Olufson Jonas/Ritzau Scanpix, via Associated Press
Olufson Jonas/Ritzau Scanpix, via Associated Press

Ataque no Sri Lanka dizima famílias em lados opostos

Dois filhos de um rico comerciante do país se explodem e matam centenas de pessoas, entre elas três filhos de milionário dinamarquês

Jeffrey Gettleman, Kai Schultz, Mujib Mashal e Russell Goldman, The New York Times

05 de maio de 2019 | 06h00

COLOMBO, SRI LANKA - Pouco antes das 9h no domingo de Páscoa, Anders Holch Povlsen, o homem mais rico da Dinamarca, tomava o café da manhã com a família no restaurante Table One do Hotel Shangri-La em Colombo, a capital do Sri Lanka. O restaurante estava decorados com cestos de laranjas, maçãs e abacaxis, e a família admirava as ondas do oceano arrebentando em uma parede de água não muito distante dali. 

Ao mesmo tempo, Ilham Ibrahim, o filho de um dos comerciantes de especiarias mais ricos do Sri Lanka, se dirigia ao Table One. Com seu boné de beisebol e uma grande mochila, pegou o elevador com um amigo. Pouco antes de a porta se abrir, como mostram as câmeras de segurança, o amigo de Ilham dirigiu-lhe um amplo sorriso branco. As duas famílias, Povlsen e Ibrahim, logo iriam se cruzar.

Uma delas era bilionária em dólares. A outra, em rupias. Uma construíra uma fortuna com a fabricação de jeans, camisas de gola rolê e todo tipo de vestuário da moda. A outra, com o comércio de pimenta branca, preta, e todo tipo de especiarias. Ambas eram muito conhecidas e admiradas com negócios extremamente bem-sucedidos de lados opostos do planeta e talvez do espectro ideológico. Em um instante, cinco de seus filhos - Ilham, Inshaf, Alma, Agnes e Alfred - foram feitos em pedaços, um lado assassinado perto do outro.

Dois dos filhos de Ibrahim - Ilham e seu irmão mais velho, Inshaf - faziam parte do grupo de terroristas suicidas autores de uma série de ataques devastadores em todo o país. Os muçulmanos do Sri Lanka indagaram dolorosamente por que motivo dois de seus filhos mais privilegiados fariam algo assim.

"Todo mundo me faz a mesma pergunta", disse Hilmy Ahmed, vice-presidente do Conselho Muçulmano do Sri Lanka. "Não sei se haverá uma resposta".

Duas semanas depois do assassinato de 250 pessoas nos ataques de extremistas islâmicos, uma calmaria nada natural se estabeleceu em áreas normalmente agitadas, como a Old Moor Street em Colombo onde os Ibrahim tinham seu império de especiarias atrás de uma loja despretensiosa com um portão cinzento.

O Hotel Shangri-La ergue-se com sua silhueta esbelta no maravilhoso cenário da Avenida Galle Face, um paralelepípedo de 32 andares de aço e vidros azulados com vista total do Oceano Índico. Os Povlsen estavam hospedados aqui durante as férias escolares de Páscoa dos filhos: Anders, o principal executivo extremamente reservado de uma enorme companhia de vestuário da moda, chamada Bestseller; a esposa, Anne; e seus quatro filhos, entre 5 e 15 anos. 

Alma era a mais velha. Ela havia compartilhado algumas fotos de sua viagem pelo Instagram, mas ao que parece, gostava de manter intencionalmente vagas as suas mensagens: ondas de cristal contra um céu tropical azul, um retrato dos irmãos, fotografados de costas.

Talvez houvesse uma razão para isso. No final dos anos 1990, um chantagista penetrara na propriedade dos pais de Anders e ameaçara matá-los se não recebesse o pagamento. Poucos anos mais tarde, sequestradores levaram um homem para a Índia e exigiram o resgate, acreditando tratar-se de Povlsen. Soren Jakobsen, um biógrafo que escreveu sobre a família, disse que "a principal prioridade de Povlsen durante 20 anos foi a segurança". Anders, 46, não gostava que tirassem fotos dele e evitava as redes sociais.

A família vivia em uma mansão de 600 anos, completamente reclusa. Também era dona de vários castelos e de 89 mil hectares de terra na Escócia, que Anders prometeu "devolver ao seu estado primitivo", como afirmou. Segundo a revista Forbes, ele é dono de US$ 8 bilhões.

Jakobsen descreveu Povlsen como "um empresário sólido, honesto e idealista". Era mais ou menos o que muitos falavam da família Ibrahim. 

Atentado. Mohamed Ibrahim adorava contar a história de seu anel. Era o final dos anos 1960, e ele era um menino sem instrução de Delthota, cidade do exuberante centro do Sri Lanka. Ele vendeu seu anel favorito para comprar uma passagem para Colombo, sozinho. Nunca olhou para trás. Nos meandros do bairro muçulmano de Colombo, ele trabalhou como cozinheiro, e depois como vendedor de cebolas. Em seguida, passou a vender gergelim e pimenta. Um saco após o outro, subiu os degraus do comércio de especiarias.

O clima tropical do Sri Lanka e seu solo rico produzem alguns dos temperos mais desejados do mundo. Até recentemente, Ibrahim tinha uma das maiores exportadoras de especiarias da ilha, despachando anualmente mais de 9 mil toneladas de pimenta para a Índia. Comprava e vendia tanto, afirmam os comerciantes, que podia estabelecer os preços. Também foi presidente da Associação de Comércio de Colombo, morava em uma mansão nos arredores da capital e tinha uma frota de seis automóveis, inclusive uma BMW.

