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Atletas mulheres parecem lidar melhor com condições adversas

Desiree Linden venceu a maratona de Boston depois de quase desistir

Lindsay Crouse, The New York Times

17 Maio 2018 | 10h15

A maratona de Boston deste ano, com uma chuva horizontal e temperaturas congelantes, não foi apenas uma provação que se desenrolou debaixo de uma das piores condições climáticas das últimas décadas.

A maratona foi também um exemplo da capacidade de as mulheres perseverarem sob circunstâncias deploráveis. Com tempo bom, os homens geralmente abandonam a maratona em proporções mais baixas que as mulheres. Mas, neste ano, elas se saíram melhor. Por que as mulheres conseguem suportar muito melhor essas condições terríveis?

Eis aqui uma explicação possível, ainda que controversa: o parto é, na maioria dos casos, excruciante e, como os picos atlético e de fertilidade das mulheres estão próximos, ou se sobrepõem, muitas das maratonistas que correm em Boston também deram à luz.

Keira D’Amato, 33 anos, corretora de imóveis na Virginia, correu boa parte da maratona com Sarah Sellers, enfermeira que ficaria em segundo lugar, até que a visão de D’Amato se embaçou e sua consciência vacilou. Ela desacelerou para uma velocidade abaixo de seu ritmo original e estava tão focada em alcançar a linha de chegada que nem se deu conta quando finalmente chegou lá, na 46ª posição.

Comparando sua experiência na maratona ao nascimento de seus filhos, D’Amato me disse: “Minha vista nunca escureceu durante o parto”.

Ela disse que terminou todas as corridas que começou “e não ia deixar que esta fosse a primeira vez”.

As diferenças também podem estar em outros aspectos. Por exemplo: sabe-se que as mulheres são melhores que os homens para manter o ritmo, o que é especialmente útil no frio, quando grandes variações no ritmo podem afetar a capacidade de regular a temperatura corporal.

“Os homens tendem a começar as corridas de maneira mais agressiva e a seguir uma estratégia mais arriscada, então é mais provável que eles se esgotem na segunda metade da prova”, disse Alex Hutchinson, autor de Endure [Suportar].

As mulheres também parecem ter mais capacidade de reajustar seu comportamento e suas expectativas com base nas circunstâncias.

“Entre os atletas que treinei, acho que tive mais mulheres que, quando as coisas estão muito ruins, podem cair a qualquer momento, mas, ainda assim, terminam a corrida, enquanto os homens desistem”, disse o treinador de elite Steve Magness. “As mulheres geralmente parecem mais capazes de ajustar suas metas no momento, ao passo que os homens veem a corrida mais em preto e branco, fracasso ou sucesso. E, se for para fracassar, por que continuar?”.

Os americanos que correm maratonas de elite forneceram algumas evidências. O favorito entre os homens, Galen Rupp, perseguiu o primeiro pelotão até desistir depois de 32 quilômetros, com hipotermia; na corrida feminina, as favoritas Molly Huddle e Shalane Flanagan baixaram o ritmo das passadas, mas terminaram a prova. Desde o início, as mulheres trabalharam juntas: Desiree Linden, outra favorita, estava com dificuldades e disse a Flanagan que estava pensando em desistir, mas aguentou firme para apoiar suas companheiras de equipe, em busca da vitória americana. Depois Linden se recuperou e venceu a maratona.

“Há uma tendência biológica e social que empurra as mulheres para o cuidado dos outros”, disse Adam Grant, psicólogo e apresentador do podcast TED WorkLife. “Então, o que imagino que acontece é o seguinte: quando as coisas ficam difíceis, os homens ou desistem ou dizem ‘vou até o fim’, enquanto as mulheres são mais propensas a se aproximar das outras corredoras, oferecendo e procurando apoio. Compartilhar a dor e fazer parte de um grupo pode ajudar a resistência à dor”.

É claro que as pessoas que correm a maratona de Boston já constituem um grupo seleto. Muitas vezes, as mulheres não contam com incentivos para serem atléticas ou competitivas, de modo que as mulheres que chegaram a Boston já haviam superado mais obstáculos sociais que os homens. Elas talvez sejam simplesmente ser mais resistentes, e este foi um ano em que a resistência funcionou.

Então, a explicação mais simples não tem nada a ver com gênero. Esta maratona de Boston foi ideal para as pessoas que se dão melhor na adversidade. As melhores colocações entre homens e mulheres ficaram com corredores amadores que treinam em circunstâncias que estão longe das ideais, em meio a obrigações com o trabalho e a família. O vencedor masculino, Yuki Kawauchi, é administrador escolar no Japão; Boston foi sua quarta maratona e quarta vitória este ano.

“Para mim”, explicou Kawauchi, “estas foram as melhores condições possíveis”.

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