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Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Em uma ilha grega, uma livraria com alguma mitologia própria

A Atlantis Books se tornou uma atração turística e uma das livrarias mais encantadoras da Europa. Só não acredite em tudo que você ouve

Jason Horowitz, The New York Times

22 de janeiro de 2020 | 06h00

SANTORINI, GRÉCIA - Em uma parede, em cima de algumas primeiras edições raras, de antigos mapas desta ilha vulcânica e um abajur de linho manchado, uma cronologia traça a evolução da ‘Atlantis Books’, desde uma ideia regada a muito vinho, em 2002, até tornar-se uma das livrarias mais fantásticas da Europa. Do terraço tem-se a visão do Mar Egeu. Prateleiras de livros se movem revelando beliches onde os trabalhadores podem dormir.

Com o tempo, espalhou-se a notícia de que também escritores visitantes poderiam passar as noites de verão escrevendo e tirar um cochilo ali, e o proprietário começou a receber e-mails solicitando um beliche na colônia de escritores mais impressionante do mundo, em uma ilha que Platão julgava ser a Atlântida perdida.

Mas o programa dos escritores morando na residência também não passou de um mito grego. “A ideia não era vir aqui para escrever o grande romance americano, era folhear livros”, disse Craig Walzer, o proprietário da loja. “Em primeiro lugar, você está aqui por causa da livraria”.

Nos últimos 15 anos, enquanto turistas a bordo de navios de cruzeiro invadiam a aldeia de Oia, na ponta mais setentrional de Santorini, a ‘Atlantis Books’ tornou-se um oásis de autenticidade e de sanidade cultural. As páginas amareladas e as prateleiras de madeira trazida pelas marés emanam um cheiro de mofo. Os clientes andam em volta do cachorro da loja, Billie Holiday.

Os clientes folheiam obras de ficção, poesia, ensaios e raridades. Uma primeira edição de The Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald, sem a sobrecapa de um dos livros raros mais procuradas do mundo, está à venda por 6 mil euros (US$ 6,7 mil). Atrás da máquina registradora há uma primeira edição extremamente rara de A Christmas Carol de Charles Dickens. Seu preço: 17,5 mil euros. “É um livro para crianças grandes”, disse Walzer. Os livros raros vendem bem aqui, explicou o proprietário, porque a ilha se tornou um destino famoso para “pessoas com muito dinheiro”.

A loja virou atração turística. Isto é particularmente estranho para Walzer, que há anos chama este lugar agradável de lar. Ele distribuiu as camas. Uma está escondida atrás das prateleiras que agora exibem exemplares da Odisseia de Homero. Outra está em cima da seção alemã. Este lugar agora é ocupado por uma funcionária, Katie Berry, formada em Harvard, que recentemente acaba de passar o seu terceiro verão aqui.

Este é claramente o lugar onde começou a lenda do escritor visitante, e Walzer, que se mudou para uma localidade próxima em 2017, queria pôr alguma ordem. A loja é dirigida por ele, um nativo de Tennessee de 38 anos, e não um velho britânico afetado que muitos pedem para conhecer. Atlantis não é a mais antiga e nem a menor livraria da Europa. Ernest Hemingway não escreveu aqui.

E, no entanto, a história da Atlantis não deixa de ter elementos míticos. Sua origem foi inspirada por uma musa (Está bem, pela bebida). Walzer e um amigo tiveram a ideia em uma visita à ilha durante uma interrupção dos estudos em Oxford, em 2002. Um local original era embaixo de um castelo do século 13, e os dois ficaram por algum tempo na casa semidestruída de um capitão. O próprio Walzer é uma espécie de herói torturado. 

Deixou a ilha em 2005, entrou e depois saiu de Harvard, e “entrou na clandestinidade” em Nova Orleans. Encontrou por fim o seu caminho e, em 2011, voltou definitivamente a Santorini e à sua livraria. A sobrevivência levou ao sucesso, mas à medida que a livraria florescia, o destino do imóvel afundava.

Em 2015, os proprietários ameaçaram o despejo, a não ser que Walzer pagasse um milhão de euros como contraproposta à oferta de um possível comprador do edifício. Walzer não ouviu mais falar nos temidos proprietários e continua operando sem um contrato de aluguel. “Um dia, o sinal vai tocar”, ele disse. “Mas não hoje, porque é sábado à tarde”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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