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Matthew Abbott/The New York Times
Matthew Abbott/The New York Times

Ativistas americanos tentam deter um modo de vida australiano: matar cangurus

Um projeto de lei que tramita no Congresso visa banir todos os produtos derivados de cangurus da Austrália

Damien Cave e Matthew Abbott/The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2021 | 05h00

SURAT, Austrália – Ian White dirigia lentamente pela estrada de terra vermelha, entre campos de restolhos de trigo e uma grama alta, onde ele havia vislumbrado um tufo de pele branca movendo-se perto dos bosques à sua esquerda.

Era uma noite quente do outono australiano no interior do país. Ele manobrou o farol acima de seu caminhão, encontrou um canguru a cerca de 150 metros de distância.

“Olha, uma fêmea de canguru”, ele disse. “Não quero atirar exatamente em uma fêmea”.

Em geral, ela tem um filhote na bolsa. Ele e outros que caçam cangurus têm isto em mente, disse White, apesar das afirmações contrárias de ativistas americanos, que tentam acabar com o seu sustento, que consideram desumano.

Segundo ele, estes críticos não entendem como funciona a vida na realidade aqui, no meio da Austrália. Os cangurus são caçados no continente há milhares de anos, “e continuam em número superior ao dos seres humanos”, prosseguiu.

E insistiu que a indústria comercial do canguru na Austrália não é como um filme western de John Wayne com armas fumegando. É um negócio regulado pelo governo. Os caçadores precisam passar por um curso de tiro para garantir uma morte humanitária, e os números de cangurus são atentamente monitorados por funcionários estaduais e federais, que estabelecem cotas a fim de garantir populações sustentáveis.

O mais importante, disse White, 58, caçador em tempo integral da terceira geração, chamado “Whitey”, a carne dos cangurus é saudável, o couro resistente, e a caça produz empregos que mantêm unidas as aldeias.

“Eu não gosto de matar”, afirmou. “Só faço isto se quero comer a carne do animal ou ganhar dinheiro”.

De repente apareceu uma dúzia de cangurus saltando. White parou e carregou cuidadosamente o seu rifle Sako .222 que descansava no seu colo.

Expirou e atirou contra um macho jovem que estava imóvel na luz.

Uma campanha global

Em 1971, a Califórnia proibiu a importação de cangurus em peças. Três anos mais tarde, o Departamento da Pesca e da Vida Selvagem dos EUA fez o mesmo com três espécies de cangurus mortos comercialmente – todas baseadas no declínio das populações de cangurus, preocupações  das quais muitos australianos não compartilham.

George Wilson, professor da Universidade Nacional Australiana que passou 50 anos na gestão da vida selvagem, contou que explicara a um biólogo americano preocupado que visitou o país na década de 70 que havia uma razão  para muitos caminhões na Austrália terem barras de metal na frente.

“É no caso de atingirem um canguru”, disse. “É por isso que eles são tão abundantes”.

Os cangurus foram retirados da lista de animais ameaçados e em perigo de extinção em 1995, e a  lei da Califórnia continuou despercebida até meados da década de 2000, quando um grupo de ativistas vegetarianos processou a Adidas por vender chuteiras de futebol de pele de canguru importadas.

Em 2006, David Beckham, o jogador de futebol inglês, parou de usar as chuteiras Adidas (chamadas Predators) depois de assistir a um vídeo de um grupo de ativistas que mostrava uma fêmea com o filhote sendo mortos.

Agora, a campanha está sendo retomada com a colaboração de grupos de ativistas internacionais, um membro da Câmara dos Deputados americana e um político australiano, que é o único representante eleito do Partido Justiça para os Animais.

O seu objetivo é convencer as companhias, os consumidores e os legisladores a boicotar ou proibir tudo o que vem da que costuma ser definida como a maior matança animal do mundo. Eles afirmam que, principalmente depois dos incêndios que devastaram a Austrália, no ano passado, matando provavelmente vários milhões de cangurus, o seu comércio precisa acabar.

“O que constatamos após os incêndios foi que nós não sabemos quantos animais sobreviveram“, disse Mark Pearson, que foi diretor executivo do grupo Animal Liberation na Austrália antes de ingressar no Parlamento de Nova Gales do Sul, em 2015. “Se não sabemos quantos eles são, não deveria haver ninguém lá fora matando-os”.

Pearson acrescentou que o atual esforço ganhou impulso como os anteriores graças a uma pressão dos Estados Unidos. Embora  muitos australianos achem isto irritante – a mídia local criticou  os americanos “furiosos” – Pearson contou que recebera um telefonema, meses atrás, de Wayne Pacelle, um famoso ativista do bem-estar dos animais de Bethesda, Maryland, que pedia uma pesquisa abrangente.

