Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Austeridade na Grã-Bretanha eleva número de crianças na pobreza

Cortes em benefícios voltados ao bem-estar social causaram uma crise financeira nas famílias

Patrick Kingsley, The New York Times

04 Outubro 2018 | 15h00

MORECAMBE, Inglaterra - A aula ia começar na Escola Primária de Morecambe Bay, administrada pelo Estado, no noroeste da Inglaterra. Siobhan Collingwood, a diretora da escola, indicou um menino que devorava feliz duas fatias de pão - sua primeira refeição do dia.

Ela contou que os professores o encontraram catando fruta estragada nos latões do lixo. “Ele come o que a gente puser na sua frente”.

Alguns alunos passaram pelo grupo da diretora, mas não pararam; já tinham comido. Mas vários deles dirigiram-se para o balcão do self-service. De 350 alunos, um em cada três não tomaria o café da manhã se a escola não o fornecesse, admitiu a diretora.

Em 13 anos no cargo na Escola Primária de Morecambe Bay, sempre houve algumas crianças com fome, observou. Mas de dois anos para cá, os professores notaram um aumento do número de meninos mais jovens que voltavam às aulas subnutridos depois das férias em casa.

A diretora e sua equipe ficaram pasmas: muitos pais tinham empregos, embora lutassem com as contas. 

Depois elas se deram conta de que o aumento do número de crianças com fome coincidia com os consideráveis cortes dos benefícios do bem-estar relacionados à introdução canhestra de um novo programa social.

“Quando falamos aos pais”, disse Collingwood, “ficou claro que, segundo muitos deles, a situação era causada pelas mudanças do sistema de benefícios adotadas nos últimos anos, que estavam criando uma crise financeira para as famílias.”

Em toda a Grã-Bretanha, o número de crianças que vivem na pobreza aumentou bruscamente nos últimos seis anos, tendência que os críticos atribuem em parte à política de austeridade implantada pelo governo conservador, resultado do corte do orçamento em razão da crise financeira de 2008 que está mudando de maneira persistente a vida no país.

A Grã-Bretanha não é a Venezuela. Mas isto não é consolo em um dos países mais ricos do mundo, que ao longo dos anos mantém um forte comprometimento com o bem-estar das crianças.

Embora a fome não seja o único problema associado à pobreza da infância, é talvez o mais difícil de ocultar. Aliás, é um sinal inconfundível de um problema que está se agravando.

A curto prazo, a pobreza aumenta o risco de doenças, fome e estigma social. A longo prazo, pode criar um círculo vicioso do qual a criança luta para escapar, principalmente na Grã-Bretanha, país em que é forte a consciência de classe.

Os adolescentes britânicos de famílias menos favorecidas têm cerca de 33% menos probabilidades de tirar boas notas no exame nacional obrigatório na Grã-Bretanha, aos 16 anos, segundo estatísticas do governo.

E menos da metade deles provavelmente chegará à universidade. Os que conseguem, têm menores probabilidades de encontrar um emprego mais bem pago seis meses depois de formados do que os de famílias mais privilegiadas. E eles terão ainda menores probabilidades de se formarem em profissões nas áreas que conferem posições melhores, como Direito ou Medicina.

Mesmo os que rompem o “teto da classe” têm uma vantagem 16% inferior em relação aos seus colegas privilegiados, constataram pesquisadores na London School of Economics.

E os filhos de famílias mais pobres provavelmente morrerão cerca de cinco anos mais cedo do que os que não são tão pobres, sugerem dados oficiais.

Antes da crise financeira, os governos britânicos, conservadores e trabalhistas, conseguiram avanços na questão da pobreza infantil: o número de menores que viviam em condições de “pobreza relativa” - famílias com renda anual inferior a 60% da média nacional, depois dos custos da habitação - sofreu uma queda de aproximadamente 800 mil, para 3,5 milhões, entre 1998 e 2012, ou 27% de todos os britânicos até 16 anos.

Mas no mesmo ano em que o Parlamento aprovou a Lei da Reforma da Previdência, a tendência começou a mudar; desde 2012, cerca de 600 mil crianças voltaram para a “pobreza relativa”. No mesmo período, o número de crianças que precisaram de doações de alimentos do Trussell Trust, a maior rede de bancos de alimentos do país, mais que triplicou, de perto de 127 mil, para mais de 484 mil.

Em 2021, prevê-se que cerca de 35% de todos os menores na Grã-Bretanha serão pobres. E a próxima saída do país da União Europeia poderá aprofundar o problema por causa do aumento do custo de vida e da perda repentina dos fundos destinados por Bruxelas à população jovem.

Os líderes do Partido Conservador, que promoveram a austeridade, afirmam que um novo sistema que unifica a maioria dos pagamentos em apenas um, conhecido como crédito universal, é um avanço.

Embora o desemprego tenha sido reduzido pela metade no governo conservador, a taxa de pobreza entre as crianças em geral aumentou.

“Contamos ao nosso povo uma história completamente errada sobre a pobreza no Reino Unido”, disse Alison Garnham, diretora de uma instituição assistencial britânica. “O governo gosta de chamar a atenção para as famílias sem trabalho, mas são poucas hoje. Este é um problema do passado”.

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