Maridelis Morales Rosado/The New York Times
Maridelis Morales Rosado/The New York Times

Lã, tênis e comunidade: aulas de balé continuam a céu aberto

'Você não vai fazer o jeté pelo Central Park na neve', mas vai se mover e estar com outros dançarinos

Siobhan Burke, The New York Times - Life/Style

23 de fevereiro de 2021 | 05h00

NOVA YORK – Uma vez por semana, Amelia Heintzelman veste dois pares de meias, dois pares de calças e dois casacos, e sai de casa em Ridgewood, no Queens, para um ensaio de dança. Carregando apenas alguns itens como o telefone e as chaves, para não pesar muito, ela corre cerca de seis quilômetros até a beira do Rio East, em Williamsburg, no Brooklyn. Pelas próximas duas horas, ela vai dançar a céu aberto, e a corrida acumulada vai produzir o calor tão necessário. "Chego lá muito aquecida e me esforço bastante para continuar me mexendo", disse ela em entrevista por telefone.

Heintzelman, de 27 anos, faz parte de um grupo de bailarinos que se reúne no Parque Estadual Marsha P. Johnson, à beira do rio em Williamsburg, para aulas semanais e ensaios. Organizado pela coreógrafa Phoebe Berglund, que lidera um aquecimento de barra de balé com tênis de jazz brancos e uma grande parca azul, o grupo começou a tomar forma em agosto e continuou a se reunir regularmente, mesmo depois que os dias de temperatura mais amena deram lugar a um clima mais rigoroso. (Por razões de segurança e de estilo, todos os bailarinos usam máscara de cetim azul com as letras PBDT, a sigla de Phoebe Berglund Dance Troupe.)

Depois que os teatros e os estúdios fecharam em Nova York na primavera do Hemisfério Norte, deixando muitos bailarinos sem nenhum lugar para praticar exceto a sala de estar, o verão e o início do outono fizeram explodir o número de lugares com dança a céu aberto, com aulas e ensaios surgindo em parques e em outros espaços públicos. (Alguns estúdios foram reabertos, mas com capacidade limitada.) Quando a temperatura começou a cair, as atividades a céu aberto diminuíram. Mas, mesmo no auge do inverno, alguns artistas e professores persistiram em reunir pessoas para dançar – presencialmente – na segurança do ar livre.

Nesse novo cenário de dança a céu aberto, as aulas de balé, normalmente realizadas em estúdios equipados com barras e piso de molas (bom para saltos), mostraram ser especialmente tenazes. Por toda a cidade, bailarinos amadores e profissionais com tênis, máscara e muitas camadas de roupa dão continuidade a um ritual familiar que, para muitos, é essencial para a manutenção da saúde física e mental. Enquanto a aula de Berglund é destinada aos bailarinos de sua trupe – preparando-os para os ensaios difíceis –, outras aulas são abertas ao público e atraem seguidores leais e aventureiros.

Nas tardes de domingo no Central Park, ao longo do caminho com vista para o Rinque Wollman, a veterana professora de balé Kat Wildish oferece uma aula de uma hora de duração com música ao vivo, recebendo de braços abertos qualquer pessoa que se sinta motivada a participar. No Parque Carl Schurz, no Upper East Side, Dianna Warren dá aulas para todos os níveis nas tardes de sábado. (Ela sugere ter alguma experiência de balé, mas principalmente "uma mente aberta".)

E no Parque Brower, em Crown Heights, no Brooklyn, Katy Pyle – fundadora da Ballez, companhia de balé que visa promover a aceitação do próprio corpo e é amigável a homossexuais – ensina Pro Sneaker Ballez, sessão de 90 minutos para bailarinos avançados, uma vez por semana.

Em dias muito frios ou chuvosos, as aulas normalmente são adiadas ou são dadas via Zoom, o ambiente virtual de tantos treinos e ensaios de dança da era pandêmica. A maior parte delas, porém, resistiu sem interrupção, consistência que dialoga com o desejo dos bailarinos de estarem fisicamente juntos, e não trancados em um apartamento ou separados por uma tela.

"A coisa mais gratificante de ser bailarina é estar com outros bailarinos", afirmou Anna Rogovoy, de 29 anos, que começou a frequentar as aulas a céu aberto de Pyle em janeiro. Ela tentou fazer as aulas on-line em seu apartamento, mas descobriu que a falta de espaço – combinada com o medo de incomodar os vizinhos do andar de baixo – estava corroendo seu amor pelo balé, arte que, para ela, não tem nada a ver com ficar quieta ou acanhada.

