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Austrália: um teste 'inflamável' no combate a incêndios

Sobreposição das estações esgota recursos usados no combate a queimadas, que são cada vez mais longas e fortes

Damien Cave, The New York Times

30 de novembro de 2019 | 06h00

SYDNEY, AUSTRÁLIA — Era mais simples compartilhar os imensos aviões-tanque que combatem incêndios com cargas de 19 mil litros d’água por viagem. As queimadas na Califórnia chegavam ao fim antes da temporada de incêndios na Austrália, havendo assim tempo para os preparativos, transporte e mobilização dos aviões de um continente ao outro. Mas a mudança climática está subvertendo esse sistema. As temporadas de incêndios são cada vez mais longas, fortes e quentes – e mergulharam Sydney na fumaça bem cedo, dias depois das últimas chamas na Califórnia.

E o desgaste é global. Países que conseguiam conter o fogo sem ajuda adicional, como Chile, Bolívia e Chipre, começaram a disputar aviões e helicópteros entre si conforme seus incêndios se intensificam. Isso está exigindo o máximo das empresas que fornecem as maiores aeronaves de combate ao fogo de todo o mundo, e aumentando a ansiedade dos bombeiros por toda parte.

“Todos sentem o peso", disse Richard Alder, gerente-geral do Centro Nacional de Combate Aéreo a Incêndios da Austrália. “Conforme a temporada de incêndios fica mais intensa e longa, — a ciência não deixa dúvidas que é essa a tendência — aumenta também a demanda por aeronaves para ajudar no combate ao fogo. E essa é apenas uma parte da equação.”

De acordo com os cientistas, a era do fogo chegou, e o sistema criado para contê-lo já está sendo levado ao limite. Ainda que o trabalho dos bombeiros seja feito principalmente no chão, moradores assustados cada vez mais pedem um caro apoio aéreo. A União Europeia criou esse ano um fundo reserva para aeronaves de combate ao fogo, prevendo contratos de mobilização no espaço aéreo de diferentes países vizinhos.

A Bolívia alugou o único bombardeiro d’água Boeing 747 do mundo para conter incêndios na Amazônia em agosto. O avião esteve em Israel em 2016, no Chile em 2017 e na Califórnia em 2018. A Coreia do Sul está procurando empresas como a 10 Tanker Air Carrier, do Novo México, enquanto a Indonésia emprestou da Austrália um avião-tanque alguns anos atrás que veio da Coulson Aviation, do Canadá, que está agora dobrando o tamanho de sua frota profissional.

São empresas que fazem planos para um mundo que arderá o ano inteiro. “Virá de todos os lados", afirmou John E. Gould, diretor da 10 Tanker. “Os incêndios estão afetando climas e lugares que não costumavam afetar.”

Isso obrigou o trabalho dos bombeiros “a se tornar um esforço global, e não mais uma iniciativa estadual ou nacional", disse Stuart Ellis, diretor executivo do Conselho de Autoridades para Incêndios e Serviços de Emergência da Australásia, que cuida do planejamento contra incêndios na Austrália, Nova Zelândia e Pacífico. “Não é apenas uma questão de combate ao fogo. Precisamos ser mais consequentes nas nossas decisões de planejamento. Precisamos examinar a construção em áreas de risco de incêndio, mas, conforme a mata se torna mais vulnerável, será que isso é viável?”

Mudança climática

Na Austrália, o governo conservador rejeita o debate da mudança climática e seu impacto. Mas o país está se tornando rapidamente um inflamável teste para a crescente pressão. A Austrália é árida e vasta, com grandes cidades que se espalham na direção da mata. O aquecimento global já trouxe uma mudança acentuada na precipitação, causando prolongada seca. As áreas áridas são agora maiores, com florestas se convertendo em caixas de lenhas à espera de uma fagulha.

Nas semanas mais recentes, mais de mil bombeiros combateram mais de 120 incêndios em quatro estados australianos. Em algumas áreas, nenhuma chuva é esperada até janeiro, ainda que a chuva tenha ajudados os bombeiros em partes de Nova Gales do Sul.

As autoridades que coordenam os bombeiros dizem que são obrigadas a contemplar pela primeira vez uma realidade de demandas sobrepostas e mais intensas.

Incêndios

Aeronaves e equipes no solo pouco podem fazer contra as labaredas espalhadas rapidamente pelos poderosos ventos. O Incêndio de Tubbs, que destruiu partes de Santa Rosa, na Califórnia, em 2017, saltou sobre uma via expressa de oito pistas. Os ventos que alimentaram o Incêndio de Camp que arrasou a cidade de Paradise, na Califórnia, no ano passado obrigaram os bombardeiros d’água a disparar sua carga de uma grande altitude.

O custo das aeronaves e da gestão contra incêndios está aumentando. O Chile, que ampliou seu contrato com a Coulson esse ano, gastou entre 2014 e 2018 mais de três vezes mais do que nos cinco anos anteriores. 

O Serviço Florestal dos Estados Unidos gastou mais de US$ 1 bilhão na supressão do fogo em 13 dos 18 anos entre 2000 e 2017. O custo ultrapassou a marca de US$ 2 bilhões pela primeira vez em 2017 e 2018, quando as temporadas de incêndios na Califórnia foram particularmente severas.

Na Austrália, como a responsabilidade reside principalmente com os estados individuais, os bombeiros estão preocupados com a capacidade do sistema de lidar com o que vem por aí. Dos 300 mil funcionários dos serviços de emergência e bombeiros da Austrália, cerca de 85% são voluntários que tendem a atuar na região onde moram. As aeronaves que despejam materiais de combate ao fogo são vistas como as armas mais vitais para o que as autoridades chamam de “capacidade escalonável", a possibilidade de mobilizar novos recursos quando o fogo foge ao controle.

Orçamento

Dois anos atrás, o Centro Nacional de Combate Aéreo a Incêndios, que coordena o apoio aéreo para todos os estados e territórios da Austrália, enviou ao parlamento uma proposta pedindo um aumento de mais de 70% no orçamento federal destinado a esse fim, chegando a 26 milhões de dólares australianos (US$ 17,7 milhões). O pedido foi ignorado. 

Haverá na Austrália sete grandes aviões-tanque nessa temporada de incêndios; um DC-10 pertencente à 10 Tanker chegou a Nova Gales do Sul depois de combater incêndios recentes na Califórnia. O estado também comprou recentemente um 737 Fireliner com capacidade para 15 mil litros de líquido.

Mas comprar ou alugar um avião-tanque não é tão simples quanto encomendar mangueiras. Os aviões modificados costumam ter décadas de serviço. Podem ser necessários anos para convertê-los em armas no combate ao fogo, e as autoridades estão ansiosas para saber se o mercado será capaz de atender à demanda.

Todos os 18 grandes aviões-tanque que o Serviço Florestal dos EUA planeja usar até 2022 serão fornecidos por empresas privadas, de acordo com a estratégia da agência.

Quanto mais os incêndios na Califórnia avançarem pelo outono, pior será para a Austrália e o restante do mundo quando chegar a hora de compartilhar. “Acho que todos estão ficando mais nervosos com a situação", compartilhou Alder, que combate incêndios na Austrália há décadas. “É uma questão que estamos observando atentamente.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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