Os familiares diziam que Ibrahim, mesmo com quase 70 anos, era um trabalhador incansável, levantava às 4h da madrugada, ia para a mesquita, e depois fazia uma refeição simples em casa. Passava o restante do dia em sua fábrica de especiarias, esfregando entre os dedos os grãos de pimenta, inspecionando a qualidade de seus produtos. O escritório de Ibrahim fica na Old Moor Street, onde os aromas do cominho, do chili e da canela se mesclam no ar. Gostava de dirigir um novo Toyota branco Landcruiser e era mais alto do que a média para os homens de Sri Lanka, cerca de 1,80 metro. Era um homem musculoso.

Anos atrás, na Universidade D.S. Senanayake, considerada uma das escolas de maior prestígio de Colombo, seu apelido era Kudda, ou Pó, uma referência ao negócio de especiarias da família. Inshaf estava sendo preparado para assumir seu lugar; seu pai havia transferido para ele uma fábrica de tubos de cobre. Uma foto de 2016 mostra Inshaf sorrindo enquanto pai e filho aceitavam um prêmio das mãos de um ministro. Ilham, o segundo filho, cerca de 31 anos, era mais reservado. Aparentemente, sua função era supervisionar a fazenda de pimenta da família perto de Matale, uma cidade a poucas horas de distância. 

Imagens no Instagram de Alma indicam que ela estava no Sri Lanka há pelo menos quatro dias. Uma imagem, tirada na quinta-feira antes da Páscoa, no Sri Lanka, mostra três crianças mais novas, supostamente seus irmãos, sentadas à beira de uma piscina. A legenda diz: "Três amorzinhos".

Na noite anterior aos ataques da Páscoa, segundo um membro da família, Inshaf comunicou à esposa que ia viajar para Zâmbia. Ao despedir-se dela, demorou um pouco fora do carro e disse: "Seja forte". Então, hospedou-se no Cinnamon Grand hotel de Colombo. Seu irmão Ilham foi para o Shangri-La. Inshaf usou uma identidade falsa, mas Ilham usou seu nome real.

Imagens de câmeras de segurança do Shangri-La mostram Ilham entrando no elevador e mais tarde no restaurante Table One com outro homem que agora foi identificado como Zaharan Hashim, suspeito de ser o mentor dos ataques. Segundo as autoridades, Zaharan era um pregador muçulmano extremista que recrutava jovens para o Estado Islâmico no leste de Sri Lanka e atraía seguidores postando vídeos violentos no YouTube.

Não se sabe ao certo como Zaharan e Ilham se conheceram, mas familiares de Ibrahim contam que Ilham era mais devoto do que os outros da família e que sua esposa, Fatima, cobria o rosto todo com um véu, o que era inusitado no Sri Lanka.

Se Ilham buscou orientação espiritual, é possível que a tenha encontrado com Zaharan. Por outro lado, se Zaharan tinha planos criminosos, a fortuna da família Ibrahim poderia financiá-los.

No domingo de Páscoa, o céu estava claro em Colombo. O sol brilhava. Todos os principais hotéis da capital - e as igrejas - estavam lotados. O Table One ia se enchendo de hóspedes, que sentavam em fileiras de poltronas verdes, no salão iluminado pela luz abundante que jorrava pelas janelas.

Ilham e Zaharan entraram no restaurante por portas diferentes. Por volta das 8h50, eles se explodiram.

Trinta e três pessoas morreram no Shangri-La, inclusive três dos quatro filhos de Povlsen.

Em uma foto tirada no National Hospital de Sri Lanka em Colombo, horas mais tarde, um homem que aparenta ser Povlsen segura desesperado um celular perto do ouvido, a camisa manchada de sangue, o olho esquerdo inchado quase fechando.

No Cinnamon Grand, imagens das câmeras de segurança mostram Inshaf, com uma mochila e um boné de jogador, entrando no salão do restaurante. Mas depois ele para. Avança e então volta, vai para frente e para trás, várias vezes, o corpo rígido. 

"Ele claramente relutava", disse um membro da família. "Ele sempre se relacionava mais com as pessoas do que Ilham".

Mas se Inshaf sentiu certa hesitação, logo a superou. Ele se matou juntamente com outras 20 pessoas. No espaço de minutos uns dos outros, sete suicidas detonaram as mochilas repletas de poderosos explosivos no Sri Lanka, estraçalhando pessoas em três hotéis e três igrejas.

Como Ilham usou a própria identidade quando entrou no Shangri-la, os policiais descobriram quem ele era. Em poucas horas, a polícia correu para a mansão dos Ibrahim. Foi recebida na porta por uma mulher que deu meia volta e subiu rapidamente as escadas. Era Fátima. No alto da escadaria na frente dos três filhos, Fatima se explodiu, matando três policiais e todos os seus filhos, de 5 e 4 anos e um de nove meses. Os policiais disseram que ela talvez estivesse grávida. Ibrahim, o patriarca da família, saiu algemado a um policial e foi levado.

No dia 25 de abril, mais de mil pessoas na cidade da família Povlsen, Stavtrup, realizou uma vigília com tochas em frente à casa da família. Alguns dos presentes não conseguiram segurar as lágrimas.

Ibrahim continua preso: a maioria de seus associados acredita que ele não sabia de nada a respeito do plano do suicida. Ahmed, vice-presidente do Conselho muçulmano do Sri Lanka, disse que é possível que Ibrahim esteja sendo torturado.

"Se quiserem, farão isso", disse. “Tenho certeza". / Dharisha Bastians, Aanya Wipulasena, Martin Selsoe Sorensen e Maya Tekeli contribuíram para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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