Narong Sangnak/EPA, via Shutterstock
Narong Sangnak/EPA, via Shutterstock

Ataques aumentam o medo entre ativistas tailandeses

Conforme a Tailândia faz a transição do governo de uma junta militar para uma liderança recém-eleita, manifestações de ativistas são recebidas com intimidações

Hannah Beech, The New York Times

11 de julho de 2019 | 06h00

BANGCOC - O ativista defensor da democracia Sirawith Seritiwat estava correndo para pegar um ônibus quando os homens o atacaram, batendo na sua cabeça até fraturar a órbita ocular, quebrar o nariz e deixar seus olhos inundados de sangue. Sentada perto do quarto dele em um hospital de Bangcoc, Patnaree Chankij, a mãe de Sirawith, disse considerar o filho sortudo. “Estou sorrindo porque meu filho não está morto", disse. “Ele não tem medo de nada e seguirá lutando pelo que acredita".

Conforme a Tailândia faz a transição do governo de uma junta militar para uma liderança recém-eleita, que faz pouco de muitos dos marcos do governo democrático, um grupo de ativistas defende que o país merece mais. Suas campanhas pacíficas - pequenas reuniões nos parques, publicações no Facebook e algumas músicas de protesto - foram recebidas com intimidação. O ataque de 28 de junho contra Sirawith, que já tinha sido espancado, é um dos cerca de 10 casos ocorridos nos doze meses mais recentes envolvendo ataques contra ativistas.

Ainda mais alarmante, dissidentes que moram no país vizinho, Laos, apareceram mortos no Rio Mekong com a barriga cheia de concreto. “O fracasso das autoridades tailandesas em investigar a sério esses ataques serve como incentivo a novos episódios e sugere um possível envolvimento das autoridades", disse Brad Adams, diretor da Human Rights Watch na Ásia. 

Como muitos ativistas, Sirawith, de 27 anos, está envolvido há algum tempo em diferentes casos nos tribunais, com acusações que vão da formação de reuniões políticas ilegais e desacato ao tribunal à contravenção da Lei de Crimes Eletrônicos do país. “Não lembro exatamente as circunstâncias de cada caso, mas sei que as acusações contra ele são ridículas", afirmou Weerachai Fendi, amigo de Sirawith que enfrenta seus próprios desafios jurídicos.

A mais recente eleição, em março, teve como resultado a permanência de Prayuth Chan-ocha, líder da junta militar responsável por um golpe em 2014, como primeiro-ministro. Mas observadores indicaram a possibilidade de irregularidades na votação.

De fala mansa, Sirawith é um estudante de pós-graduação em ciências políticas na Universidade Thammasat, uma das melhores da Tailândia. Diferentemente de muitos estudantes, foi criado por uma mãe que dependia de bicos para a sobrevivência. A Tailândia é um dos países mais desiguais do mundo, e a imensa classe dos pobres do país vota consistentemente em um bloco político que já foi deposto duas vezes por golpes.

O vice-primeiro-ministro Prawit Wongsuwan negou que o governo de participação militar esteja ligado à série de ataques. Em um bairro sujo de Bangcoc, o ativista político veterano Aekachai Hongkangwan vive em prisão domiciliar autoimposta. Foi atacado sete vezes desde janeiro de 2018, e seu carro foi incendiado duas vezes. Mais recentemente, teve a mão quebrada depois de baterem no seu rosto. “O que ocorreu com Ja New mostra que as coisas estão mais assustadoras", pontuou Aekachai, referindo-se a Sirawith pelo apelido.

Aekachai já foi detido por dissidência e mandado para bases do exército em momentos sensíveis, quando as autoridades temeram sua participação na organização de um protesto. No hospital onde Sirawith está se recuperando, um grupo de ativistas se reuniu no saguão e ergueu os dedos em saudação. O gesto, emprestado da série de ficção científica Jogos Vorazes, é considerado um ato de desobediência tão grave que os tailandeses são detidos pelas autoridades por fazê-lo. “Querem nos intimidar", disse Weerachai. Ele contou que também já foi seguido por homens estranhos. “É claro que temo pela minha segurança, mas isso não vai nos impedir". / RYN JIRENUWAT CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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