Celia Talbot Tobin para The New York Times
Celia Talbot Tobin para The New York Times

Cientistas buscam no DNA do avocado a resposta para uma variedade mais resistente

Pesquisa pretende desenvolver uma fruta mais dura que pode suportar calor, fungos ou seca

David Yaffe-Bellany, The New York Times

08 de outubro de 2019 | 06h00

Enquanto a mudança climática ameaça o lugar do avocado na mesa, alguns cientistas agora se perguntam: Por que não editar seu DNA?

Em agosto, uma equipe de cientistas dos Estados Unidos e do México anunciou ter mapeado as sequências de DNA de diversos tipos de avocado, incluindo a popular variedade Hass. Esta pesquisa provavelmente se tornará a base para técnicas de reprodução destinadas a produzir avocados resistentes a doenças ou capazes de sobreviver em condições mais secas.

“Por causa da mudança climática, a temperatura talvez não seja a mesma, a umidade não seja a mesma, o solo talvez seja diferente, novos insetos chegarão e doenças virão”, disse Luis Herrera-Estrella, professor de genômica das plantas na Texas Tech University, que chefiou o projeto do avocado. “Precisamos estar preparados para encarar todos estes inevitáveis desafios”.

A história do avocado data da Mesoamérica. Milhares de anos mais tarde, o avocado não mudou muito, pelo menos ainda não. Nos últimos anos, cientistas sequenciaram os genomas de várias frutas, como bananas, tomates e maçãs, e usaram esta informação para criar geneticamente variedades modificadas. Mas um avocado geneticamente modificado não aparecerá tão cedo, em parte porque a árvore do avocado leva pelo menos três anos para se tornar adulta.

As ameaças à cultura do avocado estão se tornando cada vez mais urgentes enquanto a mudança climática se intensifica. Uma onda de calor na Califórnia, no ano passado, prejudicou o desenvolvimento da safra de avocados deste verão, obrigando os fornecedores a importar a fruta do exterior. Com isto, o preço no atacado de uma caixa de quatro dúzias de avocados mais que dobrou, indo de US$ 35 para algo entre US$ 70 e US$ 80.

Estas ondas de calor se tornarão mais comuns, preveem os especialistas. “Há avocados que crescem em lugares muito quentes com pouca água, e há avocados que crescem mais em lugares chuvosos”, segundo o dr. Herrera-Estrella. “ Se pudermos identificar os genes que conferem tolerância ao calor e tolerância à seca, poderemos modificar os avocados para o futuro”.

No entanto, a pesquisa genética provavelmente será motivo de controvérsia. Embora 90% dos cientistas considerem os organismos geneticamente modificados, GMO, seguros para a alimentação, muitos grupos de defesa do ambiente se opõem às alterações genéticas. Eles afirmam que a prática provocou um aumento do uso dos pesticidas e de modificações indesejadas no teor nutricional. Ao contrário das culturas como milho ou mais, o avocado tem uma estrutura complexa que faz com que dificilmente cresça em laboratório. Para coletar amostras das diferentes variedades, o dr. Herrera-Estella e a sua equipe tiveram de viajar para regiões remotas do México.

Analisar o material genético destas amostras foi como colar um documento que tivesse passado por uma fragmentadora, disse o dr. Herrera-Estrella. Os cientistas extraíram fragmentos do genoma de várias amostras de avocados e montaram estas partes disparatadas em um todo coerente.

Depois que o projeto começou, os avanços em biotecnologia permitiram que a equipe ampliasse as suas ambições e sequenciasse variedades de outros avocados. Um grupo de pesquisadores no México atualmente está mapeando os genomas de cerca de outros cem.

Com estes mapas genéticos, os cientistas poderão analisar as diferenças entre vários tipos de avocados e identificar determinados segmentos do DNA que promove a resistência à doença ou outras características desejáveis. Este trabalho servirá para iniciar a edição de genes, em que os pesquisadores introduzem novos pedaços de DNA no genoma de uma planta, ou deletam as antigas. E facilitará as técnicas de reprodução que promovem algumas características sem alterar diretamente o código genético da fruta.

Outra maneira de aumentar as chances de sobrevivência do avocado seria alterando o seu porta-enxerto - que é essencialmente um toco de árvore no qual os produtores podem enxertar novos tipos de galhos de avocados. As modificações genéticas do porá-enxerto, em lugar dos galhos mais altos da árvore que gera o fruto, poderiam tornar os avocados mais resistentes às doenças sem alterar a fruta em si.

Qualquer que seja a técnica científica, o desenvolvimento de cepas de avocado capazes de resistir às doenças ou sobreviver a secas prolongadas poderia levantar este setor da agricultura mexicana, que produz cerca da metade dos avocados do mundo e depende em grande parte da sua exportação para os Estados Unidos, segundo a consultora agrícola Monica Ganley. No ano passado, o México exportou cerca de 907 mil toneladas de avocados para os EUA.

Entretanto, a modificação genética dificilmente será a resposta para todos os problemas desta área. O comércio internacional influi na cadeia de suprimento do avocado, o que significa que a disponibilidade da fruta frequentemente tem muito a ver com a política e com a mudança climática. E também pode depender  dos cartéis da droga, cuja violência às vezes prejudica a produção da fruta.

“A ciência é muito boa e muito poderosa”, afirmou o dr. Herrera-Estrella. “Mas não faz milagres.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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