Karsten Moran para The New York Times
Karsten Moran para The New York Times
James Gorman, The New York Times

02 de outubro de 2018 | 10h15

HAMMONASSET BEACH STATE PARK, CONNECTICUT - Os pardais dos mangues salinos da última ninhada estão indefesos, quase sem penas, com a pele avermelhada, mal visíveis à luz do anoitecer. Samantha Apgar afasta um emaranhado de vegetação do mangue, ou feno salgado, para mostrar o ninho escondido. A maré está subindo e os filhotes logo se molharão.

Samantha, recém-formada na Universidade de Connecticut, trabalha com Christopher Elphick, um ornitólogo da universidade, para gravar o que acontece quando a maré alta inunda os ninhos das aves do mangue. Ela tem câmeras de vídeo automáticas e também colabora com os câmeras do Comell Lab of Ornothology de Ithaca, Nova York, que gravaram a eclosão dos ovos desses filhotes poucas horas antes.

Ela alerta que as perspectivas destes frágeis seres é preocupante. Se eles durarem até a noite, ainda terão cinco dias de marés cada vez mais altas pela frente, até a Lua Nova. “Acho que não vão conseguir sobreviver”, ela diz.

A espécie cresce nos mangues da costa do Maine à Virgínia, e só existe na Costa do Atlântico. Sempre esteve à mercê do tempo e da maré, e forma ninho entre as marés mais altas da primavera. Mas, agora, com a elevação dos níveis dos mares provocada pela mudança climática, as marés são cada vez mais altas, ameaçando a sobrevivência dos pássaros. Sua população declina cerca de 9% ao ano desde o final dos anos 90. Agora, seu número é de 40 mil a 80 mil.

Dr. Elphick e outros cientistas previram recentemente que a espécie chegaria a um limiar quando as marés mais altas da primavera ocorressem muito frequentemente e as aves não tivessem tempo suficiente para cuidar dos filhotes. “Depois desse limiar, essas aves poderão se extinguir talvez no prazo de seis anos”, afirmou.

O momento crucial poderá ocorrer entre 2030 e 2060, quando os pardais desses mangues receberão a distinção de ser os primeiros pássaros a se extinguirem como consequência direta da elevação do nível dos mares.

A precária existência dessas aves é um exemplo da ameaça que paira sobre os mangues do litoral leste, e de todas as espécies que dependem deles.

“Perderemos muitas coisas rapidamente”, afirma Elphick. “Acho que é isso que apavora os que, como nós, estudam isso.”

De manhã, os filhotes recém-nascidos desapareceram, afogados na maré alta. A mãe pardal já está à procura de pais para a sua segunda ninhada. Ela não pode perder tempo; as marés não esperam.

Esses filhotes se afogaram perto do início de uma temporada de nidificação que vai de maio até o fim de agosto. Samantha acompanhou os ninhos nesse local de Connecticut durante toda a temporada. Dos 59 ninhos encontrados, 40 não deram certo. Ela sabe que 16 foram inundados. Os outros talvez tenham tido o mesmo destino, mas ela não possui provas. Quatro ninhos produziram filhotes que sobreviveram pelo menos o bastante para sair do ninho, e ela não sabe o que aconteceu com os filhotes dos outros 15.

“Eles saem do ovo e logo em seguida são inundados pela água fria e, ou se afogam ou conseguem sobreviver e ganham penas”, disse. “É uma maneira muito difícil de vir ao mundo”.

Segundo Elphick, é comum encontrar “filhotinhos afogados por toda parte”. Mas afirmou que isso faz parte da história da sua vida. "Até certo ponto, acontece desde que eles passaram a viver nos mangues”.

“É preocupante nos darmos conta de que essa espécie que estamos estudando, que nem parece tão rara, poderá extinguir-se ainda durante a nossa vida”, acrescentou.

As fêmeas fazem o ninho e depõem os ovos quantas vezes conseguem, em geral cerca de cinco para cada ninho. “Em 25% dos ninhos, cada filhote tem um pai diferente. E em quase todos os ninhos, há pelo menos dois pais e frequentemente três e até quatro”, disse o dr. Elphick.

As aves precisam de cerca de 23 dias entre as marés que inundam os ninhos para depor os ovos, incubá-los e criar os filhotes até o estágio de poderem deixar o ninho. As marés mais altas, que muito provavelmente inundarão os ninhos, ocorrem mais ou menos a cada 28 dias.

A Iniciativa do Pardal dos Mangues Salinos, da qual dr. Elphick faz parte, tenta impedir que a população caia abaixo dos 10 mil, e quer trazê-la de volta a aproximadamente 25 mil. Para isso, ela tenta proteger os mangues atuais e o futuro habitat.

Uma medida provisória poderiam ser valas de drenagem. Muitos mangues costeiros como o de Hammanasset já têm essas valas, cavadas nos anos 20 e 30 para o controle dos mosquitos. Deveriam ser escavadas outras valas, ou então as já existentes poderiam ser ampliadas ou aprofundadas.

“A conservação dessa espécie, neste momento, - e não apenas dessa espécie, mas de todas as outras espécies que vivem nos mangues costeiros - se concentra em torno da localização de pontos em que possam existir mangues daqui a 30, 50 ou 80 anos”, afirmou Elphick.

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