Yan Cong para The New York Times
Yan Cong para The New York Times

Atriz chinesa busca retomar carreira após crime fiscal

Fan Bingbing ficou em prisão domiciliar no ano passado por causa de um escândalo de sonegação de impostos

Steven Lee Myers, The New York Times

23 de agosto de 2019 | 06h00

PEQUIM - Durante mais da metade da sua vida, Fan Bingbing foi um ícone da florescente indústria do cinema e da televisão da China, que se tornou uma estrela internacional. Então, no ano passado, a sua carreira foi abalada por um escândalo por sonegação de impostos que precipitou a sua queda espetacular das graças do público, e manchou toda a indústria - e o governo chinês agora está ansioso por instaurar um controle ainda mais rigoroso da criação.

“Ninguém pode ter uma jornada totalmente tranquila”, disse Fan em uma rara entrevista, a primeira em que falou do escândalo que eclodiu depois disso. Por quatro meses no ano passado, Fan desapareceu. A ausência da mais famosa estrela cinematográfica chinesa entristeceu milhões de fãs e espalhou o medo entre as suas colegas.

Ninguém sabia naquela época que ela se encontrava em prisão domiciliar enquanto as autoridades vasculhavam os registros da sua carreira de atriz, uma das estrelas do tapete vermelho, o rosto de marcas de luxo. Agora, Fan, que completará 38 anos no próximo mês, está preparando o seu regresso. Ela falou a respeito dos seus problemas. “Tudo o que aconteceu me acalmou e me fez refletir seriamente sobre o que quero fazer daqui em diante na minha vida”.

Recentemente, ela postou as suas primeiras atualizações para os seus 62 milhões de seguidores no Weibo, a versão chinesa do Twitter, promovendo eventos beneficentes e anunciando o seu rompimento com o namorado, Li Chen, ator e diretor. No mês passado, ela apareceu em um teaser no Instagram para 355, um filme com Jessica Chastain.

O papel de Fan permaneceu no limbo desde o escândalo. E muitos projetos continuam lá. Um dos seus últimos filmes, Air Strike, foi impedido de passar nos cinemas chineses. Depois que ela participou de uma leitura de poemas em Pequim, no mês passado, a reação online foi dura. “O nosso país não deveria permitir que esse tipo de gente afetasse a nossa próxima geração”, escreveu um comentarista.

Em outubro, a China revelou que Fan e o estúdio que tem o seu nome havia sido multado em US$ 130 milhões por sonegação de impostos e outras penalidades. Ela não foi acusada de crimes, apenas o seu agente. A indústria cinematográfica foi investigada. “Muita gente teve de pagar impostos atrasados”, disse o crítico de cinema Raymond Zhou.

O que tornou os problemas de Fan surpreendentes foi o fato de ela pertencer a uma família de atores e membros do Partido Comunista. Depois de sua detenção, ela disse que não teria sido nada “sem o partido e a boa política do Estado”. Nascida em 1981, ela foi criada em Yantai. Estudou teatro em Xangai, e aos 16 anos participou de um drama de televisão ambientado no século 18, My Fair Princess.

O seu papel no filme que a lançou determinou a sua queda. Em 2003, ela interpretou a amante de um âncora da televisão em “Cell Phone”. Ocorre que um âncora de carne e osso, Cui Yongyuan, processou o diretor por difamação porque a película tinha paralelos com sua carreira. Depois que Fan anunciou uma sequência em maio de 2018, Cui se enfureceu e postou fotografias dos contratos da estrela para o novo filme: um com um salário de US$ 1,6 milhão para o fisco, e o segundo com o pagamento real de US$ 7,8 milhões.

A prática dos contratos “yin e yang” é um meio comum de evitar os impostos na China, mas a acusação de Cui foi “o fósforo que acendeu o rastilho”, como afirmou o crítico Zhou. As autoridades acabaram acusando Fan de falsificar os contratos quatro vezes. Os problemas que se seguiram não só foram prejudiciais para ela, mas também tiveram consequências para a bilheteria da China. No primeiro semestre do ano, as vendas de ingressos despencaram, acabando com anos de forte crescimento.

Na opinião de Fan, a indústria deveria “se acalmar e refletir” sobre o que deu errado. Fan disse que está pronta para o próximo trabalho, independentemente do que acontecer. “Há arrependimentos, dor e fragilidade”, afirmou. “Mas ainda acho que preciso continuar vivendo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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