Adam Ferguson / The New York Times
Adam Ferguson / The New York Times

No interior da Austrália, uma vida devastada pela seca

'Nunca pensei que me encontraria nestas condições, tendo de lutar pela água para as necessidades humanas básicas na Austrália', lamenta um morador

Livia Albeck-ripka, The New York Times

02 de janeiro de 2020 | 06h00

EUCHAREENA, AUSTRÁLIA – Fleur Magick Dennis parou de tomar banho todos os dias, deixou a horta morrer e disse aos quatro filhos que não se preocupassem com a louça suja empilhada na pia. Às vezes, toda a família só tem água mineral, e precisa economizar cada gota. Um ano e meio atrás, o reservatório de sua cidade, Euchareena, secou, deixando sua família e alguns outros moradores sem água corrente. “Nunca pensei que me encontraria nestas condições, tendo de lutar pela água para as necessidades humanas básicas na Austrália”, lamentou Fleur Magick Dennis.

A seca destruidora e a má administração deixaram mais de dez cidades e aldeias sem uma fonte confiável de água, e o país se defronta com uma questão que atinge sua própria identidade: a vida no imenso interior australiano será compatível com a era da mudança climática?

No interior – uma paisagem fundamental para a tradição australiana, muito distante das metrópoles da costa – rios e lagos estão desaparecendo, aumentando os temores de que, com o tempo, grandes partes do território rural, tenham de ser abandonadas.

Cerca de 25% da humanidade vive em países que utilizam quase toda a água de que dispõem, segundo dados divulgados pelo Instituto dos Recursos Mundiais em agosto. A escassez assola lugares como a Califórnia e Cape Town, na África do Sul, que no ano passado, escapou por pouco de ficar sem água. “As pessoas acham que a mudança climática é uma perspectiva a longo prazo, mas, na realidade, está aqui, neste exato momento”, afirmou Joelle Gegis, lente sênior de ciência do clima na Universidade Nacional Australiana em Camberra.

“É possível que partes da Austrália se tornem inabitáveis”. Enquanto a temporada dos incêndios florestais acaba de ser deflagrada em fúria, cidades como Euchareena temem não ter condições de deter o fogo. “Nós nos encontramos sobre um verdadeiro barril de pólvora, prestes a explodir”, disse Fleur.

No alto do morro, há um tanque de 75 mil litros, o único recurso de que os moradores dispõem para combater um incêndio. “Não há como acreditar que irá chover logo e as coisas melhorarão”, acrescentou. “O ecossistema está realmente danificado."

Na Austrália rural, os danos muitas vezes são uma decorrência de uma complexa combinação de má administração, seca e mudança climática. O governo conservador australiano aprovou projetos de mineração que exigem uso intensivo de água e fez acordos com o agrobusiness frequentemente acusado de degradar os recursos hídricos do país.

O clima seco e variável está se tornando ainda mais seco e mais imprevisível. Algumas regiões do país estão registrando uma redução da precipitação atmosférica, e as inundações que costumavam encher os rios, os lagos e as barragens estão diminuindo, afirmam os cientistas. Enquanto isso, a população está crescendo, aumentando a demanda de água.

Em toda a região de New South Wales, o estado que a seca começou em 2017 afetou mais do que qualquer outro, provocando o abandono de trechos de terra de quilômetros de extensão. Os ocasionais pastos verdejantes são um sinal de que um fazendeiro luta contra os elementos, e dispõe de recursos suficientes para irrigar.

“Se a seca continuar por mais quatro anos, será o fim do mundo para a Austrália”, projetou James Hamilton, que tem uma fazenda a cerca de 430 quilômetros de Sydney, no interior. Ele não plantou nada este ano e pretende vender o gado restante.

O reservatório que está na propriedade de 2.400 hectares de Hamilton está vazio, e a terra, seca. Os fazendeiros estão acostumados a situações difíceis, mas Hamilton teme que será muito difícil uma retomada dos negócios depois da seca nas pequenas cidades, considerando os seus efeitos econômicos em cascata. “Nada é sustentável sem água”, ensinou.

No início de novembro, finalmente choveu em partes do New South Wales, proporcionando algum alívio e esperança às pessoas que se divertiam nas poças. Mas a seca está longe de ter acabado, e a possibilidade de a Austrália conseguir adaptar-se permanece uma incógnita. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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