Dondi Tawatao/Reuters
Dondi Tawatao/Reuters

Atos de corrupção crescem nas Filipinas

Em troca da fidelidade política, o governo de Rodrigo Duterte fecha os olhos à má conduta de seus aliados

Miguel Syjuco, The New York Times

02 Junho 2018 | 10h00

ABU DHABI, EMIRADOS ÁRABES UNIDOS - Entre os filipinos que trabalham no Oriente Médio, a conversa sempre acaba citando as questões do país natal. Nos encontros em corredores, em ônibus, quando cortamos o cabelo, conversamos a respeito de nossas experiências comuns enquanto expatriados que mantêm laços profundos com o lar.

Milhões de filipinos em toda a região são respeitados por seu profissionalismo e pela alta qualidade de seu trabalho; por outro lado, nas Filipinas, as oportunidades são raras e os salários, baixos. Mas a corrupção sistêmica e a política de clientelismo em nosso país, tão rico em recursos, enchem os bolsos de nossos governantes e daqueles que os apoiam.

De fato, a democracia nas Filipinas, dominada pelas celebridades, pelas dinastias e pelo nepotismo, é o contrário de uma meritocracia. A incompetência é perdoada naqueles que demonstram fidelidade aos governantes, enquanto a fama e sua busca são apresentadas como competência, algo que sempre serviu bem aos poderosos. Apesar das promessas eleitorais do presidente Rodrigo Duterte, pouco mudou naquilo que mais importa: nossa cultura política.

Uma trapalhada recente aqui no Oriente Médio resume bem o caráter transacional do relacionamento entre os políticos filipinos e aqueles que trabalham para eles. Em abril, o governo do Kuwait rompeu laços diplomáticos com as Filipinas depois que funcionários do governo filipino realizaram no país uma operação secreta e unilateral de extradição de trabalhadores que teriam sofrido abuso por parte de seus empregadores. Depois que o governo Duterte rapidamente fez de tudo um golpe de publicidade, o Kuwait acusou as Filipinas de ação extrajudicial e violação da soberania, expulsando nosso embaixador e prendendo membros da equipe diplomática.

Cerca de 260 mil filipinos ficaram sem representação de seu país no Kuwait. É impossível exagerar a gravidade do ocorrido, levando em consideração o problema urgente do abuso contra trabalhadores imigrantes no Oriente Médio.

Apesar das bravatas do governo, nenhum dos funcionários filipinos envolvidos foi responsabilizado.

Entre eles estava Mocha Uson, uma blogueira que usou sua fama de dançarina sensual para conseguir um cargo supervisionando as operações do presidente nas redes sociais. Ela estava no Kuwait durante a operação e mostrou-a ao seu considerável público de seguidores online, postando o vídeo que causou a reação indignada do governo do Kuwait.

Nem ela ou Alan Peter Cayetano, ministro das relações exteriores das Filipinas, pareceram pagar qualquer preço pelo desastre. Na verdade, o governo defendeu Cayetano, cuja fidelidade a Duterte, seu colega de chapa nas eleições de 2016, parece valer mais que a falta de experiência em questões diplomáticas. Ele foi incumbido de defender o presidente em público, negando as alegações de violações dos direitos humanos cometidas na guerra às drogas que já custou as vidas de milhares de suspeitos sem julgamento.

Esses relacionamentos de natureza transacional já se tornaram comuns em nossa cultura política ossificada, na qual a responsabilidade costuma ser seletiva e fazer sempre parte de uma estratégia. Apesar dos elogios dos defensores de Duterte após o anúncio da demissão de dúzias de funcionários públicos, por infrações como incompetência, corrupção e tráfico de drogas, apenas dois dos demitidos foram acusados de crimes. E ainda que o presidente demita seus aliados, isso não nega o fato de que foi ele quem os contratou, na maioria dos casos.

Na verdade, muitos foram readmitidos em cargos frequentemente mais elevados, apesar da promessa de Duterte de jamais tolerar nem mesmo a “sombra" da corrupção. Entre estes estava o diretor da alfândega, ligado ao contrabando de mais de uma tonelada de metanfetamina numa operação que teria envolvido o genro e o filho do presidente.

A recompensa é o lado positivo da responsabilidade. Muitos dos nomeados políticos de Duterte são defensores dele que parecem ter recebido pagamento por feitos em nome do presidente. Membros dos Voluntários contra o Crime e a Corrupção, por exemplo, receberam nomeações para altos cargos após terem agido contra figuras da oposição, como a senadora Leila de Lima, detida há mais de um ano em decorrência do depoimento suspeito de comandantes do tráfico de drogas já condenados. Os esforços deles também ajudaram a promover a saída da presidente do supremo tribunal, que enfurecia o governo com sua independência.

Ao conceder poder a seus representantes, Duterte aumenta o próprio poder, usando as instituições cada vez mais cúmplices da democracia para dar a suas aspirações autoritárias um verniz de legitimidade.

Os aliados dele já controlam o congresso, com uma supermaioria formada após sua vitória nas eleições presidenciais, quando os deputados mudaram de lado em massa para aderir ao partido de Duterte. E as eleições para milhares de cargos locais em todo o país, realizadas em maio, tinham sido adiadas por quase dois anos enquanto o governo procurava espaço de manobra, alegando a necessidade de desclassificar os candidatos supostamente financiados pelo dinheiro das drogas.

Embora a agilidade de uma ditadura benevolente e competente possa soar como uma opção viável para muitos filipinos, especialmente os milhões que viveram em Cingapura e no Oriente Médio, o governo de Duterte já provou que não é competente nem benevolente. Seu estilo ostentatório foi imitado por seus subalternos, de maneira truculenta. Algumas pesquisas de opinião mais recentes mostram quedas na aprovação ao governo dele.

Mas, para os mercenários, pouco importa. Os esforços de relações públicas de seus subordinados levam à notoriedade, aos cargos políticos, a uma vida de conforto e controle enquanto os padrinhos estiverem no poder.

Então, o que o cidadão pode fazer?

Se não resistirmos a esses esforços exigindo responsabilidade de todos os servidores públicos, continuaremos a ser governados por aqueles que trocam serviço por servidão e acenam com direitos em troca de obediência.

Apesar de se apresentar como homem de origens humildes e de suas promessas de mudança, o presidente é o filho de um governador e patriarca de uma dinastia que retém o poder por meio de favores e distribui a justiça de maneira arbitrária. Duterte pode às vezes parecer um exemplo atípico de governante filipino, mas, sob esse aspecto, ele não foge à regra.

Não surpreende que tantos filipinos continuem a buscar vidas de mais segurança e oportunidade no exterior.

Outro dia, aqui em Abu Dhabi, o filipino que cortava meu cabelo me contou a respeito da situação política em sua cidade natal. Todos sabem que os políticos são corruptos, explicou ele, mas isso é perdoado porque, ao menos, eles cuidam dos interesses da comunidade.

“Eles sempre vêm nas nossas festas", disse ele, dando de ombros. “E eles nos dão dinheiro para que possamos organizá-las”.

Miguel Syjuco é autor do romance Ilustrado e professor da NYU Abu Dhabi. 

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