Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Atos violentos mostram discriminação de casta na Índia

Nacionalismo hindu alimenta antigas divisões da sociedade

Jeffrey Gettleman e Suhasini Raj, The New York Times

22 de novembro de 2018 | 06h00

THATI, ÍNDIA - Quando Sardar Singh Jatav saiu, no início de setembro, para conversar com os patrões do seu filho, eles estavam à sua espera.

De casta superior, receberam Sardar com um soco no rosto. Depois quebraram o seu braço. E o jogaram no chão. Sardar gritou pedindo ajuda. Ninguém apareceu. Um homem enfiou um trapo na sua boca. Outro puxou rindo uma navalha, pegou uma dobra do couro cabeludo de Sardar e começou a puxá-lo para cima e cortar, puxar e cortar, arrancando quase toda a pele.

“Toma isto!”. Sardar lembra que eles disseram. “Diga a todos que nós escalpelamos você!”

Sardar é um dalit, uma classe de indianos que não só são considerados uma casta inferior, mas também intocáveis. Condenada há séculos ao ínfimo degrau da sociedade hindu da Índia a população dalit, estimada em mais de 300 milhões, vem sofrendo abusos ao longo da história. E a violência contra eles agora está aumentando.

Isto talvez surpreenda, considerando tudo o que se fala e se escreve sobre a nova Índia. Milhões de pessoas saíram da pobreza.

A economia é uma das maiores do mundo. Em todas as partes do país, há novas estradas, novos aeroportos, nova infraestrutura. Mas em muitos lugares, principalmente nas áreas rurais mais pobres, a infraestrutura da casta continua o que conta.

E os que se rebelam contra ela muitas vezes são recebidos com brutalidade como para deixar bem claro que é preciso manter a velha ordem social. Os dalits não são apenas assassinados: eles são humilhados, torturados, destruídos.

“Você pode falar da Índia como uma potência mundial, uma potência global que manda satélites para o espaço,” disse Avatthi Ramaiah, um professor de Sociologia de Mumbai. “Mas o mundo exterior tem uma imagem da Índia que as pessoas não conhecem. Enquanto o hinduísmo for forte, as castas serão fortes, e enquanto houver uma casta, haverá sempre uma casta inferior”.

Em outubro, uma menina dalit de 14 anos foi decapitada por um homem cuja esposa revelou que ele odiava a garota por causa de sua casta. Em maio, um varredor de rua dalit foi amarrado e chicoteado até a morte em frente a uma fábrica, em uma cena transmitida para toda a Índia pela televisão. Em março, um homem dalit foi morto por homens de casta superior por montar um cavalo.

“Estes incidentes não aconteciam na minha infância”, disse Chandra Bhan Prasad, comentarista político (e dalit).” Na minha infância, um dalit não andava a cavalo. Antes de 1990, a maioria dos dalits trabalhava para alguém. Agora, eles  estão pagando o preço da sua liberdade”.

Quando a Constituição começou a ser redigida, no final dos anos 40, os intelectuais incluíram proteções específicas para os dalits, que constituem cerca de 15 a 20% da população de 1,3 bilhão do país. Os programas de ação afirmativa ajudaram alguns dalits a escapar da pobreza. Hoje, há dalits poetas, médicos, funcionários públicos, engenheiros e até mesmo um dalit presidente, embora seja mais um cargo honorífico.

Mas 95% dos indianos ainda casam dentro de sua casta, afirmam os especialistas. E recentes estudos mostram que os níveis de renda e educação estão estritamente relacionados à casta. Mesmo controlando a educação, os dalits ainda estão atrasados, o que indica que a discriminação da casta está viva e próspera.

Segundo estatísticas nacionais, o número de crimes de acordo com a casta aumentou 25% desde 2010, chegando a cerca de 41 mil casos em 2016, o último ano de que se tem registro. Muitos analistas atribuem o fato ao partido que está no governo, o Bharatiya Janata, cujas raízes supremacistas hindus instigam os seus defensores a atacar as minorias, frequentemente em nome do hinduísmo. Um exemplo é a quantidade de pessoas espancadas ou mortas por abaterem vacas. Os animais são sagrados no hinduísmo e a grande maioria das vítimas dos esquadrões dos capangas que vigiam as vacas é muçulmana ou dalit.

O que desencadeou o ódio naquela noite de setembro foi o fato de Sardar insistir para que os patrões, pertencentes a uma casta superior, pagassem os salários atrasados do filho.

Na sociedade tradicional indiana, as castas designam as ocupações. Os intocáveis faziam o trabalho sujo, como a limpeza dos banheiros. Hoje, a relação entre ocupação e casta foi quebrada em parte; em Thati, a aldeia de Sardar, quase todas as famílias trabalham na agricultura. Os gujjares estão no final da hierarquia da casta, bem abaixo dos brâmanes, que são considerados a casta mais alta. Mas em Thati, os mais poderosos são os gujjares que são donos da maior parte das terras. Os dalits precisam respeitar os gujjars. E estão proibidos de olhá-los nos olhos.

A Constituição da Índia proíbe especificamente a “intocanilidade”, embora pesquisas recentes mostrem que muitos indianos ainda seguem esta prática. A polícia prendeu vários gujjares acusados do ataque contra Sardar, que tem cerca de 55 anos. Mas eles afirmam que a casta “não teve nada a ver”.

Sardar disse que carrega uma cicatriz que o lembrará para sempre do que os homens da casta superior fizeram com ele. 

“Gostaria de pertencer a outra casta,” suspirou.

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