Adama Jalloh/The New York Times
Adama Jalloh/The New York Times

Para a atriz Lolly Adefope, a comédia está nos detalhes

A atriz britânica tem um olhar afiado para as nuances do comportamento humano, como vemos na nova temporada de 'Shrill', do Hulu

Sirin Kale - The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 05h00

LONDRES – Lolly Adefope tem repertório. Nos últimos anos, a atriz e comediante de 30 anos apareceu na televisão como o espectro doce de uma nobre do século 18 (na comédia da BBC Ghosts), uma exuberante cabeleireira na cena gay de Portland (na comédia dramática Shrill, da Hulu) e uma assistente apática de Deus (em Miracle Workers, da TBS).

Segundo Adefope, o que une esses papéis tão diferentes é que os personagens "realmente se conhecem a si mesmos". Como, ao que parece, Adefope, cuja abordagem criteriosa da carreira demonstra uma autoconfiança natural, uma dedicação rigorosa ao ofício e uma relutância em ser rotulada.

"Quero interpretar todos os papéis. Isso seria muito legal", comentou a atriz, embora tenha acrescentado que o limite seria interpretar uma heroína em um filme de ação. ("Tem muito treinamento antes daquelas cenas de chutar portas.") Talvez uma espiã? Segundo ela, seu plano de carreira era "acertar algumas coisas primeiro, e então talvez me concentrar no que faço melhor".

No Reino Unido, os telespectadores tiveram a chance de verificar seus múltiplos talentos desde que passou a fazer stand-up, cinco anos atrás, mas nos Estados Unidos ela ainda é mais conhecida como a Fran de Shrill. Baseado nas memórias de Lindy West de mesmo nome, a terceira e última temporada do programa está agora no Hulu.

Quando Shrill estreou em 2019, alguns críticos notaram com aprovação que a série colocava duas mulheres plus size em papéis complexos e cheios de camadas. Aidy Bryant, do Saturday Night Live, interpreta Annie, a personagem baseada em West, nos primeiros episódios focados em sua jornada em direção à autoaceitação – mas hoje Shrill não é apenas um seriado sobre positividade corporal. "É só um seriado engraçado e comovente sobre pessoas e como elas interagem", resumiu Adefope.

Embora Fran tenha começado mais como um papel coadjuvante, ela se tornou uma personagem complicada com o passar dos episódios. "Você pode fazer uma atuação cômica, mas muito de Shrill é também emocional. Foi, provavelmente, minha interpretação mais dramática", disse Adefope.

Em entrevista, Bryant, que também escreveu e cocriou Shrill, elogiou a habilidade técnica de Adefope e sua capacidade de fazer ajustes minuciosos que transformam o tom de uma cena. "Quando editamos o seriado, sempre ficamos maravilhados com sua capacidade de transmitir tanto com um simples movimento dos olhos."

Nascida no sul de Londres, Adefope cresceu assistindo a comediantes da televisão britânica como Catherine Tate, Armando Iannucci e Steve Coogan. Boa aluna – "para ser honesta, ter pais nigerianos dá nisso" –, estudou literatura inglesa na faculdade, onde começou a atuar em um grupo de esquetes cômicos.

Depois de se formar, Adefope começou a distribuir panfletos no Festival Fringe de Edimburgo, antes de realizar duas apresentações solo bem avaliadas lá – Lolly e Lolly 2 – em 2015 e 2016. No palco em Edimburgo, Adefope encontrou o que descreveu como um sentimento de pertencimento. "É uma sensação ótima de estar no lugar certo, fazendo a coisa certa".

Suas apresentações em Edimburgo também chamaram a atenção dos diretores de elenco de programas de televisão, que há muito usam o festival escocês de artes performáticas para recrutar a próxima geração de talentos britânicos. Logo em seguida, começaram a aparecer pontas em seriados no horário nobre na televisão.

Shrill estreou há dois anos, e as ofertas começaram a proliferar. Mas os diretores de elenco continuaram querendo que ela interpretasse repetições mal concebidas, e às vezes ofensivas, da personagem Fran, contou Adefope. "Muitas pessoas pensavam: 'Certo, gorda: você é realmente gorda. Obviamente, adora interpretar pessoas gordas.'E eu só pensava: 'Hum, sou só a Lolly.'"

Outro papel que sempre aparecia era "a amiga esquisita", e ela se perguntou se isso se devia ao fato de ser negra. "A televisão é meio confusa em matéria de estereótipos, em relação a quem interpreta o casal protagonista. Sempre percebi que havia muitos seriados com uma atraente protagonista branca, e então me ofereciam o papel da amiga excêntrica. Eu pensava: 'Por que não pode ser o contrário?'"

No stand-up, no entanto, Adefope está no controle completo. "Interpreto todos os papéis, escrevo, dirijo". Suas apresentações também priorizam a nuance, mexendo nas minúsculas peculiaridades e fraquezas de pessoas que ela conhece ou encontra em personagens cômicos: homens falsamente progressistas de seu círculo social ou chatérrimos revolucionários veganos.

Certa vez, Adefope tentou criar um personagem baseado em um comediante de direita, mas teve de desistir, porque ela não conhece pessoas assim na vida real. "É mais fácil rir de mim mesma ou de pessoas que conheço", acrescentou.

Quando Adefope conseguiu o papel de Fran, cancelou sua terceira apresentação solo, Lolly 3, para se concentrar em Shrill. O stand-up tem ficado em segundo plano desde então, mas Adefope tem apresentações planejadas no Reino Unido. ("Serão sobre o que quer que esteja me incomodando no momento.")

"Você realmente não pode dizer que é comediante antes de fazer um espetáculo, e não quero me transformar em uma atriz em tempo integral." Outra coisa que Adefope não quer fazer é se mudar de Londres. "Se eu for para Los Angeles, minha vida inteira será atuar e conversar com atores. Quero manter o lado britânico do meu senso de humor".

Dado o nível de exigência de Adefope em relação à sua carreira, talvez fosse inevitável que acabasse atrás das câmeras, escrevendo os próprios projetos: ela disse que está desenvolvendo um programa para uma produtora americana, que ela mesma vai protagonizar, e também trabalhando em um podcast narrativo. "Não é necessariamente a ida para a indústria que lhe possibilita essa versatilidade. Tem de ser algo que você mesmo construa".

Pode levar algum tempo, porém, para vermos o que ela fez. "Demoro muito a escrever minhas coisas, em parte porque estou filmando muito, mas também porque sou perfeccionista".

Quando ambos os projetos forem lançados, certamente serão elaborados com a precisão que caracteriza todo o trabalho de Adefope. "Assisto a outros programas e realmente analiso o que funciona e o que acho que não funciona. Coloco muita pressão sobre mim mesma. Vou querer ter certeza de que meu programa está perfeito".

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