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Ausência de presas pode ser a salvação de elefantes da África

Elefantes que tinham presas foram massacrados a um ritmo assustador para a extração do seu marfim

Natalie Angier, The New York Times

24 Setembro 2018 | 10h15

PARQUE NACIONAL GORONGOSA, Moçambique - A bordo de uma aeronave sobrevoando as planícies de inundação e lamaçais, olhamos para baixo e vemos manadas de antílopes se espalhando pela área.

Estamos procurando os elefantes sem presas de Gorongosa, difíceis de encontrar, que carecem naturalmente das magníficas presas de marfim tão tragicamente cobiçadas pelos colecionadores de objetos preciosos de todo o mundo.

Os elefantes sem suas presas podem ser encontrados em pequenos grupos em toda a África, mas sabe-se que Gorongosa abriga uma população maior desses animais, o legado de uma violenta guerra civil que durou 15 anos. Os elefantes que tinham presas foram massacrados a um ritmo assustador para a extração do seu marfim, e os raros habitantes sem presas do parque obtiveram assim uma súbita vantagem darwiniana.

Hoje, cerca de um quarto dos cerca de 700 elefantes do parque tem ausência de presas, todos são fêmeas, e estou determinada a ver pelo menos uma delas.

“Ali!” grita o piloto, Alfredo Matavele, apontando para algumas árvores. “E ali!” apontando para um poço d'água. E ali e ali. “Está vendo?” pergunta ele.

Estou sim. Dúzias de elefantes, em várias turmas, abanando as orelhas e agitando as trombas, muitos deles sem as características protuberâncias de mármore em suas faces.

Parece que humanos e elefantes compartilham de uma anomalia básica no desenvolvimento, que pode ser atribuída a um problema semelhante no nosso DNA.

As presas dos elefantes são versões superdesenvolvidas dos incisivos laterais superiores - os dentes bem ao lado dos dentes da frente, antes dos caninos. Em termos simples, os elefantes sem presas não têm os incisivos laterais.

Os cientistas ainda não conhecem exatamente a causa da ausência de presas, mas progrediram muito na tarefa de decifrar o problema do desenvolvimento dos dentes nos mamíferos em geral. Trata-se de um código genético antigo e amplamente compartilhado.

“O desenvolvimento dos dentes foi muito conservado ao longo da evolução", disse Irma Thesleff, bióloga especializada em desenvolvimento da Universidade de Helsinque, na Finlândia. Ela descobriu que as mutações associadas a deformações nos dentes de camundongos também são identificadas nos estudos genéticos de pessoas com dentes ausentes ou mal formados.

“Elefantes e camundongos não são tão diferentes dos humanos", disse a Dra. Thesleff, “de modo que é bastante possível que os mesmos genes sejam responsáveis” pela ausência de presas em elefantes e a falta de dentes em humanos.

A ausência dos incisivos laterais é considerada a segunda forma mais comum da chamada agenesia de dentes. A proporção normal em que este quadro é observado varia entre 2% e 4%, comparável à proporção de ausência de presas entre os elefantes africanos.

Na maioria dos casos, as presas são caninos readaptados, curvadas para cima e para o lado nos javalis ou pendendo de cima nas morsa. No caso do narwhal, o unicórnio do Ártico, a presa é formada por um único canino supercrescido que perfura o lábio superior do animal.

Via de regra, as presas desempenham múltiplas funções. Os elefantes usam seus poderosos incisivos para cavar em busca de sais e minerais, quebrar galhos e acessar a folhagem, raspar a casca de árvores, resgatar um filhote atolado ou erguer um filhote adormecido.

De onde eu estava, acompanhei dois machos lutando numa briga de presas, que podem pesar mais de 45 quilos cada - sete vezes o peso da presa média de uma fêmea.

Mas as propriedades biofísicas que fazem das presas ferramentas tão esplêndidas muitas vezes são a perdição de seus donos. Faz tempo que as pessoas valorizam a beleza do marfim, sua plasticidade e até suas supostas propriedades mágicas.

Há muito tempo, os elefantes são massacrados para a extração do seu marfim. Apesar dos esforços internacionais para coibir este comércio, a demanda ainda faz prosperar um negócio que movimenta pelo menos um bilhão de dólares ao ano.

A persistência da extração de marfim dos elefantes levou os pesquisadores a indagar se os elefantes realmente precisam das presas, e se não seria melhor se a característica de ausência de presas se disseminasse entre a população africana.

Shane Campbell-Staton, professor-assistente de ecologia e biologia evolutiva da Universidade da California, em Los Angeles, e seus colegas começaram a comparar os elefantes com e sem presas em Gorongosa, tentando identificar não apenas os genes envolvidos na ausência de presas, mas também os padrões de funcionamento da hereditariedade.

Por que quase todos os elefantes sem presas da África são fêmeas, por exemplo?

O Dr. Campbell-Staton também investiga os efeitos da ausência de presas.

“Sabemos que as presas desempenham um papel importante na obtenção de alimento", disse ele, “e, assim sendo, será que os indivíduos que carecem dessa ferramenta usam o ambiente de outra maneira, e será que essas mudanças podem trazer consequências para outros animais, que dependeriam dos elefantes enquanto engenheiros do ecossistema?”

É possível que sim, mas, aparentemente, os elefantes sem presas de Gorongosa estão prosperando. 

“Estão em ótimas condições, o habitat é muito bom para eles, e não há indícios de sofrimento nutricional", disse Joyce Poole, diretora científica do grupo de pesquisas Elephant Voices, que trabalha em Gorongosa defendendo os elefantes.

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