NASA via The New York Times
NASA via The New York Times
Robin George Andrews, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

Os astrônomos ficam o tempo todo de olho nos andarilhos rochosos e gelados de todas as formas e tamanhos que passam pela Terra. Mas, no início deste mês, eles ficaram pasmos quando avistaram o maior cometa já registrado.

Um de seus descobridores, Pedro Bernardinelli, astrofísico da Universidade da Pensilvânia, faz uma estimativa conservadora: o núcleo empoeirado e gelado do objeto deve ter algo entre 100 e 200 quilômetros de comprimento. Isso significa que este cometa tem apenas o tamanho de cinco ilhas de Manhattan – ou seja, é maior que a Ilha do Havaí. O Hale-Bopp, que iluminou o céu noturno no final da década de 1990 com seu núcleo de 40 quilômetros de comprimento, sempre foi considerado um gigante entre os cometas. Mas o núcleo desse cometa, o Cometa C / 2014 UN271, “tem dois ou três Hale-Bopps de diâmetro”, disse Teddy Kareta, estudante de graduação em astronomia planetária na Universidade do Arizona. “É muito louco”.

“Com um grau razoável de certeza, é o maior cometa que já vimos”, disse Colin Snodgrass, astrônomo da Universidade de Edimburgo.

Atualmente o cometa está dentro da órbita de Netuno. Na próxima década, ele se moverá em direção ao centro do sistema solar. Mais de seus gelos serão vaporizados pelo brilho do sol, fazendo o cometa efervescer e cintilar. Em 2031, ele chegará a um bilhão e seiscentos milhões de quilômetros do Sol – quase chegando a Saturno – antes de viajar de volta às franjas mais frias e escuras de nossa vizinhança galáctica.

Embora seja improvável que uma espaçonave consiga se encontrar com o cometa, localizá-lo enquanto ele ainda está a 3 bilhões de quilômetros de distância significa que, ao longo dos próximos vinte anos, os astrônomos poderão treinar seus telescópios e vê-lo queimar para depois desaparecer, em detalhes surpreendentes.

“Os cometas são como os gatos. Você nunca sabe o que eles vão fazer”, disse Meg Schwamb, astrônoma da Queen’s University Belfast. “Vou só pegar a pipoca e assistir”.

Os cometas são restos de gelo tão antigos quanto o Sol e podem ter fornecido água e matéria orgânica aos mundos rochosos do sistema solar. Então, este leviatã gelado é uma oportunidade fantástica de descobrir uma abundância de segredos cometários.

Ele foi detectado pela primeira vez na Dark Energy Survey, uma iniciativa de pesquisa para mapear galáxias distantes e estrelas em explosão, com o objetivo de investigar a expansão acelerada do universo. Para os caçadores de galáxias, “todas essas rochas em primeiro plano são só um estorvo”, disse Snodgrass. Mas, para os caçadores de cometas, “elas são um estorvo bem interessante”.

Uma pesquisa nos bancos de dados da iniciativa encontrou mais de 800 novas bolas de gelo com órbitas maiores que as de Netuno. Uma delas, chamada de 2014 UN271, foi “de longe a mais interessante que encontramos”, disse Bernardinelli.

Uma série de imagens do objeto capturadas entre 2014 e 2018 revelou que ele era definitivamente gelado, provavelmente alongado, e emergira da nuvem de Oort, uma “concha” expansiva de detritos primordiais que gira em torno do sistema solar. Até aí, nada de extraordinário. Mas, quando suas dimensões impressionantes foram anunciadas, em 19 de junho, os cientistas ficaram maravilhados. O cometa não estava nem perto de ser o maior objeto para além de Netuno. Mas sua trajetória em direção ao Sol significava que, se seu gelo se transformasse em gases, ele se tornaria o maior cometa já encontrado.

Com a curiosidade aguçada, Snodgrass, Schwamb e seus colegas usaram telescópios na África do Sul e na Namíbia para dar uma olhada mais de perto – e viram uma coma cometária, ou seja, um invólucro de gás em torno do cometa. Apesar da distância considerável, alguns de seus gelos mais voláteis – dióxido de carbono e monóxido de carbono, talvez – já estavam sendo vaporizados por raios de luz solar.

Era oficial: tratava-se de um cometa gigantesco. Em 24 de junho, o viajante recém-identificado foi rebatizado de cometa C / 2014 UN271 (Bernardinelli-Bernstein), seguindo o nome de seus descobridores: Bernardinelli e Gary Bernstein, astrônomo da Universidade da Pensilvânia.

O cometa leva cerca de 3 milhões de anos para fazer uma circunavegação completa do Sol. Na última vez em que passou por aqui, os humanos modernos ainda não tinham evoluído. Da próxima vez que passar, quem pode dizer o que terá acontecido com nossa espécie? Talvez seja a única chance que a humanidade terá de vislumbrá-lo.

Em 2031, se você levar um telescópio decente para uma área mais escura, poderá ver seu espectro passar entre as estrelas. A uma distância de um bilhão e seiscentos milhões de quilômetros do Sol, ele não proporcionará a sequência cinematográfica pela qual alguns cometas são famosos, mas você verá um lampejo de luz.

Muitas das oscilações do céu noturno pertencem a objetos incomensuravelmente distantes. Mas não no caso dos cometas – e, assim como todos os seus primos gelados, este é “tão estranho quanto bonito”, disse Kareta. Sua visita nos lembra que o universo não é uma extensão estática, mas um balé caótico, cheio de coisas maravilhosas sempre em movimento./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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