Brendan Hoffman / The New York Times
Brendan Hoffman / The New York Times

Ator lidera corrida presidencial na Ucrânia, disputada com outros dois políticos

O comediante, que já interpretou um presidente em série para a televisão, lidera pesquisas de opinião com o apoio de 25% dos eleitores

Andrew E. Kramer, The New York Times

21 de março de 2019 | 06h00

KIEV, UCRÂNIA - Antes de decidir concorrer à presidência da Ucrânia, Volodymyr Zelenski interpretou o papel de presidente em uma série de televisão intitulada Servo do povo, sobre um professor da escola elementar, cujo discurso sobre a corrupção se torna viral na internet, e acaba conduzindo-o ao cargo mais alto.

Zelensky, comediante e ator, tem chance de ganhar as eleições de 31 de março. Uma organização de pesquisas de opinião, Rating, mostrou que ele está na frente com o apoio de 25% dos eleitores, seguido pelo atual titular Petro O. Poroshenko, impopular, com 17%, e pela ex-primeira-ministra Yulia V. Tomyshenko, cuja estrela declinou nos últimos anos, com 16%. 

Zelensky atribui sua improvável ascensão à demanda irrefreável por um rosto novo na política ucraniana, que continua mergulhada em escândalos de corrupção - cinco anos depois que, em nome da democracia e da transparência, a revolução depôs o presidente pró-Rússia, Viktor F. Yanukovych.

Muitas coisas dependem do resultado na Ucrânia, a linha de frente de um confronto mais amplo do Ocidente com a Rússia. Um novo líder na capital Kiev poderá acabar com o impasse das negociações e com a guerra atual na Europa, que já custou a vida de mais de 13 mil pessoas desde que as forças apoiadas pelos russos assumiram o controle da Ucrânia do Leste, em 2014.

Poroshenko participa de uma disputa com os nacionalistas a respeito de um acordo de paz de 2015. Talvez  a saída da liderança do período pós-revolução possa oferecer a Moscou uma maneira de preservar a dignidade abandonando o conflito com a Ucrânia - e um alivio das sanções impostas pelo Ocidente. Uma transição democrática do poder na Ucrânia também reforçaria as suas credenciais para uma integração mais forte com a União Europeia, um dos objetivos dos que foram às ruas em 2014 em oposição ao estilo russo do autoritarismo.

Os críticos de Zelensky afirmam que o seu sucesso indica o poder arraigado dos interesses das grandes empresas na Ucrânia. Os seus programas foram transmitidos pelo canal de TV de Ihor V. Kolomoisky, que está envolvido em um escândalo de ajuda a uma instituição bancária com o PrivatBank que custou a Ucrânia US$ 5,6 bilhões - um gasto espantoso para um país cujo governo se sustenta com empréstimos do Fundo Monetário Internacional.

Manter o prestígio político na Ucrânia poderia ajudar Kolomoisky a resolver a disputa em seu favor. Zelensky negou ser um fantoche do magnata e defendeu as suas qualificações para a liderança.

Yulia Tymoshenko, ex-primeira-ministra, concorre pela terceira vez à presidência. Em 2011, ela foi presa pelo governo alinhado com a Rússia, e o assessor político de Yabukovych, Paul Manafort, orquestrou contra ela uma campanha de difamação que durou um ano. Yulia só foi solta em 2014, depois que uma segunda revolta de rua levou Yanukovych ao exílio na Rússia.

Poroshenko enfatiza o seu papel de comandante chefe das forças armadas e de líder que conquistou a independência para a Igreja Ortodoxa Russa, até então subordinada a Moscou.

Zerensky praticamente concorre baseado abertamente no seu personagem de ficção na televisão. O fato de um comediante concorrer contra dois políticos é algo que fica aquém da visão que muitos ucranianos compartilhavam em fevereiro de 2014, quando os protestos tiraram do poder o governo alinhado com os russos.

Entretanto, o fato de o país realizar uma eleição disputada é uma vitória. As eleições na Rússia não passam de um endosso indiferente  do partido governista. “As eleições são imprevisíveis”, afirmou John E. Herbst, ex-embaixador americano em Kiev. “Poderá haver surpresas. A Ucrânia tornou-se uma democracia, e isto é progresso”.

Tudo o que sabemos sobre:
Ucrânia [Europa]corrupção

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.