Charlie Shoemaker para The New York Times
Charlie Shoemaker para The New York Times

Ativistas antitabagismo enfrentam violência em países pobres

Akinbode Oluwafemi disse que sua casa foi atacada depois de ele ter causado um incômodo para a indústria do tabaco

Donald G. Mcneil Jr., The New York Times

28 Março 2018 | 10h15

Há seis anos, mais de uma dúzia de homens com fuzis AK-47 dispararam contra a casa de Akinbode Oluwafemi em Lagos, na Nigéria. Eles mataram o vigia, seu cunhado, e, por um breve momento, apontaram o cano da arma na cabeça de um de seus gêmeos de um ano.

“Não sei por que não me mataram naquele dia”, disse Oluwafemi que, como diretor da ONG Environmental Rights Action/Friends of the Earth Nigeria, tem sido um dos principais ativistas do movimento antitabagismo no país.

Ele foi um dos vários defensores do controle do tabagismo na recente 17ª Conferência Mundial sobre Tabaco ou Saúde na Cidade do Cabo que, por telefone, descreveu a violência ou as ameaças que enfrentavam enquanto faziam campanhas contra a expansão do tabagismo em seus países.

Nenhuma prisão foi feita em nenhum dos casos, pois as vítimas não podiam provar que aqueles que as agrediram ou ameaçaram trabalham para a indústria do tabaco. Porém o padrão era consistente.

Primeiro eles foram calmamente alertados de que estariam incomodando as empresas de cigarro, os produtores de tabaco ou os funcionários do governo ligados à indústria. Se os ativistas persistissem, as ameaças ou a violência aumentaria repentina e imprevisivelmente.

Em 2012, Tara Singh Bam, diretor-regional da União Internacional contra Tuberculose e Doenças Pulmonares, descobriu cartazes de “procurado” com seu rosto e os de outros nove defensores antitabagismo - incluindo o ministro da Saúde da Indonésia, sob a manchete, “Os dez inimigos dos produtores de tabaco”.

Um ano depois, um intruso entrou no saguão de seu apartamento em Jacarta exatamente quando ele estava levando seus filhos para a escola, ele contou.

“Ele segurou minha mão e disse, ‘você deve deixar meu país o mais rápido possível’”, contou Bam, que é do Nepal. “Então ele soprou fumaça na minha cara. Meus filhos começaram a chorar, e ele foi embora.”

Dois anos atrás, Bam afirmou ter recebido uma mensagem pelo Facebook avisando: “não se intrometa em nossas relações sobre tabaco.” O alerta terminava com “sua chegada fez a atmosfera não ser boa.”

Quando ele procurou pelo nome de quem tinha escrito, Bam disse ter encontrado um funcionário da Associação de Produtores de Tabaco da Indonésia.

Oluwafemi admitiu que não poderia provar que seus agressores estavam ligados à indústria do tabaco em seu país, mas suspeitava fortemente disso.

Eles estavam muito melhor vestidos e armados do que os habituais assaltantes da Nigéria, afirmou Bam, e sua casa modesta era um alvo pouco promissor num bairro cheio de mansões com Mercedes-Benz.

Mais emblemático foi o fato de ele ser ameaçado antes e depois do ataque. A primeira vez foi em 2010, quando estava numa rádio nigeriana criticando a indústria do tabaco.

“Alguém ligou para um amigo meu e disse que eu deveria calar a boca ou seria morto,” ele lembrou.

Dois anos atrás, enquanto era entrevistado pela rede de TV Africa Independent Television, alguém ligou para outro amigo e disse: “seu garoto está na TV novamente - nós providenciamos que ele seja assassinado.”

Oluwafemi abandonou sua casa após o ataque. Ele recusou a oferta de um amigo, general do exército da Nigéria, de colocar soldados ao lado de fora de sua nova casa.

Ele também rejeitou ofertas da Bloomberg Philanthropies e da Fundação Bill e Melinda Gates para se mudar com sua família para os Estados Unidos.

“Se eu fosse embora”, ele disse, “sinto que significaria que eles venceram.”

A conversa sobre ameaças foi uma corrente subjacente no que já era uma conferência contenciosa realizada para destacar o foco da indústria do tabaco em países pobres e de renda média.

Foi liderada por Tedros Adhanom Ghebreyesus, o novo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde(OMS); Michael R. Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, que é o embaixador global da OMS para doenças não transmissíveis; e o ministro da Saúde da África do Sul, Aaron Motsoaledi.

Tedros, o primeiro africano a liderar a OMS, chamou a África de “marco zero para a guerra ao tabaco”, já que a indústria, perdendo clientes no ocidente, busca novos mercados por lá.

Motsoaledi disse que esperava que a África do Sul proibisse em breve o fumo em locais públicos e determinasse que os cigarros fossem vendidos em embalagens sem marca com fotos sangrentas de pacientes com câncer.

Bloomberg anunciou que doou US$ 20 milhões para criar uma nova agência global de vigilância dedicada a monitorar as táticas fraudulentas do setor.

Oito anos atrás, Bloomberg iniciou um programa mundial de combate ao tabagismo de US$ 2 milhões em parceria com a OMS. Pouco depois, ele e Bill Gates anunciaram que, juntos, gastariam US$ 500 milhões pela causa.

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