Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Austeridade na Grã-Bretanha testa limites da polícia

O programa de corte de gastos do governo conservador resultou na demissão de 20 mil oficiais

Benjamin Mueller, The New York Times

22 de março de 2019 | 06h00

BIRMINGHAM, INGLATERRA - Em uma tarde de neblina no segundo semestre do ano passado, uma paciente suicida saiu de um hospital em Solihull, Inglaterra, e desapareceu. Policiais a encontraram em uma rua perto de Birmingham. Eles chamaram as agências de serviço social e caridade em busca de ajuda, mas as tentativas de encaminhamento foram recusadas ou nem mesmo respondidas.

Durante as oito horas em que os oficiais trabalharam no caso dela, o Departamento de Polícia de West Midlands recebeu outros 1.452 chamados de emergência e, em muitos desses casos, horas ou dias se passaram até que um oficial pudesse atendê-los.

"A situação é um pouco sem saída", disse o policial Richard Chant. "Temos de ajudar as pessoas que estão passando por crises, mas a polícia não é o departamento certo para lidar com elas".

O fardo do policial Chant reflete o estado de sobrecarga do policiamento na Grã-Bretanha ao longo da era da austeridade econômica: o número e a variedade dos chamados de emergência aumentaram muito em Birmingham e muitas outras cidades, embora o número de policiais para responder a eles seja muito menor. As incertezas econômicas envolvendo a saída da britânica da União Europeia significam que a pressão orçamentária pode estar longe do fim.

O Departamento de Polícia de West Midlands teve US$ 220 milhões cortados de seu orçamento desde o início do programa de austeridade promovido pelo governo conservador, em 2010. Em toda a Inglaterra e País de Gales, a força policial encolheu em cerca de 20 mil oficiais.

Há também dúvidas quanto à possibilidade de os cortes contribuírem para um aumento nos crimes violentos. Assassinatos e roubos aumentaram muito na Inglaterra e no País de Gales, chegando aos níveis mais altos em dez anos.

O problema é agravado por cortes paralelos nos serviços sociais. Serviços de combate ao vício, benefícios de habitação, programas de mediação entre gangues e serviços sociais para adultos e crianças tiveram seu alcance reduzido.

Nas ruas, os policiais correm entre chamados de emergência e têm menos tempo para patrulhar uma região. A dedicação a chamados ligados à saúde e ao bem-estar deixa pouco tempo para a coleta de provas e solução de crimes. Como resultado, as vítimas que não se encontram em perigo imediato acabam esperando dias até serem entrevistadas por um policial. Os policiais dizem ter praticamente desistido de investigar crimes contra o patrimônio.

"O fato de a polícia ser usada para todas as ocorrências não era tão mal enquanto havia recursos para o financiamento adequado da força policial", explicou o policial Chant. "Mas, com 20 mil homens a menos e cortes no orçamento, alguém precisa decidir quais serão nossas prioridades".

Criminosos estão em maior número

Nas décadas mais recentes, a proporção de diagnósticos de doença mental grave aumentou na Inglaterra enquanto os serviços de atendimento foram reduzidos. Por sua vez, os policiais na Inglaterra e no País de Gales detiveram 60% mais pessoas por questões psiquiátricas em 2015-16 do que dez anos antes. A polícia de Londres recebe agora chamados ligados à saúde mental a cada quatro minutos, aproximadamente.

Para muitos departamentos de polícia, bem como para os tabloides que ainda influenciam a Grã-Bretanha, a resposta para a deterioração do serviço é simples: mais policiais. Padrões nos roubos a táxis e invasões domiciliares são ignorados porque o número de casos arquivados sem investigação é imenso, dizem eles. As vítimas desistem de chamar a polícia. Os criminosos se sentem em vantagem.

"Quando os criminosos percebem que a gangue deles é maior do que a nossa, começam a explorar esse fato".

Boa parte da culpa recaiu sobre os ombros da primeira-ministra Theresa May, arquiteta dos cortes quando atuou como secretária do interior entre 2010 e 2016. Enquanto negocia a saída britânica da UE, ela enfrenta a ira diária dos oficiais que não a perdoaram por campanhas de combate à corrupção em associações de policiais e nas operações de revista nas ruas, nem pelos cortes no pessoal.

Mas outros dizem que a Grã-Bretanha deveria restaurar os recursos dos serviços sociais em vez de expandir uma força policial que não está equipada para lidar com uma crise de saúde mental.

Em meados de dezembro, o governo de May anunciou mais US$ 1,2 bilhão para a polícia. Lideranças entre os policiais, no entanto, logo lamentaram que boa parte da soma seria absorvida pelas crescentes obrigações da força com as pensões, e não pela contratação de mais policiais.

Kirk Dawes, que já foi policial no departamento de West Midlands, aposentou-se da força e deu início a um programa de mediação voltado para Birmingham, palco de violentas rivalidades entre gangues. Com cerca de 100 por ano no início da década de 2000, a equipe de mediação teve apenas um assassinato ocorrido durante o período de sua atuação. Mas, na nova era de austeridade, o orçamento do programa sofreu cortes agressivos, até ser cancelado em 2012.

Já em meados do semestre passado, mais de um terço dos homicídios investigados pelos detetives de West Midlands era do tipo de assassinato que a equipe de Dawes ajudava a evitar.

"Tudo isso foi perdido", disse ele.

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