Lawrence Livermore National Laboratory via The New York Times
Lawrence Livermore National Laboratory via The New York Times

Como uma bomba nuclear poderia salvar a Terra de um asteroide sorrateiro

Uma explosão atômica não é a solução preferida para a defesa planetária, mas os modelos 3-D estão ajudando os cientistas a se prepararem para o pior cenário possível

Robin George Andrews, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 05h00

Um dia, os astrônomos podem detectar um asteroide a meses de um encontro cataclísmico com a Terra. Nossa única chance de sobrevivência em um estágio tão avançado seria tentar usar um explosivo nuclear para destruí-lo.

Mas isso funcionaria?

Ao contrário de alguns sucessos melodramáticos de Hollywood da década de 1990, os cientistas da vida real não estão muito preocupados com os colossos que poderiam esterilizar o planeta. As órbitas de quase todos os asteroides com dois terços de uma milha de diâmetro ou maiores foram mapeadas com precisão. “Sabemos que eles não serão uma ameaça tão cedo”, disse Megan Bruck Syal, pesquisadora de defesa planetária do Lawrence Livermore National Laboratory.

Em vez disso, seu foco está em asteroides relativamente pequenos, aqueles do tamanho de estádios de futebol, notáveis por sua abundância, bem como sua capacidade de escapar de observatórios caçadores de asteroides. “Esses são os que mais nos preocupam, porque podem surgir do nada”, disse Bruck Syal.

Um asteroide tão diminuto pode não parecer muito perigoso em comparação com o colosso de quase 10 quilômetros que se chocou contra a Terra há 66 milhões de anos com resultados apocalípticos. Mas um meteoro que explodiu sobre a Sibéria em 1908 tinha apenas cerca de 60 metros de diâmetro - e a onda de choque da explosão atingiu cerca de 1,2 quilômetros quadrados de floresta. “Esse é o tamanho de toda a área metropolitana de Washington D.C.”, disse Bruck Syal.

Usando simulações de alta fidelidade, os cientistas relataram em um estudo publicado este mês que um asteroide sorrateiro de cerca de 330 pés poderia ser aniquilado por um dispositivo nuclear de 1 megaton, com 99,9% de sua massa explodindo para fora do caminho da Terra, se o asteroide é atacado pelo menos dois meses antes do impacto.

Idealmente, os asteroides direcionados para nosso mármore azul seriam identificados décadas antes do tempo. Nesse caso, a esperança é que uma espaçonave sem tripulação possa colidir com eles com impulso suficiente para empurrá-los para fora do caminho da Terra. Esta estratégia, conhecida como deflexão, terá seu primeiro teste no próximo ano com a missão espacial Double Asteroid Redirection Test (DART) da NASA.

Mas mesmo um asteroide a vários anos de distância da Terra pode não ser adequado para a deflexão. Nesse estágio, pode ser tarde demais para alterar suficientemente sua trajetória com um empurrão. E se qualquer tentativa de deflexão se mostrar muito zelosa, o asteroide pode se quebrar em pedaços menores, mas ainda corpulentos, que podem atingir a Terra em vários pontos.

Usar uma explosão nuclear para destruir um intruso interplanetário "sempre será o último recurso", disse Patrick Michel, um especialista em asteroides do Observatório de Côte d’Azur que não esteve envolvido no estudo. Mas se tivermos pouco tempo, pode ser nossa única esperança.

Uma equipe liderada por Patrick King, um físico do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, realizou simulações em 3D para ver se uma bomba nuclear poderia fornecer a salvação planetária. Como um aspirante a Marco Inaros, um vilão da série de ficção científica The Expanse que planejou bombardear a Terra do espaço, ele lançou asteroides virtuais de 330 pés em nosso planeta por cinco caminhos orbitais diferentes.

Poderosos dispositivos nucleares de 1 megaton foram enviados para saudá-los.

As simulações mostraram que quando a detonação ocorreu dois meses ou mais antes da data projetada para o impacto, foi suficiente para garantir que quase todos os fragmentos de asteroides que sobreviveram à explosão se desviassem da Terra. Quaisquer fragmentos que alcançassem a Terra provavelmente seriam pequenos o suficiente para queimar na atmosfera, disse Bruck Syal, um co-autor do estudo.

Essa estratégia não é infalível. “Se você calcular mal a energia necessária para destruí-lo, poderá fazer muitos fragmentos”, disse Michel - e alguns podem ter tamanho suficiente para impactar a Terra com uma violência considerável.

Ninguém quer esperar até o último momento para ver se uma arma nuclear milagrosa pode salvar o mundo. Mas um dia a humanidade pode não ter escolha: a NASA estima que existam 17.000 asteroides próximos à Terra, de 460 pés ou mais, que ainda serão encontrados.

Para reduzir as chances da emboscada de um asteroide, os cientistas estão sendo pró-ativos. Um futuro telescópio espacial da NASA visa detectar dois terços dessas ameaças em miniatura. Seu esperado sucesso será um alívio para os oficiais de defesa planetária que, talvez mais do que qualquer outra pessoa, não querem perder nada. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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