Victor Moriyama/The New York Times
Victor Moriyama/The New York Times

Autores negros agitam o cenário literário brasileiro

Jovens negros brasileiros estão publicando em seus próprios termos, alcançando o sucesso crítico e comercial que escapou a gerações passadas de escritores de comunidades marginalizadas

Ernesto Londoño, The New York Times - Life/Style

24 de fevereiro de 2022 | 05h00

Itamar Vieira Júnior, cujo trabalho diário para o governo brasileiro na área de reforma agrária o levou às profundezas do interior empobrecido, não sabia quase nada sobre a grande indústria editorial quando deu os retoques finais em um romance que estava escrevendo por décadas.

Por um capricho, em abril de 2018, ele enviou o manuscrito de Torto Arado para um concurso literário em Portugal, imaginando o que o júri acharia da história difícil de duas irmãs em um distrito rural do nordeste brasileiro onde o legado da escravidão permanece palpável.

“Eu queria ver se alguém via valor nele”, disse Vieira, 42 anos. “Mas eu não tinha muita esperança.”

Para sua surpresa, Torto Arado ganhou o prêmio LeYa 2018, um importante prêmio literário de língua portuguesa focado na descoberta de novas vozes. O reconhecimento deu início à carreira de Vieira, tornando-o uma voz de destaque entre os autores negros que sacudiram o establishment literário brasileiro nos últimos anos com obras imaginativas e marcantes que encontraram sucesso comercial e aclamação da crítica.

Torto Arado foi o livro mais vendido no Brasil em 2021, mais de 300.000 exemplares até o momento. No ano anterior, essa distinção foi para o Pequeno  Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, uma dissecação sucinta em uma escrita clara sobre o racismo sistêmico no Brasil.

Vieira e Ribeiro, 41, fazem parte de uma geração de negros brasileiros que se tornaram os primeiros de suas famílias a obter um diploma universitário, aproveitando os programas lançados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que governou o Brasil de 2003 a 2010.

Os dois estão entre as figuras mais importantes de um boom literário que inclui escritores contemporâneos e autores que estão experimentando postumamente a aclamação que lhes escapou quando seus trabalhos seminais foram publicados inicialmente.

“Escritores de comunidades marginalizadas vêm produzindo trabalhos importantes há décadas”, disse Fernanda Rodrigues de Miranda, professora de literatura em São Paulo, “mas tiveram problemas para obter visibilidade”.

Para sua tese de doutorado, Rodrigues, que é negra, compilou todos os romances publicados que encontrou escritos por mulheres negras de 1859 a 2006.

Ela ficou impressionada com a qualidade literária dos romances que acumulavam poeira nas gavetas, nunca tendo sido amplamente lidos ou discutidos. E ela concluiu que os poucos autores que encontraram sucesso comercial e crítico foram criativamente circunscritos por vigias literários brancos.

O exemplo mais contundente é Carolina Maria de Jesus, cujo livro de memórias, Quarto de Despejo, foi uma sensação literária quando foi publicado em 1960. O livro, uma compilação de anotações do diário de Jesus, mãe solteira de três filhos, oferece um relato do cotidiano de uma favela paulistana onde os moradores catavam lixo em busca de comida e dormiam em barracos remendados com pedaços de papelão.

O sucesso do livro permitiu a Jesus – que morreu em 1977 – comprar uma casa em um bairro melhor. Mas os editores mostraram pouco interesse em seus trabalhos subsequentes, que foram fracassos comerciais.

“Os leitores brancos tinham muita curiosidade sobre a vida dos negros, mas queriam ler histórias sobre fragilidade”, disse Rodrigues. “Os autores queriam escrever sobre outras questões, outras facetas de sua identidade. Eles estavam interessados em escrever sobre amor, sobre humor, sobre a busca de uma vida significativa e gratificante”, ela disse.

Uma oportunidade de mostrar novos talentos literários surgiu em 2012 com a criação de um festival literário no Rio de Janeiro iniciado como parte de um esforço malfadado para restaurar a segurança nas favelas – comunidades pobres da classe trabalhadora frequentemente controladas por grupos de narcotraficantes.

Embora os esforços para melhorar a segurança tenham falhado em grande parte, o festival literário prosperou e perdura até hoje, disse Julio Ludemir, um de seus fundadores.

