AnnaMaria Antoinette D'Addario/The New York Times
AnnaMaria Antoinette D'Addario/The New York Times

Autor quer salvar o presente da Austrália com seu passado aborígene

Livro de Bruce Pascoe desencadeou reconsideração da história australiana. Agora ele espera usar sua escrita para reviver a comunidade aborígine

Damien Cave, The New York Times - Life/Style

13 de setembro de 2020 | 05h00

WALLAGARAUGH, AUSTRALIA — Bruce Pascoe, de pé perto das plantações sobre as quais têm escrito há anos, discutiu os planos de ação do dia com um grupo de empregados. Alguém checaria a plantação de inhame. Outros fariam reparos no estábulo ou na casa de hóspedes. Muitos dos empregados são membros do grupo aborígene Yuin que considera sua essa região há milhares de anos. Pascoe, que se descreve como um “nativo da Cornualha” e “solidamente aborígene”, diz que o objetivo é a inclusão.

A fazenda que possui numa colina remota a uma distância de dias de Sidney e Melbourne tem por finalidade corrigir a colonização – assegurar que um boom observado no caso de alimentos nativos, causado em parte pelo seu livro Dark Emu não se torne mais um exemplo de expropriação. “Fiquei preocupado de que, embora as ideias fossem aceitas, a inclusão do povo aborígene no setor não eram. Porque é isto o que a Austrália tem achado difícil, incluir o povo aborígene em alguma coisa”.

As lições que Pascoe, de 72 anos, quer transmitir, trazendo seus próprios ensaios à vida e às mesas de jantar – vão além da expropriação. Ele afirma que o passado indígena deve ser um guia para o futuro, e a popularidade do seu trabalho nos últimos anos aponta para uma fome pelo alternativo que ele descreve assim: uma civilização onde a terra e o mar são mantidos saudáveis através da cooperação, onde os recursos são partilhados com os vizinhos, onde a amabilidade se estende para aqueles que buscam a conquista”.

“O que sucedeu na Austrália foi um apogeu real do desenvolvimento humano. Precisamos retornar a isto”. Escrever, ele acrescentou, pode contribuir muito. E, em Dark Emu, ele expõe seus argumentos. Publicado em 2014 e republicado quatro anos depois, o livro desencadeou uma reavaliação nacional da história australiana ao afirmar que os primeiros povos do continente eram fazendeiros sofisticados e não nômades itinerantes.

O sistema educacional da Austrália sempre foi propenso a enfatizar a luta e a coragem dos colonizadores. Dark Emu muda essa visão, apontando para cidades pacíficas e terras bem cuidadas devastadas pela agressão europeia e o uso da terra para pastagem de gado. Numa nação de 25 milhões de pessoas, o livrou vendeu mais de 260 mil exemplares.

Críticos, incluindo Andrew Bolt, comentarista conservador do grupo de mídia News Corporation Australia, acusam Pascoe de querer chamar atenção e enriquecer fazendo afirmações falsas de que é aborígene e, ao mesmo tempo, vender a ideia do que chamam de “fantasia antiocidental”.

Questionado por e-mail porque razão tem atacado Pascoe em dezenas de artigos no jornal desde novembro, Bolt respondeu: “por se divertir em falar para os brancos e se congratular por ser de mente tão aberta como acreditar que ele é negro”. Para alguns leitores aborígenes, Pascoe é por demais eurocentrista, com sua ênfase na agricultura sedentária.

“É ofensivo o fato de Pascoe tentar equiparar nossa cultura à cultura europeia, ignorando nosso próprio estilo de vida único e complexo”, escreveu Jacinta Nampijinpa Price, política do Território do Norte que se identifica como Walpiri/Celta, no ano passado no Facebook. Para outros, Pascoe abre uma porta para o respeito mútuo.

“Ele faz tão belas descrições que você quase enxerga”, disse Penny Smallacombe, que está produzindo uma versão em documentário do livro, “que acompanha Bruce em sua jornada”. O livro Dark Emu foi acompanhado de mais de duas dezenas de livros – de ficção, poesia, histórias infantis e ensaios.

Pascoe diz ter um pressentimento de que seria algo revolucionário, menos por causa do seu talento e mais porque a Austrália, como ele, vem encarando o legado do passado. Em 2008, um ano depois da publicação do seu livro sobre massacres coloniais no país, Convincing Ground, o primeiro ministro Kevin Rudd pediu desculpas ao povo indígena em nome do governo.

Meses antes do lançamento de Dark Emu, toda a Austrália estava discutindo se Adam Goodes, estrela aborígene do time australiano de futebol que joga para o Sidney Swans, agiu certo ao condenar uma garota de 13 anos que o chamou de macaco. “Havia um sentimento no país de que havia uma história inacabada”, disse Pascoe.

Referindo-se aos protestos nos Estados Unidos e em outros lugares contra o racismo e a polícia, ele diz que grande parte do mundo ainda vem tentando desmantelar uma ideologia que insiste que os homens cristãos brancos têm domínio sobre tudo. O passado contribui para ressaltar que “a maneira como os europeus pensam não é a única maneira de pensar”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
Austrália [Oceânia]gastronomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.