Fotos de Eirini Vourloumis para The New York Times
Fotos de Eirini Vourloumis para The New York Times

Austeridade e migração afetam prostitutas na Grécia

Refugiados 'inundam' mercado que luta para atrair clientes

Iliana Magra, The New York Times

01 Novembro 2018 | 06h00

ATENAS - Um possível cliente entrou no quarto fracamente iluminado no subsolo de um edifício no centro de Atenas. Elena, 22, tirou o robe e ficou de pé. Evaggelia, sua madame de 59 anos, imediatamente começou sua cantilena. “Minha menina não tem um defeito”, disse Evaggelia em grego. 

“Recomendo-a sem reservas”. Ela recitou o “cardápio” e, acrescentou que com uma exceção, “minha menina faz tudo na cama”.

O cliente de meia-idade, com uma pequena barriga, olhou para Elena, uma prostituta russo-polonesa, que jogou o seu cabelo louro para trás e deu meia volta sobre os saltos pretos super altos. “OK”, ele disse finalmente. O preço? Vinte euros, cerca de 23 dólares.

Filis Street - um labirinto de becos e casas sujas de dois andares - se tornou a zona dos prostíbulos de Atenas há mais de meio século. Mas agora o comercio é mais desesperado por causa da década perdida da Grécia, desde a crise financeira de 2008. A economia falida e a chegada de dezenas de milhares de migrantes empurram mais mulheres para a prostituição - apesar da queda dos preços.

“Tive uma loja de flores por 18 anos - e agora estou aqui por necessidade, não porque seja divertido”, disse Dimitra, a mulher de meia idade que agora é a madame em Filis Street. “Me chamavam Senhora Dimitra, agora virei uma puta”.

Na Grécia, a prostituição é legal nos bordeis registrados, mas a maioria em Atenas não é registrada. 

A prostituição de rua é ilegal, entretanto as mulheres vendem o sexo em algumas esquinas.

“A prostituição cresceu e mudou, basicamente no contexto do novo ambiente político, econômico e cultural”, afirmou Grigoris Lazos, professor de Criminologia na Universidade Panteion em Atenas, referindo-se a austeridade econômica da Grécia. Ele passou seis anos pesquisando as mudanças causadas na prostituição pela migração e pela austeridade em Atenas.

Ele constatou que o número de prostitutas na cidade aumentou 7% desde 2012, entretanto os preços caíram drasticamente. “Em 2012, em geral eram necessários 39 euros” para um cliente contratar uma prostituta em um bordel, disse Lazos, “enquanto em 2017 o preço baixou para apenas 17 euros - uma queda de 56%”.

Segundo a legislação grega, um bordel precisa estar localizado a pelo menos 200 metros de escolas, hospitais, igrejas e praças públicas, entre outros locais. Lazos disse que apenas oito dos 798 bordeis que operavam em Atenas em agosto eram legais.

As estatísticas da polícia não contam mais de 300 bordeis na capital. Um porta-voz da polícia ateniense, Theodoros Chronopoulos, explicou que o número oficial não inclui os bordeis clandestinos. 

Ele acrescentou que os policiais trabalham agressivamente para reprimir as máfias do tráfico. Mas em geral a polícia não interfere com os bordeis, em parte porque as autoridades consideram que ajudam os jovens a aliviar sua solidão.

Chronopoulos mais tarde fez uma declaração adicional: “Não há tolerância quando se trata dos bordeis”.

As prostitutas entrevistadas expressaram frequentemente nojo pelos clientes. Evaggelia disse: “Não merecem uma namorada. Eles acham que pagando 20 euros compram alguma coisa”.

Todas as mulheres insistiram em usar apenas um nome. Nenhuma disse que havia sido forçada - salvo pela necessidade - a estar ali.

“Odeio o sexo”, disse Elena. “Gosto do dinheiro, não do trabalho”.

Anastásia trabalha como prostituta desde os 14 anos. Agora está com 33, e diz que o trabalho é mais difícil do que nunca. “As pessoas não têm mais dinheiro”.

Anastásia diz que eles prometem: “Vou voltar quando receber o pagamento”, ou pechincham. Os homens frequentemente pedem o sexo protegido, e muitas prostitutas viciadas em drogas pegam estes clientes até por menos de 10 euros.

Monica, uma albanesa de 30 anos que cresceu em Thessaloniki, disse que entrou no negócio há 10 anos em Creta. Mudou-se para Atenas há cinco anos em busca de uma nova vida, e no começo trabalhava em uma 'taverna'. Ela havia  concluído um ano em um curso que lhe dará um diploma, e queria usar os seus ganhos para pagar um segundo ano - mas o seu chefe nunca pagou um salário para ela. “Vim para cá”, para o bordel, “porque é o único trabalho que, quando você faz o que tem de fazer, sabe que será paga.”

Hoje, ela passa seis a oito horas por dia tentando atrair clientes, mas a maioria deles não fica. 

“Eles não têm dinheiro”, concluiu. “Não têm dinheiro há sete anos”.

Quando ela pega um cliente, cobra 10 euros por 10 minutos, e pode ficar com a metade. “Alguns anos atrás, eles costumavam dar uma gorjeta”, disse Monica. “Pagavam 20 euros e 50, até 100 euros se gostassem. Agora, não há mais gorjetas”.

A clientela mudou também, observaram as mulheres. É composta em grande parte por migrantes.

Muitos gregos são pobres demais para pagar. “Seus salários eram 800 ou 900 euros”, prosseguiu. “Agora não recebem nada”.

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