Stefanie Loos/Agence France-Presse - Getty Images
Stefanie Loos/Agence France-Presse - Getty Images

Atriz acusa diretor francês Luc Besson de estupro

Na era do #MeToo, Sand Van Roy se decepciona com o silêncio da sociedade francesa quanto às acusações

Alissa J. Rubin e Elian Peltier, The New York Times

08 Agosto 2018 | 10h00

PARIS - Nos filmes do diretor francês Luc Besson, as mulheres são sérias, inteligentes e fortes, ocasionalmente mais fortes do que os homens. Às vezes, até salvam o mundo. Mas as recentes acusações de abuso sexual contra Besson contribuíram para colocar seu respeito pelas mulheres sob uma luz diferente. 

Sand Van Roy, uma atriz belgo-holandesa, declarou à polícia de Paris que Besson a estuprou mais de uma vez e até a machucou "a ponto de sangrar".

A denúncia, Sand contou que, durante uma visita indesejada ao seu apartamento em abril, ela mostrou a Besson um porquinho de brinquedo que ela chamava de "Weinstein", e depois falou: "Vou chamá-lo 'Luc'". Ela afirmou que não queria fazer sexo, mas ele a derrubou e a forçou. "Luc não parou", prosseguiu.

O advogado de Besson, Thierry Marembert, não quis comentar as acusações, mas disse que Besson, que não tinha sido acusado, declarou-se "extremamente surpreso" quando foi informado a respeito. "Ele confia poder provar sua inocência", afirmou Marembert.

Besson, 59, o primeiro diretor de cinema de grande projeção na França a enfrentar acusações na era do #MeToo, e em um lugar em que o cinema é um elemento central da identidade da nação, é considerado uma figura tão importante quanto Harvey Weinstein foi no cinema americano. As acusações contra Weinstein deram origem a um movimento que derrubou muitos homens e mudou o tratamento dispensado às mulheres em Hollywood. Mas na França, poucas celebridades falaram em apoio a Sand Van Roy, e as notícias sobre Besson não acabaram em uma prestação de contas do mesmo tipo.

Várias forças impedem que o #MeToo e o seu equivalente francês #BalanceTonPorc, ou "Mostre o Seu Porco", tenham o mesmo impacto. Na França, se um homem é considerado responsável por um crime, é relativamente fácil para ele processar por difamação quem o acusa. Os franceses também estão convencidos de que sua abordagem da sexualidade é diferente da abordagem americana, que consideram puritana por traçar uma linha entre o comportamento aprovado e o desaprovado pela sociedade.

Mas estas linhas são pouco claras e podem deixar as mulheres sem saber quanto devem tolerar. No fim, disse a atriz holandesa, o preço por se sentir forçada a fazer sexo com Besson para conseguir alguns papéis em filmes foi excessivamente elevado. Então ela foi à polícia. Um funcionário da promotoria de Paris, que não quis ser identificado, informou que o caso ainda está sendo investigado.

O site francês Mediapart descreveu as acusações de outras três mulheres contra Besson, mas elas não quiseram que seu nome fosse divulgado.

Besson ajudou muitas jovens atrizes em início de carreira, como Nathalie Portman e Milla Jovovich, com a qual posteriormente se casou e depois se divorciou.

Sand Van Roy, 27, disse que conheceu Besson quando tentava conseguir um papel em Valerian e a Cidade dos Mil planetas, em 2015. Ela obteve o papel. Segundo a atriz, foi durante as filmagens que Besson começou a fazer suas investidas sexuais com ela. Embora ela relutasse, também não o afastou completamente, temendo pôr fim à sua carreira.

Mas o contato sexual entre os dois se tornou mais violento, declarou à polícia. Pelo menos uma vez, ele se recuou a usar preservativo, e em duas ocasiões começou a fazer sexo com ela enquanto ela dormia.

No dia 10 de abril deste ano, o diretor foi ao seu apartamento, embora ela o estivesse evitando. Ela lhe mostrou o porquinho, sabendo que isso o irritaria, mas não esperava que ela a estuprasse, afirmou.

Quando, em maio, ela foi ao Festival Cinematográfico de Cannes, Besson mandou que ela voltasse a Paris para uma sessão de filmagens para o filme Anna, que será lançado no próximo ano. E pediu que Sand fosse encontrá-lo no Hotel Bristol. Pouco depois, ele enfiou a mão em baixo de seu vestido e a penetrou.

"Eu pedi, 'Pare, está me machucando', e ele falou, 'O que? não ouvi’, ou 'Não entendi'".

O encontro acabou, e ela foi ao banheiro. Momentos mais tarde, sentiu que alguma coisa a atingira pelas costas, e quando deu por si, estava no chão. Conseguiu se levantar e sair. "Ao chegar em casa, percebi que estava com infecção urinária. Tentei ir ao banheiro, mas doía muito, tive a impressão de que iria desmaiar". Foi então que chamou a polícia.

"Houve alguns escândalos no mundo da mídia na França, mas não no do cinema”, disse Jean-Michel Frodon, que há décadas escreve sobre cinema francês. "Não há qualquer razão para pensar que este mundo escaparia".

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