Esta conexão levou a uma campanha internacional, “Kangaroos are not shoes" (Cangurus não são chuteiras), que inclui um vídeo online, um site e lobby no mundo todo.

Integrantes do movimento Ethical Treatment of Animals, nos Estados Unidos, elogiaram a campanha “Kangaroos are not shoes”. “Qualquer medida para deter a matança de cangurus, os filhotes sendo retirados das mães mortas, e suas cabeças massacradas -  que é o que os matadores de cangurus fazem – é boa,” dizia em um documento.

Uma indústria em uma pequena cidade

O primeiro tiro da noite de White atingiu o canguru logo abaixo do olho, Ele andou na grama e pegou o animal morto, o colocou nos ombros e o carregou até o caminhão, calculando que deveria pesar uns 18 quilogramas.

Calçou luvas amarelas de borracha e o estripou com a precisão de um açougueiro. Pesou a sua presa: 17,94 quilogramas, o que lhe deveria render cerca de $ 18.

Ele tirou as luvas.

“Não tem doenças, mas os meus netinhos estão comigo”, falou. “Se a gente não usar luvas, pequenas gotículas de sangue entram embaixo das unhas das mãos e nunca mais sairão”.

Talvez seja difícil traçar a linha entre a crueldade e a compaixão em um lugar como Surat. A aldeia tem uma população de 407 pessoas, o que significa um açougue, um pub e uma escola. Ela está localizada no coração do país dos pastos de gado e dos cangurus, a centenas de quilômetros a oeste de Brisbane. As pessoas falam em matar cangurus em troca de dinheiro com a sutileza de uma aldeia rural onde amar e matar animais são aspectos inevitáveis da vida – como o sol que se levanta e se põe.

Os ritmos da reprodução dos cangurus e da população são muito conhecidos por estes lugares. Períodos de abundância levam a um crescimento da população das quatro espécies de cangurus caçadas legalmente – entre 2001 e 2011, seus números variaram de 23 a 57 milhões, segundo pesquisas oficiais.

Quando vem a seca, a população encolhe dramaticamente. Centenas de cangurus esfomeados aparecem em toda a área, principalmente perto das rodovias, onde o orvalho alimenta os minúsculos brotos de relva.

Ver os animais morrendo de fome sendo atropelados pelos automóveis – ou pior ainda, ver os fazendeiros  massacrá-los para preservar os pastos para o gado e as ovelhas, uma matança que ocorre fora da indústria formal dos cangurus e muitas vezes ilegalmente - levou muitas pessoas de Surat a acreditar que os caçadores comerciais estão ajudando os cangurus a minimizar o sofrimento nos ciclos de abundância e carestia no interior.

“As pessoas lá longe, não veem isto”, disse Megan Nielsen, 29, uma fazendeira com três crianças que às vezes pegam os cangurus como animais de estimação. “Se você tem um caçador, sabe que ele irá fazer isto da maneira certa”.

Dirigindo pelas colinas cobertas de pastos de um fazendeiro local, White disse que viu em primeira mão a maior agonia provocada por fazendeiros e caçadores menos escrupulosos que eles frequentemente contratam, deixando cangurus feridos morrer nos campos.

No final da noite, o seu método, ao contrário,  pareceu quase mecânico.

Logo depois das 4 da madrugada, ele entrou em um estacionamento da Warroo Game Meats, uma processadora de carnes de Surat, uma sociedade entre uma família de origens aborígenes e um investidor chinês - a Austrália antiga e a moderna. White tinha 21 cangurus pendurados em seu caminhão, cada um deles morto com um só tiro na cabeça, cada um marcado com o seu nome e a localização para o serviço de monitoramento da biossegurança.

“Se não fizermos isto, os ‘cockies’ os explodirão”, disse White, usando um termo do dialeto para referir-se aos fazendeiros em pequena escala. “Eles não param”.

Leslie Mickelbourgh, o diretor gerente da Warroo disse que a campanha das chuteiras foi um truque. Embora nem o governo nem a indústria desmembrem a receita das exportações ou o total por produto, Mickelbourgh afirmou que os cangurus de Surat são usados na maior parte para carne. Os animais vêm sendo considerados cada vez mais uma alternativa ética à carne bovina e de cordeiro porque os cangurus não contribuem para a mudança climática arrotando metano, e porque são abatidos no seu habitat.

Os críticos do setor, disse Mickelbourgh, “não entendem o nosso país”  .

Ele estava sentado em um escritório perto das fotos do pai, o fundador do negócio, com pilhas gigantescas de peles de canguru. White, que passava por aí, estava sentado em uma cadeira perto de uma bandeira com as palavras “Pense local” .

“Quando não estou caçando procuro outras atividades,” disse White. “Mas preferiria estar aqui”./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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