"O que amo no balé não é ter de fazer pequenos exercícios minuciosos. Faço todas essas coisas para poder explodir no espaço, perder o controle, ser surpreendente e encontrar novos limites em minha dança", contou ela. Antes do Pro Sneaker Ballez, que culmina em um grand allegro (a parte da aula com treino de saltos) em uma quadra de basquete, fazia cinco meses que ela não saltava. Quando finalmente o fez, ficou contente demais: "Mesmo fazendo apenas 16 passos – pequenos saltos no lugar –, quase chorei."

Pyle, que usa o pronome "eles", começou a dar aulas a céu aberto no fim de junho, depois de meses dando aulas via Zoom (que se mantêm) e dançando sozinha em uma quadra de handebol vazia. Era o mês do Orgulho LGBTQI+ e Pyle queria se conectar com sua comunidade por intermédio da dança: "Fazer aulas de verdade com outras pessoas é muito diferente; você se relaciona com muita gente, testemunha outras pessoas, se inspira nelas, aprende, socializa – tantas coisas."

Conforme a temperatura caiu, Pyle avaliou o interesse dos alunos em continuar a dançar a céu aberto. "Todo mundo bradou: 'Vamos continuar! Quero continuar!' Brincamos sobre comprar roupa de neve." (Pyle passou a acreditar "fortemente na camada básica de lã".)

Para Wildish, o entusiasmo dos alunos também ajudou a dar sustentação às aulas ao ar livre, que ela dá quase todos os domingos desde abril, paralelamente à lotada agenda de aulas on-line. "Tudo retorna aos bailarinos. Eles são realmente cascas-grossas", disse via Zoom ao lado de Sean Pallatroni, que toca para a classe em um teclado a bateria que carrega até o Central Park.

O balé na rua, em qualquer clima, requer alguns ajustes. Wildish observa que é mais difícil articular os pés calçando tênis (em comparação à macia sapatilha de balé), e pular com muita força no concreto pode machucar. James T. Lane, de 43 anos, artista da Broadway e frequentador assíduo das aulas do Central Park, mencionou que, para proteger o corpo, dá menos saltos e voltas do que se estivesse em um estúdio.

A neve adiciona outro desafio. Lane estava entre os que apareceram para o treino de barra – uma grade robusta acima do rinque de patinação – depois de uma forte nevasca em dezembro. Ele se lembra de abrir espaço para os pés e iniciar os pliés, focado menos em alcançar a perfeição do que no espírito do movimento comunitário. "O que vale é estar junto, é o compromisso, é a comunidade. Você não vai sair fazendo jeté pelo Central Park na neve. Não vai executar tudo o que sempre esperou e sonhou. Mas vai movimentar seu corpo e participar de uma experiência diferente de qualquer outra durante aquela hora, naquele domingo, e você estará nisso com as outras pessoas", completou o bailarino.

Berglund também não se deixa abater pela neve. Tendo crescido em Newport, no Oregon, cidade pesqueira que descreve como "fria e cinzenta o ano todo", ela abraça a dança com todos os elementos. "Ronds de jambe na neve? Bum. Você começa a planar", comentou ela, referindo-se a um exercício de barra em que o pé desenha semicírculos no chão. Recentemente, em um dia de tempo bem ruim, o vento deu aos bailarinos o ímpeto para uma série de voltas em chaîné, em um trecho aberto de asfalto. "Isso me faz pensar nos efeitos especiais no palco, como máquina de fumaça, holofotes especiais, máquina de neve, fãs. Tem tudo aqui. Temos todos os efeitos especiais a céu aberto", ressaltou Berglund.

Durante a aula de sábado no Parque Carl Schurz, Warren também aprecia a natureza. Ela começou a dar aulas ao ar livre em junho, enquanto recuperava as forças depois de ter adoecido gravemente de covid-19, o que a deixara fraca durante meses. A última parte da aula – um momento de agradecimento, conhecido como reverência – parece "mais sagrado" do que nunca, observou ela, enquanto os bailarinos se curvam diante da vista panorâmica do Rio East: "É como se você estivesse se oferecendo à água e ao ar. Trata-se de estar cheio de graça e gratidão pelo seu corpo, pela comunidade, pelos companheiros bailarinos, pela cidade de Nova York, pelo mundo – por ainda poder estar aqui e conseguir dançar."

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