Travis Dove para The New York Times
Travis Dove para The New York Times
Ben Sisario, The New York Times

26 de novembro de 2019 | 06h00

Quando o canhão disparou uma carga de confetes, as crianças gritaram extasiadas, sem desgrudar os olhos fixos dos super-astros no palco. Dez atores fantasiados representavam a cena do clímax de Baby Shark Live! - uma adaptação de 75 minutos de duração de um vídeo musical de dois, um caso impressionante de transplante da popularidade viral em uma franquia lucrativa na vida real.

A estreia mundial foi em outubro no Spartanburg Memorial Auditorium, na Carolina do Sul, e o público estava claramente dividido entre crianças e adultos. Siauna Yeargin, da vizinha Greenville, assistia ao espetáculo com a filha Mireya. “Quando eu lavo o seu cabelo, ela quer que eu cante Baby Shark” contou Siauna. “Fizemos a festa do seu primeiro aniversário: Baby Shark. A segunda festa de aniversário foi de novo Baby Shark.”

Quatro anos depois do lançamento da música por uma empresa de mídia da Coreia do Sul, a SmartStudy, Baby Shark completava provavelmente a conquista do mundo. Com apenas 18 palavras na letra - uma história repleta de energia de uma família de tubarões que vai à caça - foi vista em streaming no YouTube 3,9 bilhões de vezes.

Entretanto a SmartStudy inicialmente não parecia preparada para explorar o o seu sucesso, e ainda tenta  criar uma empresa ao seu redor, com o objetivo de transformar o seu sorridente predador dos oceanos em uma marca para crianças, na mesma escala de Elmo (o boneco de Vila Sésamo).

A companhia fez alguns acordos de licença com a Kellogg’s (para edições limitadas de caixas do cereal Berry-Fin-Tastic) e fabricantes de lenções, brinquedos, roupas e fantasias para Halloween. Entre os planos estão também um programa de televisão e um filme de longa metragem. O teste mais recente da viabilidade comercial do domínio é Baby Shark Live!. Se as vendas de ingressos forem altas, deverá permanecer em cartaz pelo menos três anos.

O esforço da SmartStudy para criar negócios auxiliares pode ser sua única maneira de obter grandes lucros com o seu sucesso, considerando as taxas normais de royalties pagas pelo YouTube. E por causa das profundas origens culturais da canção, uma espécie de karaokê que existe há décadas, o material é considerado de domínio público, e, portanto, a companhia não teria um domínio absoluto sobre os direitos de uso.

Há cinco meses, quando o estúdio coreano procurou uma parceria americana para montar um programa itinerante, fez um acordo com Stephen Shaw e Jonathan Linden, dois veteranos da área de shows que aprenderam o ofício trabalhando com gigantes do rock como os Rolling Stones. A companhia de Shaw e Linden, a Round Room, se especializou em produção de entretenimento para o público infantil, uma fatia do negócio itinerante dominada há muito tempo por adaptações de franquias de TV.

Quando eles entraram no setor, há cerca de dez anos, o seu calendário de excursões estava repleto de buracos vazios. “Naquela época, os programas para crianças e a família eram um setor um tanto parado”, disse Liden. A estratégia dos dois é trazer um pouco do brilho da high-tech dos espetáculos rock exibidos em estádios para a um público que está na pré-escola.

Em Baby Shark Live!, há um pano de fundo com displays de LED que muda continuamente o cenário e a animação, recriando o ambiente subaquático do vídeo. Para prender a atenção de espectadores tão jovens, a Round Room criou Baby Shark Live! como um espetáculo simples que se movimenta rapidamente - uma versão para criancinhas de um musical do tipo karaokê.

O show em dois atos se inspirou no catálogo da raposinha Pinkfong, uma marca da SmartStudy para pré-escola, que inclui clássicos do jardim da infância como The Wheels on the Bus, Down in the Jungle e Bingo. O roteiro foi criado para se parecer com um show de música pop, em que o elenco apresenta um crescendo de números de danças atléticas, um após o outro.

Manter um espetáculo excursionando é caro, mas uma estratégia inteligente pode reduzir os gastos. Para maximizar as vendas de ingressos, disse Shaw, eles estudam acrescentar um segundo elenco e uma segunda equipe técnica que permitiria versões múltiplas de Baby Shark Live! viajando pelo mundo ao mesmo tempo - a vantagem em geral mais associada às produções itinerantes dos espetáculos da Broadway.

Há somente um Mick Jagger, mas não importa muito que ser humano veste a fantasia de Baby Shark a cada noite. “Baby Shark não está preparando um livro para o próximo semestre”, disse Linden. “E nem está fazendo uma cirurgia do coração”, acrescentou Shaw. Eles admitem que não há nenhuma garantia de que o apelo de Baby Shark possa durar. Mas o comparam aos riscos que enfrentaram quando trabalhavam com o rock: em quase todas as excursões (salvo talvez o U2 ou os Stones), eles sempre arriscavam com uma nova banda, uma nova tendência da cultura pop.

Linden observou que depois da assinatura do contrato com a SmartStudy para produzir Baby Shark Live!, eles se depararam com certa incredulidade no negócio. “Alguns amigos disseram: ‘Vocês estão criando um show em cima de uma canção?’” disse Linden. “Mais tarde, eles ligaram de volta, interessados nos ingressos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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