quando apanhei o objeto, podia sentir o calor do alumínio através da luva. Não era nada preocupante, mas lembro de ter pensado, ‘Esse negócio está quente mesmo’.”

Como ocorre com a areia na Terra, a poeira lunar é essencialmente feita de pequenos fragmentos de vidro, mas as extremidades afiadas não foram desgastadas pela erosão. Como resultado, o contato pode ser bastante prejudicial. Mas, evitando tocar nas rochas e no metal, lavando as mãos e não se importando com algum inchaço temporário, tudo indica que seria possível tocar a Lua diretamente e sobreviver. Provavelmente, correr descalço seria má ideia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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