Cole Wilson para The New York Times
Cole Wilson para The New York Times

Autores deixam livro impresso de lado e investem no áudio

Um grupo crescente de autores de sucesso está lançando suas obras apenas para serem ouvidas

Alexandra Alter, The New York Times

17 de junho de 2018 | 10h45

Quando Michael Lewis tinha uma ideia para o seu próximo livro, uma narrativa política, costumava testá-la inicialmente como um artigo de 10 mil palavras em revista.

Mas, desta vez, ele fez algo revolucionário. Em lugar de publicar sua história na “Vanity Fair”, para a qual contribui  há quase dez anos, ele o vendeu à Audible, uma editora de audiolivros. “Você não vai poder lê-lo, só vai poder ouvi-lo”, disse Lewis. “Eu me tornei o primeiro escritor de revista da Audible”.

Lewis - um dos autores de não ficção de maior sucesso que escreve atualmente, com 10 milhões de exemplares vendidos - aposta que a Audible ampliará o seu público. No mês passado, ele assinou um contrato com a editora para quatro artigos originais em áudio, o primeiro dos quais sairá em julho. 

E ele mesmo pretende narrá-lo.

Lewis faz parte de um grupo cada vez maior de escritores que estão deixando o texto escrito para lançar audiolivros originais, esperando aproveitar da explosão deste novo mercado. Este é o sinal mais recente de que os audiolivros já não são um apêndice dos livros impressos, e se tornaram um veículo criativo por mérito próprio. Atualmente, os celulares funcionam como dispositivos para ouvir livros. As pessoas que achavam que tinham pouco tempo para ler, agora ouvem enquanto viajam, se exercitam ou fazem suas tarefas diárias.

As editoras estão preocupadas porque a Audible trata diretamente com os escritores, inclusive que mais vendem, como o historiador Robert Caro e o romancista Jeffery  Deaver.

Depois de anos de estagnação do setor, os audiolivros tornaram-se uma oportunidade de ouro para as editoras. Enquanto as vendas de livros digitais caíam e a dos livros impressos permanecia anêmica, a receita das editoras com livros em áudio praticamente triplicou nos últimos cinco anos, mostram dados do setor.

Este fenômeno criou um novo campo para os direitos de audição, em que a Audible, de propriedade da Amazon, compete agora com as editoras tradicionais que por sua vez decidiram produzir seus próprios audiolivros, e não ceder território e receitas ao varejista online.

Quem dominará  o formato de maior crescimento desta área reformulará o panorama, como os livros digitais fizeram há dez anos.

A Audible, a maior editora, com mais de 425 mil títulos, tem uma enorme vantagem em relação às concorrentes. A Amazon leva os audiolivros para a sua plataforma, incluindo-os como “gratuitos” em uma associação experimental da Audible, ao custo de US$ 15 mensais, com direito à compra de um livro por mês. (Os da Audible custam em geral de US$ 15 a US$ 40.)

A Audible corteja os autores de maneira agressiva, procurando criar obras exclusivas próprias, acenando com adiantamentos que rivalizam com a remuneração das principais editoras.

Segundo David Blum, que aderiu à Audible via Amazon em 2016, poderá ser difícil convencer autores que fizeram suas carreiras com os livros impressos a assumir o risco. “Nós tentamos derrubar as barreiras no que se refere ao conteúdo que as pessoas acham  que o livro deveria ter”, afirmou.

Lewis, autor de best-sellers como “Moneyball: O Homem que Mudou o Jogo”, “A Jogada Do Século” e “The Blind Side”, ainda lança os seus livros impressos com a W. W. Norton, mas adiantou que publicará os seus artigos jornalísticos de formato longo com a Audible, e não mais com a “Vanity Fair”. Os seus originais de áudio poderão também ser impressos, mas a Audible terá direitos exclusivos por vários meses. Ele está ansioso por experimentar o novo veículo.

“Sempre gostei do desafio de contar uma história”, afirmou. “ Uma das razões pelas quais faço isto é a possibilidade de tornar-me um escritor melhor”.

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