Ana Cuba para The New York Times
Ana Cuba para The New York Times

Autora de ‘Cinquenta Tons’ marca nova fase com romance

'The Mister' conta história de amor entre aristocrata britânico e jovem fugitiva da Albânia

Alexandra Alter, The New York Times

25 de abril de 2019 | 06h00

LONDRES - E. L. James não consegue pensar em alguma coisa que ela faz por divertimento. “Preciso descobrir um hobby”, ela disse. “Escrever era o meu hobby”. Nos últimos oito anos, este hobby se transformou em uma franquia de entretenimento de um bilhão de dólares, e James, uma escritora anônima que postava fantasias lascivas online, tornou-se uma magnata da indústria erótica à frente do próprio império.

Por isso levou algum tempo para escrever uma coisa nova. Mas com The Mister, a sua primeira obra de ficção original, James, cujo nome real é Erika Mitchell, espera marcar uma nova fase em sua carreira. O seu trabalho mais recente é uma história de amor contemporânea sobre um rico aristocrata britânico que se apaixona pela faxineira, uma jovem fugitiva da Albânia.

Quando James lançou “Cinquenta tons de cinza” em 2011, esperava vender alguns exemplares e impedir que os imitadores roubassem o seu trabalho. Entretanto, sua trilogia erótica vendeu mais de 150 milhões de exemplares no mundo todo, e foi traduzida em cerca de 50 línguas. Adaptada para o cinema, faturou mais de US$ 1 bilhão em todo o mundo e contribuiu para popularizar o nicho dos fetiches sexuais.

Cinquenta Tons de Cinza começou como ficção explícita divulgada por fãs nas plataformas do ciberespaço, baseada na série Crepúsculo, de Stephanie Meyers. James publicou online, e por razões que até hoje acha desconcertantes, a obra viralizou. James se tornou uma escritora famosa por quebrar tabus sobre certas fantasias sexuais que as mulheres na maioria das vezes preferem esconder, até por vergonha. A série mudou a maneira com a qual os principais varejistas e companhias de entretenimento costumavam satisfazer o desejo feminino.

A supervisão de uma franquia multimídia deixava pouco tempo disponível para o seu antigo hobby. Além disso, ela, 56 anos, enfrentava expectativas impossíveis, criadas desde a sua estreia. Inevitavelmente, muitas leitoras se sentirão decepcionadas por alguma estória que não envolva a relação de dominação e submissão do bilionário Christian Grey e sua conquista, Anastasia Steele.

Para as fãs que esperam outra história quente, The Mister poderá desapontar. As cenas de sexo são explícitas, mas não chegam a ser transgressivas. James tinha objetivos narrativos além das estimulações. The Mister trata de temas pesados como a desigualdade econômica, a dramática situação dos trabalhadores ilegais, a opressão das mulheres nas sociedades conservadoras, e o fato de as instituições sociais e os governos exaltarem os ricos e explorarem os vulneráveis.

Estes temas são considerados relevantes na Grã-Bretanha, onde o Brexit mostra as feias divisões a respeito de raça, classe e de identidade britânica. James defende ardorosamente a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia, posição que ela divulga nas redes sociais, embora tenha plena consciência de que isto poderá afastar alguns fãs.

Não se sabe como os leitores de James reagirão a The Mister, se a devoção à autora transcenderá o seu amor por Christian Grey, e um apetite por mais livros sobre a mesma história. Ao que parece, James quase esgotou o próprio apetite por Cinquenta Tons de Cinza. Ela escreveu um romance paranormal que espera publicar, e estuda a possibilidade de dar continuação a The Mister.

“Há tantas ideias, mas todos dizem: ‘Ah, escreve mais sobre o que você fez nos últimos dez anos’”, observou. Mas as leitoras agora querem decidir a questão por conta própria, garantindo a continuação da história, com ou sem James. Escritoras amadoras escreveram e postaram dezenas de milhares de histórias baseadas em Cinquenta Tons. James diz que não leu, mas admitiu que é pertinente que as fãs assumam a iniciativa. “Parece que estes personagens agora pertencem a todo mundo. Foi uma criação das próprias fãs”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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