Alana Paterson para The New York Times
Alana Paterson para The New York Times

Atleta olímpico derrubado por uso de maconha volta aos holofotes

Com a legalização de Cannabis no Canadá, Ross Rebagliati lança produtos ligados à substância

Dan Bilefsky, The New York Times

27 de dezembro de 2018 | 06h00

KELOWNA, COLÚMBIA BRITÂNICA - Ross Rebagliati, pioneiro do snowboard olímpico, guarda sua medalha de ouro num armário velho em seu modesto lar, ao lado de um cinzeiro onde ele mantém a chave do carro e um envelope plástico contendo maconha.

"Eu a mantenho aí porque só me trouxe infelicidade", disse Rebagliati, com certo saudosismo. Estava fumando o quarto baseado do dia.

Vinte anos atrás, quando tinha 26, Rebagliati alcançou fama mundial - e infâmia - depois de ganhar uma medalha de ouro pelo Canadá na modalidade slalom gigante dos Jogos Olímpicos de Inverno de Nagano, Japão, em 1998. Mas o sonho olímpico implodiu em seguida quando um exame revelou a presença de maconha, o que lhe custou a medalha. Logo, ele se viu numa cela japonesa, acusado de importar uma substância controlada.

Rebagliati protestou dizendo que não tinha fumado maconha nos 10 meses que antecederam os jogos, e a quantidade minúscula de THC (ingrediente psicoativo da maconha) detectada seria resíduo da fumaça inalada passivamente em festas.

O título lhe foi devolvido sem cerimônia após um "inferno" de 36 horas, com base no fato de a maconha não estar na lista de substâncias proibidas da competição. Mas para Rebagliati, o estrago foi irreversível. Ele nunca conseguiu fazer a carreira decolar. 

"Na época, a maconha era vista como coisa de perdedores e drogados preguiçosos", lembrou ele.

Agora, aos 47 anos, Rebagliati leva uma vida tranquila em Kelowna, cidade montanhosa na Colúmbia Britânica, com sua segunda mulher, Ali, professora de ioga, e os dois filhos pequenos, Rosie, 6 anos, e Rocco, 3. Tem também um filho do primeiro casamento, Ryan, de 9 anos.

Rebagliati espera que a aprovação da legalização da maconha no Canadá, decidida em outubro, possa lhe ajudar a colocar um ponto final nesse passado e, quem sabe, encontrar oportunidades de negócios. Encorajado pelo fim da proibição à erva, ele lançou recentemente a Legacy, nova marca de estilo de vida ligada à maconha, em parceria com a CRX, empresa de saúde e produtos de maconha com sede em Calgary. Ele planeja oferecer artigos como loções faciais derivadas da maconha, kits de cultivo da cannabis e esquis e snowboards com o selo Ross Rebagliati.

"Finalmente, estou construindo um legado a partir do histórico com a maconha", disse ele, explicando o nome da empresa.

O episódio de Nagano se tornou um fardo pesado demais em 2012, quando ele quis levar a filha recém-nascida, Rosie, para visitar a avó na Califórnia, mas foi impedido de cruzar a fronteira do estado de Washington por causa de sua associação com a Cannabis.

"Pensei: se o ocorrido durante as olimpíadas vai me deixar no ostracismo, o melhor é aceitar e tentar tirar algo positivo disso", disse.

Um ano mais tarde, ele fundou a Ross' Gold, uma empresa de cannabis. Mas os negócios faliram, em parte por causa do status ilegal da maconha. Hoje, Rebagliati joga golfe, pilota carros velozes, e cultiva variedades premiadas de maconha em seu quintal. Não anda mais de snowboard: atualmente, prefere o esqui. E  disse que, por enquanto, a medalha de ouro vai continuar no armário.

"Talvez, se as coisas mudarem, eu me anime a pendurá-la na parede. Não tenho planos de pendurá-la", comentou.

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