Sandy Huffaker/Agence France-Presse
Sandy Huffaker/Agence France-Presse

Ataques a templos religiosos aterrorizam fiéis

Assim como diretores de escolas, líderes religiosos começam a adotar medidas para a eventualidade de ataques em massa

Louis Keene, Jennifer Medina e Elizabeth Dias, The New York Times

04 de maio de 2019 | 06h00

POWAY, CALIFÓRNIA - O rabino acabara de consolar uma senhora da congregação enquanto ela se preparava para fazer a tradicional oração dos mortos em homenagem à mãe quando se ouviu um forte estrondo na sinagoga. O serviço do Shabbat estava pela metade, no dia 27 de abril, quando um indivíduo armado transformou o que deveria ser um momento de conforto em um dia de horror. O rabino, Yisroel Goldstein se virou e viu o corpo da mulher, Lori Gilbert Kaye, 60 anos, desabar ao chão. 

Ele se precipitou na sua direção quando viu várias criancinhas olhando enquanto o atirador desencadeava o ataque na Chabad de Poway. "Meu instinto foi ir até ela, mas ao me virar em direção de uma porta, vi as criancinhas que estavam lá, apavoradas", disse. Àquela altura, o rabino havia levado tiros em ambas as mãos. "Eu agarrei as crianças com meus dedos ensanguentados. Elas berravam e eu gritava".

Enquanto o rabino saía correndo com as crianças, o marido de Lori, um médico, correu para ajudá-la. Mas ao se dar conta de que era sua esposa que estava no chão, desmaiou. Sua única filha soluçava ao lado dele em estado de choque, contou o rabino. "Foi uma coisa horrorosa, um horror. Pareciam imagem do Holocausto".

Poucos meses atrás, em outubro, depois de outro ataque inspirado pelo ódio em uma sinagoga de Pittsburgh, na Pensilvânia, o rabino concluíra um treinamento para enfrentar situações como esta. Mas, segundo ele, parecia impossível imaginar que a mesma coisa viria a acontecer em sua própria congregação.

Agora, Goldstein e outros líderes religiosos nas sinagogas e em outras casas de oração defrontam-se com uma nova realidade. Assim como os diretores de escolas, os líderes religiosos precisam adotar medidas e preparar-se para a eventualidade de ataques em massa. Os mais recentes mostraram que os serviços religiosos se tornaram cada vez mais vulneráveis.

O atentado em Poway, cerca de 40 quilômetros ao norte de San Diego, coincide com um aumento significativo dos crimes de ódio e também de atos de antissemitismo. O atirador, identificado pela polícia como John Earnest, de 19 anos, escreveu um documento manifestando o mesmo tipo de visão supremacista branca dos autores dos ataques na sinagoga de Pittsburgh e nas mesquitas da Nova Zelândia. Os recentes atentados a bomba em igrejas e hotéis do Sri Lanka deixaram centenas de mortos.

Nos últimos anos, instituições judaicas investiram de maneira significativa na segurança e passaram a usar serviços privados de segurança, câmeras, patrulhas de voluntários e outras medidas, de acordo com Jerry Silverman, presidente das Federações Judaicas da América do Norte.

Segurança e treinamento. Durante muito tempo, as igrejas afro-americanas tiveram de conviver com a probabilidade de ameaças à sua segurança. Mas, de acordo com  agora, a reverenda Ronell Howard, 50, pastora da Igreja Metodista Unida de Cristo de Piscataway, em Nova Jersey, os recentes acontecimentos mostram a muitas congregações brancas que sua sensação de segurança pode ser falsa. "Quando conto aos meus colegas caucasianos que as igrejas negras sempre tiveram segurança, eles ficam estupefatos", disse.

Ela também acredita que o aumento da violência tem menos a ver com religião do que com fomentar o medo a fim de manter as pessoas em uma enorme sensação de vulnerabilidade. Para ela, as pessoas com fé devem repetir uma mensagem: "Deus não nos deu este espírito de temor, mas de amor e coragem".

