Brendan Hoffman para The New York Times
Brendan Hoffman para The New York Times

Ataques contra ciganos estão aumentando na Ucrânia

O país é obrigado a confrontar uma antiga inimizade étnica

Iuliia Mendel, The New York Times

27 Julho 2018 | 10h00

KIEV, UCRÂNIA - Os ciganos que vivem em acampamentos de barracas de lona e prédios abandonados na capital ucraniana, Kiev, e seus arredores dizem ganhar dinheiro de maneira inofensiva, apanhando flores silvestres e vendendo os buquês aos amantes nas ruas da cidade.

Mas membros de grupos nacionalistas da Ucrânia dizem que, em vez disso, os ciganos são batedores de carteira, roubando sucata e empesteando a cidade com sua presença, frequentemente vestidos com trapos e roupas doadas enquanto mendigam.

As tensões envolvendo os ciganos são antigas como a própria Ucrânia, e tão profundas quanto se costuma observar no Leste Europeu, mas a antiga inimizade teve recentemente nova reviravolta.

A partir de abril, grupos nacionalistas ucranianos que receberam salvo conduto quatro anos atrás para combater a incursão militar russa passaram em vez disso a atacar os acampamentos de ciganos, dizendo que estão “limpando” as cidades.

Em abril, um grupo nacionalista conhecido como C14 arremessou pedras, espirrou spray de pimenta e incendiou barracas no parque Lysa Hora, perto de Kiev. O ataque foi criticado por governos ocidentais e grupos de defesa dos direitos humanos. Mas o governo ucraniano concedeu ao grupo (cujos integrantes filmaram o ataque e publicaram fotografias na internet) um incentivo do estado sob a forma de aluguel gratuito para os auditórios onde seus membros difundem o “ensino patriótico".

Cinco outros ataques de grandes proporções se seguiram, bem como dúzias de episódios menores. Em junho, depois que outro grupo chamado Juventude Sóbria e Furiosa matou um cigano chamado David Pap, em Lviv, a polícia deteve alguns suspeitos.

Em julho, um tribunal condenou um participante do ataque de abril a dois meses de prisão domiciliar.

“Nenhum grupo tem o direito de cometer esses atos bárbaros", disse o ministro do interior, Arsen Avakov, após o assassinato em Lviv. Avakov disse que a polícia agiria “mesmo se esses indivíduos se esconderem por trás do status de veteranos".

Os ataques representam um dilema para o governo de Kiev, apoiado pelo Ocidente: de acordo com analistas, teve início uma busca populista pelo apoio do público antes das eleições presidenciais marcadas para o primeiro semestre do ano que vem. O governo tem uma dívida com os paramilitares por causa do papel que desempenharam na guerra no leste do país, embora alguns desses veteranos defendam ideologias extremas.

“Fomos chamados de fascistas", disse o líder do C14, Yevhen Karas, 30 anos, referindo-se à reação aos ataques no parque Lysa Hora. Mas ele acrescentou, “Não me importo com o que dizem a nosso respeito".

De acordo com o grupo, cerca de 10 mil pessoas participaram dos seminários “educativos" do C14.

Karas disse que os membros do C14 não usaram força excessiva, e garantiu que os episódios não foram ataques xenofóbicos. Ele disse que a investida foi motivada pelos “roubos, desmatamento e superlotação” promovidos pelos ciganos nas ruas.

Olga Zhmurko, diretora do programa para ciganos da Fundação Internacional Renaissance, voltada para a promoção da democracia, disse, “grupos de extrema direita promovem a si mesmos como Robin Hoods que ajudam as comunidades a lidar com o desconforto causado pelos ciganos", mas fazem pouco além de semear o caos.

A Ucrânia tem um histórico sombrio de maus tratos aos ciganos. Durante a 2.ª Guerra Mundial, pelo menos 22 mil dos cerca de 300 mil ciganos assassinados pelos nazistas vieram da região da atual Ucrânia, disse o historiador Mikhail Tyaglyy.

Agora restaram poucos ciganos na capital ucraniana. Uma deles, Anna, disse que ela e os filhos vendiam buquês de flores silvestre. Mas, de acordo com ela, os ataques deixaram os ciganos assustados: “É muito difícil quando uma pessoa não entende outra pessoa".

Karas disse que o C14 confronta todos os “criminosos". Ele afirmou que o grupo procurava e constrangia publicamente pessoas consideradas simpatizantes da Rússia.

“Quando as pessoas procuram justiça", disse ele, “é a nós que elas recorrem”./ Andrew E. Kramer contribuiu com a reportagem

Mais conteúdo sobre:
ciganoUcrânia [Europa]Fascismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.