Maxim Shemetov/Reuters
Maxim Shemetov/Reuters

Até quando Maduro vai sustentar o apoio da Rússia?

O Kremlin precisa escolher entre apoiar seu tradicional aliado ou reconhecer seu sucessor

Anatoly Kurmanaev, The New York Times

13 de março de 2019 | 06h00

MOSCOU - Em um recente dia chuvoso, um grupo de funcionários do governo russo e executivos do setor do petróleo se reuniram para a missa em uma igreja católica atrás do imponente quartel-general do serviço secreto no centro de Moscou.

Mas eles não estavam ali para rezar. Em vez disso, lembravam o antigo líder venezuelano Hugo Chávez, que destinou bilhões de dólares à compra de armas e maquinário da Rússia, e demonstravam apoio ao seu sucessor, Nicolás Maduro, em situação muito precária.

Maduro luta para salvar o sistema político que ele ergueu ao lado de Chávez, com apoio russo, durante duas décadas. A catastrófica gestão da economia pela equipe de Maduro levou a oposição a se declarar líder do país, com o apoio dos Estados Unidos, da União Europeia e da maioria dos países latino-americanos.

Para a Rússia, foi a mais recente tentativa ocidental de derrubar um governo adversário e limitar o alcance global das relações do presidente Vladimir V. Putin. O Kremlin reagiu reforçando seu compromisso com Maduro de maneira inequívoca, como demonstrado na igreja. Mas, por trás da demonstração pública de união, as elites da Rússia estão se dividindo em relação à melhor forma de preservar seus interesses.

Enquanto Maduro e o líder da oposição, Juan Guaidó, consolidam suas posições em uma guerra de atrito, o Kremlin se vê diante de uma escolha radical: apoiar seu tradicional aliado ou estar entre aqueles que escolhem seu sucessor.

O caminho escolhido por Putin vai ajudar a determinar se a Venezuela fará uma transição de governo pacífica, se haverá guerra civil ou consolidação do autoritarismo sob Maduro.

"A imagem e o peso globais da Rússia estão em jogo na Venezuela", disse o analista político Vladimir Rouvinski, da Universidade Icesi, em Cali, Colômbia. "O choque inicial e o temor na Rússia de que tudo seria perdido na Venezuela está sendo substituído pela possibilidade de se tornarem parte de uma transição negociada, garantindo que seus interesses sejam respeitados".

Esses interesses vão de projetos envolvendo o petróleo venezuelano e contratos militares cedidos a estatais russas até o valor geopolítico de se ter um aliado antiamericano no Ocidente.

A empresa russa do petróleo Rosneft é a principal parceira do setor na Venezuela e credora final do país, com participação em cinco projetos de extração de petróleo e emprestando ao governo Maduro cerca de US$ 7 bilhões em troca do petróleo. A Venezuela ainda deve à Rosneft cerca de US$ 2,3 bilhões, de acordo com apresentação da empresa em fevereiro.

A Venezuela também deve US$ 3,1 bilhões ao ministério russo da defesa por armas, caminhões e grãos comprados a crédito. O exportador de armas de Moscou tem contratos lucrativos para a manutenção dos tanques, caças e sistemas de defesa aérea da Venezuela, de fabricação russa.

Os laços de proximidade com a Venezuela permitiram que Putin desafiasse os EUA em seu próprio quintal. Chávez e Maduro viajaram à Rússia, visitando fábricas de metralhadoras e fazendas estatais. Na tentativa de relaxar esses vínculos, a oposição na Venezuela disse repetidas vezes que os investimentos russos seriam respeitados e as empresas da Rússia seriam bem-vindas na reconstrução.

Ao manter a aliança com Maduro, a Rússia aumenta a dependência da oposição em relação aos EUA, que poderia pressionar um novo governo a cancelar os contratos da Rosneft e se desfazer do armamento russo, disse o legislador Angel Alvarado, da oposição.

"Quanto mais esperam, mais eles correm o risco de perder tudo", disse ele. "Seus investimentos estão em segurança aqui, mas eles precisam se sentar à mesa de negociações antes que seja tarde demais".

A ameaça de sanções americanas afastou a maioria das empresas russas que ainda faziam negócios na Venezuela. Uma fábrica de metralhadoras Kalashnikov construída pela estatal russa RosTec em Maracay ao custo de US$ 1,5 bilhão, que deveria simbolizar a cooperação militar entre Rússia e Venezuela, ainda é um armazém vazio passados 12 anos do início da sua construção.

Uma fonte envolvida no projeto da RosTec disse que as condições na Venezuela são terríveis e o governo precisa mudar. Além disso, afirmou também que o desejo da Rússia é opinar quanto ao que vai acontecer a seguir.

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