Agence France-Presse - Getty Images via The New York Times
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Ataque aéreo liderado por sauditas mata 44 crianças no Iêmen

A tragédia traz à tona novos questionamentos sobre o papel dos Estados Unidos em guerras no Oriente Médio

Shuaib Almosawa, Ben Hubbard e Eric Schmitt, The New York Times

22 Agosto 2018 | 15h00

DAHYAN, IÊMEN - Os meninos se amontoavam no ônibus, três em cada assento. Os mais atrasados tiveram de ficar de pé no corredor. Todos estavam muito empolgados com a viagem para o campo. Horas depois, quase todos estavam mortos.

Quando pararam para lanchar na aldeia de Dahyan, no norte do Iêmen, um ataque aéreo da coalizão de nações árabes, liderada pelos sauditas, explodiu nas proximidades, transformando o ônibus em uma massa de metal retorcido e espalhando sua carga humana - ferida, sangrando e morta - pela rua, de acordo com pais e testemunhas.

"Minha perna está torta", gritou um menino coberto de sangue. "Um jato nos atingiu", disse ele em um vídeo feito no local do ataque. Autoridades de saúde disseram que 54 pessoas foram mortas, 44 delas crianças, e muitas outras ficaram feridas.

O conflito no Iêmen começou em 2014, quando os rebeldes houthi, que estão alinhados com o Irã, tomaram o controle da capital, Sana, e mandaram o governo para o exílio. Em março de 2015, a Arábia Saudita - principal rival do Irã na disputa por poder e influência no Oriente Médio - formou uma coalizão de nações árabes e deu início a uma intervenção militar com o objetivo de restaurar o governo do Iêmen. Até agora, não teve êxito.

O ataque de 9 de agosto foi chocante, mesmo para uma guerra na qual as crianças sempre foram as principais vítimas, sofrendo uma das piores crises humanitárias do mundo, com desnutrição galopante e surtos de cólera. A guerra já havia matado mais de 10 mil pessoas até a ONU parar de atualizar o número de mortos, há dois anos. O ataque, por sua vez, aéreo reacendeu questionamentos sobre as táticas da coalizão e o apoio dos Estados Unidos à campanha.

Os líderes militares americanos insistem que os Estados Unidos não participam da guerra. Grupos de defesa dos direitos humanos dizem que o país não pode negar seu papel, pois vendeu bilhões de dólares em armamentos para os Estados aliados da coalizão, forneceu-lhes dados de inteligência e reabasteceu seus bombardeiros no ar.

O Congresso dos Estados Unidos vem demonstrando crescente preocupação com a guerra. Um projeto de lei assinado pelo presidente Donald J. Trump exige que o Departamento de Estado certifique-se de que a Arábia Saudita e seus aliados, os Emirados Árabes Unidos, estejam tomando medidas para evitar a morte de civis. Se não for possível garantir essa certificação, a legislação impedirá o reabastecimento americano dos jatos da coalizão.

A coalizão liderada pela Arábia Saudita afirma que trabalha para evitar mortes de civis e acusa seus inimigos, os houthis, de usá-los como escudos humanos. No dia do ataque, o porta-voz da coalizão, coronel Turki al-Malki, afirmou que forças da coalizão atingiram um "alvo militar legítimo" depois que um míssil houthi matou uma pessoa e feriu 11 no sul da Arábia Saudita, fronteira com o Iêmen.

"Todos os elementos que estavam no ônibus eram alvos", disse o coronel Malki à rede Al Arabiya, de propriedade saudita, afirmando que entre eles estavam "operadores e planejadores".

A coalizão disse que o ataque aéreo foi submetido a uma investigação interna depois de relatos sugerirem que "um ônibus pode ter sofrido danos colaterais".

Os garotos no ônibus tinham entre 6 e 16 anos. A maioria era de Dahyan, uma aldeia pobre na província de Saada, na fronteira com a Arábia Saudita. A província é o local de origem dos houthis, e a coalizão já a bombardeou pesadamente. Os houthis usam a área para lançar ataques à fronteira da Arábia Saudita e disparar mísseis contra o reino.

Os meninos participavam de um programa religioso de verão organizado pelos houthis. Um dos garotos, Osama al-Humran, filmou os colegas com o celular. Muitos vestiam casacos esportivos em cima das vestes iemenitas, o que significa que estavam vestidos para uma ocasião especial.

O vídeo então os mostra na sua parada seguinte, um memorial e cemitério chamado Jardim dos Mártires.

Em um grande galpão decorado com fotos de mortos na guerra, um homem guiava os garotos em meio a orações e cânticos. Uma placa ao lado da porta trazia o lema dos houthis: "Deus é grande. Morte à América. Morte a Israel. Malditos sejam os judeus. Vitória para o Islã".

Depois, os meninos correram para o cemitério.

Osama estaria entre os mortos no ataque. Os vídeos foram encontrados em seu telefone, de acordo com Yahya al-Shami, que trabalha na Al-Maseera, emissora de televisão dos houthis, que exibiu as imagens.

Autoridades locais mostraram ao The New York Times um leme de metal que encontraram nas proximidades e que, segundo disseram, fazia parte da bomba. A inscrição no leme de metal indica que o artefato foi produzido pela contratante norte-americana General Dynamics e funcionava como sistema de orientação de uma bomba de 227 quilos.

O Times não conseguiu confirmar se o leme de metal pertencia à bomba usada no ataque aéreo. Mas restos de armas fabricadas nos Estados Unidos são encontrados com frequência nos escombros dos ataques aéreos no Iêmen.

Em um hospital próximo dali, Abdul-Rahman al-Ejri consolava seu filho de 11 anos, que teve uma perna quebrada no ataque. O pai ficou furioso ao saber que a coalizão afirmara que o ônibus levava conspiradores militares.

"Este aqui é grande comandante, juntamente com seus companheiros", disse Ejri, sarcasticamente. "Como eles podem tramar qualquer coisa? São apenas crianças, armadas só com canetas, cadernos e livros".

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