“Mostrou que há leitores morando em favelas, o que até então era considerado impossível”, disse. “Mas também mostrou que havia escritores.”

O festival deu o pontapé inicial na carreira de vários autores, incluindo Geovani Martins, 30, que participou de uma oficina de escrita no festival enquanto morava no Vidigal, uma favela que fica na encosta de uma montanha pairando sobre alguns dos bairros mais caros do Rio de Janeiro.

Sua estreia – O Sol na Cabeça, uma coletânea de contos publicada em 2018 – se tornou um best-seller no Brasil e foi traduzida para vários idiomas. Seus contos de angústia adolescente, repletos de gírias, geralmente ocorrem em comunidades onde a vida dos jovens é cercada pelo racismo e pela violência alimentada pelo tráfico de drogas.

Apesar do sucesso de Martins, até recentemente os autores negros tinham dificuldade em negociar com as principais editoras brasileiras, disse Ribeiro. Ela e um punhado de colegas intelectuais quiseram mudar a forma como a indústria abordava esses jovens escritores, organizando uma série de livros em 2017 dedicados a autores negros.

Eles publicaram títulos baratos, com preço inferior a US$ 4, e realizaram eventos literários em locais públicos ao ar livre, que atraíram grandes multidões. As capas incluíam uma foto dos autores e a escrita tendia a ser acessível.

Ribeiro, que estudou filosofia, disse que, quando escrevia e comercializava livros, pensava na mãe, que, assim como a avó, trabalhava como empregada doméstica e não tinha formação superior.

“Sempre quero escrever de uma maneira que minha mãe entenda”, ela disse. “Senti um chamado para ser generosa o suficiente para escrever da mesma forma acessível que autores generosos antes de mim escreveram, porque senão você só legitima as esferas de poder daqueles que são privilegiados.”

A fórmula funcionou excepcionalmente bem. Uma das principais editoras do Brasil se aproximou de Ribeiro em 2018 para escrever um livro sobre o feminismo negro, que se tornou um grande sucesso.

“Queríamos democratizar a leitura e foi um grande sucesso”, disse Ribeiro. “Havia uma demanda não atendida de uma parte da população que queria se ver representada.”

Vieira, que é geólogo, conseguiu usar seu trabalho diário na agência de reforma agrária do Brasil, onde trabalha desde 2006, para fazer pesquisas de campo. Ele estudou a política e as dinâmicas de poder que moldam a vida dos trabalhadores rurais, incluindo alguns que trabalham em condições análogas a uma escravidão moderna.

Essa experiência, ele disse, tornou os personagens de seu romance com mais camadas e sua cidade natal fictícia, Água Negra, parece autêntica.

“Os leitores me dizem que se veem refletidos na história”, ele disse, “que é, em muitos aspectos, uma história sobre como nossa sociedade veio a ser”.

Vieira diz que uma das principais razões pelas quais os escritores negros brasileiros estão deixando sua marca, escrevendo e publicando em seus próprios termos, é por causa de uma mudança na forma como raça e racismo estão sendo discutidos no país hoje.

“Por muitos anos, o Brasil tentou embranquecer sua população, e as pessoas evitavam falar sobre raça no Brasil”, ele disse. “Nas últimas décadas, o movimento dos direitos negros e o estudo do racismo estrutural esclareceram nosso papel na sociedade.”

Muitos escritores negros ainda estão lutando para descobrir como se encaixam nela. Pieta Poeta, 27 anos, um homem transgênero negro de Belo Horizonte, chamou a atenção ao vencer um festival nacional de slam em 2018.

Mas ele teve que autopublicar seus livros de poesia, incluindo o mais recente: Você ainda quer gritar comigo? — uma exortação, ele disse, para que os leitores imaginem como é ser uma pessoa negra transgênero no Brasil de hoje.

Ele disse que seu trabalho ficou mais sombrio nos últimos anos - e ele escreve sob um pseudônimo - refletindo a turbulência política e a agitação social que abalaram o Brasil desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, um presidente de direita conhecido por suas mensagens desagregadoras e, muitas vezes, ofensivas.

“Ser brasileiro significa estar constantemente paralisado pelo medo ou ter que reclamar constantemente”, ele disse. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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