Pierre Terdjman para The New York Times
Pierre Terdjman para The New York Times

Atentados do Estado Islâmico contra o Ocidente têm queda acentuada

As tentativas, no entanto, persistem, mas têm sido frustradas pelas autoridades

Rukmini Callimachi, The New York Times

19 Setembro 2018 | 15h00

Os ataques pareciam vir em sequência: 130 mortos na casa de shows Bataclan e nas ruas de Paris. Oitenta e seis atropelados no histórico calçadão de Nice. Vinte e dois mortos na apresentação de Ariana Grande em Manchester.

Desde a ascensão do Estado Islâmico em 2014, o policiamento se esforça para deter uma variedade interminável de ataques. Agora, o ritmo parece ter diminuído.

Os ataques do Estado Islâmico no Ocidente tiveram uma acentuada queda em 2018 em comparação aos quatro anos anteriores, o primeiro declínio desde 2014, mas o número de tentativas se manteve constante.

Para os analistas, a diferença está na eficácia do policiamento em frustrar esses complôs. O Estado Islâmico, ou EI, realizou 14 ataques na Europa e América do Norte em 2015, 22 em 2016 e 27 em 2017, de acordo com dados do Programa contra o Extremismo da Universidade George Washington. Nos primeiros oito meses deste ano, porém, foram apenas quatro ataques.

"É uma redução dramática", disse o diretor do programa, Lorenzo Vidino.

A dimensão dos ataques também foi reduzida. O episódio mais mortífero foi em 2015, com 130 mortos, diminuindo para 86 em 2016 e 22 em 2017. Até o momento, o pior ataque de 2018 foi num supermercado de Trèbes, França, onde um atirador matou três pessoas em março.

O Estado Islâmico perdeu 99% do território que já controlou no Iraque e na Síria. Alguns analistas associaram a queda na atividade ao território perdido pelo inimigo. Mas o número de tentativas de atentado na Europa não mudou, de acordo com dados do Centro para a Análise do Terrorismo, em Paris.

"Mesmo que o Estado Islâmico sofra derrotas militares e a perda de seu território, sua ideologia segue presente nos corações dos indivíduos que querem nos ferir", disse o diretor do centro, Jean-Charles Brisard.

Pesquisador sênior da Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington, Bill Roggio disse que muitos avanços foram alcançados na caça aos terroristas, por meio de "Um atento monitoramento das redes sociais. Melhor compreensão das redes terroristas. E a coordenação de esforços entre os diferentes países".

A vigilância eletrônica tem sido fundamental. Segundo analistas, as agências de policiamento são cada vez mais capazes de se infiltrar no universo online do Estado Islâmico, às vezes acompanhando as salas de bate-papo do aplicativo de mensagens Telegram, cujo uso da criptografia atrai a preferência do grupo.

A cada prisão, as autoridades apreendem os celulares e dispositivos eletrônicos dos suspeitos, analisando seus contatos e o conteúdo das mensagens, o que faz de uma detenção a oportunidade de desmantelar uma rede inteira.

Com a queda nos ataques, aumentaram as prisões. Em 2014, foram 395 detenções ligadas ao terrorismo na Europa. Em 2016 e 2017, foram mais de 700.

O gambiano Alagie Touray, de 21 anos, chegou às praias da Itália no ano passado, recebendo um quarto no centro de refugiados de Pozzuoli. Com um auxílio de € 77 (cerca de US$ 90) oferecido pelo governo italiano, ele comprou um novo celular e instalou o aplicativo Telegram. Numa mesa do refeitório do centro de refugiados, ele filmou um juramento de lealdade ao líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi. Depois, enviou o vídeo ao seu contato do Estado Islâmico na Líbia, que o instruiu a "conseguir um carro e jogá-lo contra as pessoas".

Os planos começaram a dar errado quando as autoridades italianas receberam uma denúncia dizendo que o autor do vídeo poderia estar em Nápoles. A polícia foi ao centro de refugiados, encontrando no refeitório uma mesa idêntica à vista no vídeo. Então os agentes localizaram Touray, e passaram a segui-lo para determinar se agia sozinho ou fazia parte de uma rede mais ampla.

Dez dias depois de gravar o vídeo, Touray foi detido. Durante o interrogatório, ele insistiu que o juramento fora uma "brincadeira" e disse que nem sabia dirigir. Entretanto, os investigadores apontam para a mensagem de WhatsApp que ele enviou a um amigo em Gâmbia dois dias depois do já citado vídeo: "Não se esqueça de rezar por mim. Tenho uma missão a cumprir."

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