Dave Sanders/The New York Times
Dave Sanders/The New York Times

Como a Lua 'oscilante' afeta a subida das marés

Os cientistas dizem que é menos uma oscilação e mais um ciclo lento e previsível. E, embora o fenômeno contribua para a elevação das marés causadas pelas mudanças climáticas, é apenas um de muitos fatores

Jacey Fortin, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 05h00

Às vezes, a Lua parece se mover de maneiras misteriosas.

Quase sempre ela se move em círculos e elipses, dependendo da sua perspectiva. Mas também tem uma outra coisa – a chamada wobble, ou oscilação – que anima essas rotações e revoluções. De acordo com um estudo publicado em junho, o fenômeno deve provocar mais inundações aqui na Terra em meados da próxima década.

Embora possa parecer alarmante, a oscilação não é novidade. É uma oscilação normal, que os humanos conhecem há séculos, e um dos muitos fatores que podem ou exacerbar o aumento do nível do mar ou neutralizá-lo, junto com outras variáveis, como clima e geografia.

Os autores do estudo, publicado na revista científica Nature Climate Change e revisado por pares, tiveram por objetivo desvendar todas essas variáveis em um esforço para melhorar as previsões sobre o futuro das enchentes. Seus resultados ressaltaram um fato básico alheio ao movimento da Lua: nossos oceanos estão subindo por causa das mudanças climáticas.

“Eles estão chegando muito perto da orla em comunidades costeiras devido a décadas de aumento do nível do mar”, disse William V. Sweet, oceanógrafo do Departamento Oceânico e Atmosférico Nacional e um dos autores do artigo.

O aumento das temperaturas causado pelas emissões de gases de efeito estufa não é a única causa da intensificação do risco de enchentes, e o relatório explorou a interação de muitas variáveis que empurram e puxam os níveis dos oceanos.

“O estudo realmente está ajudando a diagnosticar e desemaranhar a previsibilidade das marés e seus potenciais impactos ao longo da costa”, disse Sweet.

Mas, em reportagens sobre o estudo, uma variável em particular pareceu atrair atenção descomunal: a oscilação da Lua. O estudo alertou que devemos esperar que essa oscilação aumente as marés altas em meados da década de 2030, mas também mostrou que essa previsão não se aplica uniformemente a todos os litorais em todos os lugares.

Como a Nasa disse em um comunicado à imprensa em julho, “Não há nada de novo ou perigoso na oscilação; ela foi relatada pela primeira vez em 1728. A novidade é como um dos efeitos da oscilação sobre a atração gravitacional da Lua – a principal causa das marés na Terra – se combinará com o aumento do nível do mar resultante do aquecimento do planeta”.

Mas, então, de onde, exatamente, vem essa oscilação?

Em primeiro lugar, algumas informações básicas: neste planeta, as marés altas são causadas principalmente pela força da gravidade da Lua sobre a Terra em rotação. Na maioria das praias, você vê duas marés altas a cada 24 horas.

Lua também gira em torno da Terra cerca de uma vez por mês, e essa órbita é um pouco inclinada. Para sermos mais precisos, o plano orbital da Lua em torno da Terra está em uma inclinação de aproximadamente 5 graus em relação ao plano orbital da Terra em torno do sol.

Por causa disso, o caminho da órbita da Lua parece flutuar ao longo do tempo, completando um ciclo completo – às vezes chamado de ciclo nodal – a cada 18,6 anos. “Isso acontece numa escala muito lenta”, disse Benjamin D. Hamlington, coautor do artigo que lidera a Equipe de Mudança do Nível do Mar da Nasa. “Acho que ‘precessão’ é uma palavra mais específica do que ‘oscilação’”.

Em certos pontos ao longo do ciclo, a atração gravitacional da Lua vem de um ângulo tal que puxa uma das duas marés altas um pouco mais para cima, às custas da outra. Isso não significa que a própria Lua esteja oscilando, nem que sua gravidade esteja necessariamente puxando nossos oceanos mais ou menos do que o normal.

“A ênfase no ciclo nodal não é exatamente a mensagem que estávamos tentando transmitir”, disse Hamlington. Mas ele acrescentou que vale a pena prestar atenção ao fenômeno.

Espera-se que as enchentes da maré alta relacionadas às mudanças climáticas quebrem recordes com frequência crescente ao longo da próxima década, e as pessoas que desejam prever com precisão esse risco precisam trabalhar com muitos dados sobrepostos, como padrões climáticos, eventos astronômicos e variação regional das marés.

A oscilação da Lua faz parte desses dados, mas sempre manteve seu próprio ritmo lento e constante.

“Ela está só agindo em segundo plano à medida que o nível do mar sobe”, disse Brian McNoldy, pesquisador sênior associado da Rosenstiel School of Marine and Atmospheric Science da Universidade de Miami.

“Durante sua fase de subida mais rápida, ela atua para aumentar o nível efetivo do mar. E, durante sua fase de descida mais rápida, como estamos agora, ela atua para reduzir o nível efetivo do mar”, disse McNoldy, que escreveu sobre o ciclo nodal lunar, mas não participou do estudo da Nature. “Não faz parte das projeções de aumento do nível do mar porque não é aumento do nível do mar. É apenas uma oscilação”.

Outras variáveis à parte – e falando de maneira muito geral, uma vez que cada região é diferente – o efeito da oscilação poderia fazer com que os níveis da maré alta em determinada praia oscilassem de 2,5 a 5 centímetros ao longo de seu longo ciclo.

Pode parecer pouco. Mas, em certas situações, pode ser bastante significativo.

“Isso meio que eleva a linha de base”, disse Philip R. Thompson, principal autor do estudo e diretor do Centro de Nível do Mar da Universidade do Havaí. “E, quanto mais sobe sua linha de base, menor é o evento climático de que você precisa para causar uma inundação”.

Compreender essa linha de base é importante mesmo quando estamos nas fases do ciclo nodal que parecem contrabalançar o aumento do nível do mar, que é o que está acontecendo agora.

“Se sabemos o que está acontecendo, não podemos ficar de braços cruzados”, disse Thompson. “É importante perceber que, em meados da década de 2030, quando a chave mudar e o ciclo natural parecer amplificar a taxa de aumento do nível do mar, veremos uma mudança rápida”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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