Cabinet Turquin, via The New York Times
Cabinet Turquin, via The New York Times

Autenticidade de obra de Caravaggio divide especialistas

O quadro 'Judite e Holofernes', que vai a leilão em junho, seria a segunda versão do pintor para uma passagem do Velho Testamento

Scott Reyburn, The New York Times

15 de março de 2019 | 06h00

LONDRES - Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio (1571-1610), é o mais famoso pintor italiano do período barroco, e o mercado da arte está sempre buscando obras perdidas. Mas novas obras atribuídas recentemente a ele provocaram debates ferrenhos.

No dia 28 de fevereiro, o comerciante de arte Eric Turquin revelou uma tela do século 17, "Judite e Holofernes", em excelente estado de conservação, encontrada no sótão de uma casa de Toulouse, França, pelo leiloeiro Marc Labarbe em 2014. Turquin tinha passado os cinco anos anteriores pesquisando esse quadro sem assinatura. Convenceu-se de que se trata de um Caravaggio.

"Repare na execução dos lábios, a forma de pintar o queixo e as pálpebras", disse Turquin, apontando para o rosto de Judite, desafiando nosso olhar com seu enquanto decapita Holofernes com a própria espada.

O quadro será leiloado por Labarbe, em parceria com Turquin, em Toulouse no dia 27 de junho. O valor estimado antes da venda varia entre € 100 milhões e € 150 milhões, o equivalente a cerca de US$ 115 milhões e US$ 170 milhões.

De acordo com Turquin, o quadro é a segunda versão pintada por Caravaggio desta sangrenta passagem do Velho Testamento, mostrando uma linda viúva judia salvando sua cidade, sitiada, ao seduzir um general assírio e em seguida matá-los em sua barraca. A primeira versão foi pintada em Roma mais ou menos em 1600, e fica atualmente na Galleria Nazionale d’Arte Antica, na própria cidade. A segunda versão, na qual Judite usa o vestido negro de uma viúva, com a antiga criada à sua direita, parece ter sido pintada mais ou menos em 1607, em Nápoles.

Sabia-se da existência da segunda versão de "Judite e Holofernes" por causa de uma cópia atribuída ao pintor Franco-Flamenco Louis Finson, admirador contemporâneo de Caravaggio, e que teria sido dono do original perdido. A cópia está atualmente no acervo do banco Intesa Sanpaolo, em Nápoles.

Em novembro de 2016, o museu da Pinacoteca di Brera, em Milão, exibiu o "Judite e Holofernes" do banco ao lado da versão encontrada no sótão de Toulouse. Quando a exposição chegou ao fim, em fevereiro, historiadores da arte e restauradores foram convidados para um dia de estudo com o intuito de avaliarem a descoberta.

Keith Christiansen, do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, disse que o quadro contém detalhes considerados por especialistas "demasiadamente grosseiros" para serem de Caravaggio. Christiansen acrescentou que a técnica é "totalmente consistente com a obra de Caravaggio", exceto pelas rugas concêntricas no rosto da antiga criada, pintadas sobre um fundo claro, diferentemente do marrom habitualmente usado pelo artista.

Gianni Papi, da Universidade de Florença, está convencido de que o quadro é de Finson. Ele disse ter reparado em vários elementos que não lhe pareciam obra da mão de Michelangelo Merisi. A cabeça da criada era um deles; outro era a cabeça de Holofernes - "carregada demais, com dentes animalescos, algo que me parece estranho para Caravaggio".

O diretor da Brera, James Bradburne, disse que a delicadeza da manga esquerda de Judite no quadro de Toulouse o lembrou de "Ceia em Emaús", do mesmo artista, exposto na sua pinacoteca. "O toque do pincel é totalmente condizente com o de Caravaggio", acrescentou ele.

Para outros, o uso de toques dourados na empunhadura da espada e as pinceladas longuíssimas na cortina também seriam indícios claros da mão de Caravaggio.

Christiansen disse que ele e vários outros especialistas concluíram que a pintura é de fato a obra perdida de Caravaggio, "mas há a possibilidade de uma intervenção de outras mãos".

Por mais fascinante que isso seja para os historiadores da arte, talvez um leiloeiro (ou um colecionador bilionário) preferisse ouvir outra coisa a respeito de um quadro avaliado em mais de € 100 milhões. O mercado exige que gênios como Caravaggio trabalhem sozinho.

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