Getty Images e Rob Curran, via Unsplash
Getty Images e Rob Curran, via Unsplash

A verdade sobre os assassinos em massa

A maioria deles não é doente mental, eles estão, isto sim, cheios de ódio - e bem armados

Richard A. Friedman, The New York Times

17 de agosto de 2019 | 12h26

Depois do massacre de 22 pessoas em uma loja Walmart em El Paso, no Texas, recentemente, de autoria de um único homem, o presidente Donald J. Trump declarou que os assassinos em massa são “monstros que padecem de doenças mentais”. Uma explicação conveniente - e enganadora - que distraiu a atenção do público de uma possibilidade mais sombria que se encontra por trás deste terror inimaginável. O assassino pode ter agido de maneira racional, movido apenas por um imenso ódio.

É razoável pensar que quem mata 22 seres humanos a sangue frio deva ser um indivíduo desequilibrado ou sofra de uma doença mental. Mas a verdade a respeito dos autores destas chacinas e sua ligação com a doença mental é mais complicada do que isto.

Um dos mais amplos estudos sobre assassinos em massa, realizado pelo dr. Michael Stone com 350 pessoas, mostrou que apenas 20% deles sofriam de uma doença psicótica; os outros 80% não tinham uma doença mental diagnosticável - apenas o stress, a raiva, o ciúme e a infelicidade que qualquer um de nós pode sentir.

Do mesmo modo, um estudo do FBI sobre matadores ativos entre 2000 e 2013 mostrou que apenas 25% deles tinham recebido um diagnóstico psiquiátrico e somente 5% tinham uma doença psicótica. (Alguns dos meus colegas psiquiatras destacam que assassinos em massa em geral sofreram abusos físicos e sexuais no passado. Com certeza, mas considerando o predomínio de tais abusos nos Estados Unidos parece óbvio que, em sua grande maioria, indivíduos traumatizados não chegam a se tornar todos assassinos em massa.)

A clara implicação destas conclusões é que pessoas dominadas por uma emoção comum são capazes de realizar atos revoltantes de violência; não é preciso ter uma doença mental para ser um “monstro”.

Não há como saber ao certo se o suspeito das mortes de El Paso, Patrick Crusius, 21, é mentalmente doente sem um conhecimento detalhado do seu histórico pessoal e médico. Mas o que ele escreveu e postou online sugere que não deveríamos afirmar tão depressa que ele é uma pessoa doente.

Em um manifesto que lhe foi atribuído, Crusius criticou duramente a imigração, descreveu um plano para separar os EUA em áreas distintas por raças, e alertou a população branca de que seria substituída por estrangeiros. Ele afirmou que “este ataque é uma resposta à invasão hispânica do Texas”.

Na minha opinião, a declaração pareceu lógica, coerente e não particularmente errática ou delirante. O curioso é que o manifesto pareceu ecoar o que Trump fala o tempo todo a respeito dos imigrantes.  Por exemplo, em um recente comício na Flórida o presidente disse: “Olhem o que está a caminho, é uma invasão!”

Vendo o episódio desta perspectiva, é totalmente plausível que o matador de El Paso seja uma pessoa racional que se inspirou em uma ideologia racista de ódio.

A verdade assustadora é que o ódio e a agressão do ser humano comum são muito mais perigosos do que qualquer doença psiquiátrica. Basta pensar na quantidade de pessoas que se sentem impelidas a assassinar multidões porque foram demitidas do emprego ou abandonadas pelo parceiro amoroso. Com toda a probabilidade, não se tratava de indivíduos mentalmente doentes, mas apenas cheios de raiva - e armados. Na realidade, a doença mental contribui para cerca de 3% dos crimes violentos nos EUA. A evidência mais concreta mostra que há um pequeno aumento no risco de violência somente para pessoas portadoras de graves distúrbios mentais, como bipolaridade e esquizofrenia.

A ideia de que possamos identificar matadores em massa antes de eles agirem ainda é uma ficção epidemiológica. Estes indivíduos costumam evitar o contato com o sistema de saúde mental. E mesmo que não o evitem, psiquiatras experientes não se saem muito melhor do que em um jogo de dados em prever a violência.

Outros assassinos em massa comprovam o fato. Brendon Tarrant, que chacinou 51 pessoas em março em uma mesquita de Christcurch, na Nova Zelândia, não sofria de uma doença mental, segundo constatou um tribunal. Ao contrário, ele era um supremacista branco que planejou a chacina durante dois anos e se inspirou numa ideologia anti-imigração e racista semelhante à de Crusius. E como Crusius, ele acreditava em uma teoria da conspiração supremacista branca chamada  “grande substituição”, segundo a qual, com a cumplicidade das “elites”, os europeus brancos estão sendo substituídos por pessoas não europeias pela imigração em massa.

E há ainda Dylann Roof, que em 2015 matou nove pessoas em uma igreja de Charleston, Carolina do Sul. Ele também expressou o seu ódio racial em um manifesto online. Embora um psiquiatra tenha constatado que ele sofria de um distúrbio de ansiedade social e um ligeiro autismo, nenhum destes diagnósticos implica um estado de psicose que poderia tê-lo tornado incapaz de compreender a natureza de seus atos.

A julgar pelos seus manifestos, podemos imaginar que, no mínimo, estes assassinos esperavam a aprovação social dos que compartilhavam de sua ideologia racista, sem falar em seu desejo de fama.

Dado o ressurgimento global do nacionalismo branco e da xenofobia nos últimos anos, acaso surpreenderá que alguns indivíduos reajam a este clima de ódio canalizando tais ideias de maneira violenta? Afinal, somos animais sociais e nos deixamos facilmente afetar pelo nosso ambiente. E nos dias de hoje este ambiente está repleto de raiva.

O que isto sugere é que reforçar os programas de saúde mental - embora este seja um objetivo muito importante - não resolverá a nossa epidemia de massacres.

Medidas mais eficientes deveriam prever o controle de armas, inclusive aumentar as verificações do passado das pessoas e a ampliação das chamadas ordens de proteção contra risco extremo, que permitiriam que a polícia retirasse temporariamente armas de fogo de pessoas consideradas potencialmente violentas.

Isto deveria assustar todo mundo. O próximo assassino anda por aí - em algum lugar - estudando cuidadosamente o que dizemos e fazemos com os outros. E ele pode ser tão sadio quando você ou eu.

Richard A. Friedman é professor de psiquiatria clínica e diretor da clínica psicofarmacológica do Weill Cornell Medical College. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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