O rabino Goldstein disse que sua congregação nunca contratou guardas armados porque não tinha condições econômicas para tanto, e que o governo deveria começar a pagar pela segurança. 

"Isso não teria acontecido se tivéssemos guardas. O governo dos Estados Unidos deveria reconhecer a gravidade da situação assim como esta nova realidade. Esta, infelizmente, é a nova norma. Se eu dispusesse de recursos, poderíamos ter sido poupados. Quantas mortes ainda teremos de testemunhar antes de agir?", lamentou.

Em 2017, a Federação Judaica da Grande Pittsburgh contratou o agente aposentado do FBI Brad Orsini "diretor da segurança comunitária". Ele começou a treinar a equipe e os integrantes da organização judaica da região. "É muito triste. Precisamos treinar os congregados para que garantam sua própria segurança e possam orar", disse Orsini ao voltar de uma sessão de treinamento.

O protocolo que ele ensina não mudou: observar os sinais de ódio, como evacuar as pessoas, onde esconder-se se a evacuação não for possível, como lutar e como tratar dos feridos. O que mudou, prosseguiu, é o interesse, que vai além da comunidade judaica. Ele foi convidado por várias organizações religiosas para discutir planos de segurança.

No Centro Islâmico de Frededricksburg, na Virgínia, os pais se revezam permanecendo em seus carros depois de deixar os filhos na escola dominical. Sara Shanab, 23, cujos filhos frequentam a mesquita, disse que sua comunidade já sofreu ataques. Mas o medo aumentou depois dos atentados de março na Nova Zelândia, quando um atirador matou 50 pessoas em duas mesquitas. "A comunidade se une em momentos de caos e estresse. É por isso que tenho uma sensação de segurança", disse.

Russell Moore, presidente da Comissão de Ética e Liberdade Religiosa da Convenção Batista do Sul, observou que, atualmente, é muito comum as equipes das igrejas e de segurança treinarem com armas de fogo. "Todo grupo religioso sente-se vulnerável em um momento como este, em que a violência é imprevisível e caótica", afirmou. "Podemos discordar a respeito de todas as coisas importantes, até mesmo em questões fundamentais, mas seguramente todos têm de concordar que ninguém deve morrer com um tiro na hora da adoração".

A sensação de medo e a necessidade de aumentar a segurança vão muito além dos Estados Unidos. De acordo com o governo de Sri Lanka, os atentados nas igrejas podem ter sido em retaliação aos atentados nas mesquitas da Nova Zelândia. No dia seguinte ao ataque de Christchurch, os serviços do Shabbat nas sinagogas foram cancelados em toda a Nova Zelândia a conselho da polícia.

Barry Werber, que sobreviveu ao atentado na Pensilvânia, não consegue acreditar que não seja mais possível realizar um serviço religioso se não houver segurança. Por mais que isso o entristeça, ele acredita, reunir-se sem guardas armados agora é uma imprudência. "Alguns membros da minha família estiveram em campos de concentração. Eles conseguiram escapar, mas, agora, isso volta a se repetir", disse Werber, 77, filho de poloneses que migraram para os Estados Unidos.

"A polícia precisa reconhecer que nossas casas de adoração estão sendo saqueadas. Agora que as casas de adoração são cada vez mais visadas, precisamos sair da caixa, reformular nossas posições e nos prepararmos para agir na questão da segurança", disse Eric L. Adams, capitão reformado do Departamento de Polícia de Nova York.

O rabino Goldstein pensou nas crianças que testemunharam o ataque em Poway, como sua neta de 4 anos. "Ela não merece isso. Nosso povo foi para o inferno e voltou. Preciso que nossos irmãos judeus sejam fortes e tenham orgulho de nossa herança". / Campbell Robertson, Laura Dimon, Christina Goldbaum e Charlotte Graham-McLay contribuíram para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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