Carl Court/Getty Images
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Ataque com faca desperta medo dos reclusos no Japão

Os chamados ‘hikikomori’ são adultos que vivem enfurnados na casa dos pais, não trabalham e raramente se envolvem com o mundo exterior

Motoko Rich, The New York Times

12 de junho de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Depois de um episódio em que 19 pessoas foram esfaqueadas em um ponto de ônibus no fim de maio, o Japão procura respostas para o que pode ter motivado alguém a cometer um ato tão horrível. A mídia e os investigadores se concentraram no fato de o criminoso viver como extremo recluso - ou “hikikomori", como a condição é conhecida no Japão.

Pouco depois, uma autoridade aposentada esfaqueou até a morte o filho adulto de 44 anos, que vivia com os pais. O pai temia que o filho, que já tinha abusado fisicamente da mãe, pudesse atacar outros. Mesmo antes da violência recente, centenas de milhares de hikikomori enfrentavam a estigmatização no Japão. Agora, psiquiatras e defensores dos direitos humanos temem que uma nova onda de pânico torne essas figuras ainda mais vilificadas.

Os hikikomori são adultos que vêm morar enfurnados na casa dos pais ou de outros parentes por períodos de seis meses ou mais, frequentemente confinados em um único cômodo. Não trabalham e raramente se envolvem com o mundo exterior. Não conseguem manter relacionamentos, nem mesmo com os parentes que cuidam deles. Alguns vivem nesse estado há anos ou décadas.

Há quase 1,2 milhão de pessoas que se identificam como hikikomori - aproximadamente um em cada 60 japoneses com idade entre 15 e 64 anos. A grande maioria é de homens. Embora não sejam os primeiros casos de crimes violentos envolvendo os hikikomori, especialistas dizem que a correlação é rara. Eles podem ser afetados pela esquizofrenia, depressão e ansiedade, ou podem estar no espectro do autismo. Como outros no Japão, eles raramente buscam ajuda para seus problemas de saúde mental porque sentem vergonha, assim como suas famílias.

“A abrangência do problema não se resume a um episódio de ataque com faca cometido por alguém que por acaso é hikikomori", disse Alan Teo, professor assistente de psiquiatria da Universidade Oregon Health and Science, em Portland. “É, na verdade, um problema que afeta centenas de milhares de indivíduos que vivem em um prolongado estado de isolamento sem nenhum envolvimento ativo com tratamentos de saúde mental”.

Alguns psiquiatras dizem que indivíduos vulneráveis podem ter sofrido bullying durante a adolescência, ou nunca aprenderam a lidar com a raiva e o estresse. O psiquiatra Takahiro A. Kato, da Universidade Kyushu, que pesquisa os hikikomori, disse que o sistema de ensino do Japão, que enfatiza o constrangimento na sua busca por conformidade e pode enfraquecer a autoconfiança, pode ser a origem dessa tendência nos reclusos.

Outros apontam para fatores econômicos - os hikikomori começaram a aparecer em grandes números depois que a bolha imobiliária estourou no Japão nos anos 1990, deixando muitos sem trabalho. Alguns pesquisadores dizem que o fenômeno é mais pronunciado no Japão porque a família nuclear é central para a sociedade. “Por causa do funcionamento do bem estar social no Japão, é difícil para os pais recusar essas responsabilidades", disse Sachiko Horiguchi, antropóloga do campus da Universidade Temple em Tóquio.

Mas ocultar tudo dentro do lar pode criar um círculo vicioso no qual os hikikomori e seus parentes se sentem presos. “Com a força do valor japonês de assumir a responsabilidade pelas próprias ações, os problemas familiares devem ser resolvidos dentro da família", afirmou Natsue Onda, codiretora do grupo Hikikomori UX Kaigi, formado por hikikomori e ex-hikikomori.

Muitos centros de apoio operados pelo governo se concentram principalmente em tirar os hikikomori do isolamento e reintroduzi-los na força de trabalho, solução que nada faz para tratar das questões psicológicas. Quanto mais os hikikomori forem demonizados ou categorizados como problemáticos e estranhos, mais difícil será sua aceitação pela sociedade, ou a oferta de um emprego.

Há serviços privados que ajudam os hikikomori, mas esses podem ser caros, e não há exigência para que ofereçam cuidados psiquiátricos. Um desses serviços é a empresa ReSTART, de Tóquio, que tira os hikikomori da casa dos pais e os leva a dormitórios. Shigeru Kusano, líder da empresa, orientou que "qualquer um que tenha a compaixão e a força de vontade para ajudar os outros pode fazer esse serviço". / EIMI YAMAMITSU E HISAKO UENO CONTRIBUÍRAM COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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