James Hill/The New York Times
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Como o badminton faz parte da identidade nacional da Indonésia

Este é o único esporte em que o país conquistou medalha de ouro olímpica; indonésios esperavam ganhar mais na edição de Tóquio

James Hill, The New York Times - Life/Style

15 de setembro de 2020 | 05h00

JACARTA, INDONÉSIA - Raja Sapta Oktohari, o jovem e musculoso presidente do Comitê Olímpico da Indonésia, não estava conseguindo esconder o entusiasmo. O badminton, explicou ele numa entrevista no início deste ano, é mais do que um passatempo casual em seu país.

Faz parte do tecido social da Indonésia, um jogo disputado por famílias em quintais e espaços públicos apertados, por lojistas à espera de clientes. “Quando você pensa em Badminton, pensa em Indonésia”, declarou Oktohari. “Este é o tamanho da importância do esporte aqui”. Então, quando a Olimpíada de Tóquio foi adiada no início deste ano, por causa da pandemia de coronavírus, foi um golpe para a cultura esportiva da Indonésia.

O badminton é o único esporte em que a Indonésia conquistou medalhas de ouro olímpicas, feito que seus jogadores alcançaram sete vezes. É, num ano olímpico, o único esporte que importa no país. Desde fevereiro, quando o Times visitou o país para documentar o lugar do badminton na vida indonésia, o coronavírus pôs à prova esse compromisso, mas não o diminuiu nem um pouco. Lentamente, mas com segurança, o jogo e seus jogadores estão emergindo do lockdown.

Durante meses, centros de treinamento e quadras em Jacarta estiveram fechados, mas qualquer flexibilização das regras reviverá rotinas familiares, mesmo que as instruções de treinamento tenham de vir por trás de máscaras e protetores faciais. Os jogos olimpícos, remarcados para o próximo ano, nunca estão longe da mente dos jogadores.

A seleção nacional realizou recentemente um torneio interno “para que os jogadores não se sentissem entediados e pudessem medir os resultados dos programas de treinamento” durante o lockdown, disse um dirigente. Treinadores e jogadores esperam que os clubes de Jacarta também retomem as atividades em breve, tirando o esporte – e seu futuro – da hibernação temporária. É nos bairros e academias menores que o esporte vem sendo nutrido há décadas por mentores como Christian Hadinata, de 70 anos, ex-campeão mundial.

Em tempos normais, você podia encontrar Hadinata todos os dias da semana, às 6 da manhã, nas quadras do Djarum Badminton Club de Jacarta, esperando seus alunos chegarem. Tio Chris, como Hadinata é conhecido pelos jogadores mais jovens, vê suas contribuições como o pagamento de uma dívida para com o esporte e o país, transmitindo o aprendizado de sua vida. É uma obrigação que Hadinata diz sentir desde a Olimpíada de Munique em 1972, quando o badminton foi apresentado pela primeira vez, ainda como um esporte de demonstração.

Ele venceu as duplas masculinas naquele verão, mas foi uma vitória sem medalha e nem hino, disse ele, uma vitória rapidamente “ofuscada pela tragédia causada pelo Setembro Negro”. Duas décadas depois, quando o badminton foi introduzido como esporte oficial nos Jogos de Barcelona, a Indonésia ganhou cinco medalhas. Susi Susanti, hoje diretora de performance da seleção nacional, tornou-se a primeira jogadora a conquistar o ouro pela Indonésia.

Quando a bandeira da Indonésia foi hasteada na cerimônia de medalhas, as câmeras de televisão focaram nela, as lágrimas rolando por seu rosto. Seu namorado, Alan Budikusuma, hoje seu marido, venceu a competição masculina alguns dias depois. Mas só quando voltaram para casa e foram recebidos por uma grande multidão, eles entenderam o quanto suas vitórias significavam para o país. Desde então, assumiram a tarefa de formar a próxima geração de campeões indonésios. Se existe alguém que sabe como é longo o caminho para o sucesso, esse alguém é Susanti.

No início da adolescência, ela saiu de casa e se mudou para Jacarta, para morar e treinar num dos clubes de badminton mais poderosos da capital. É um caminho ainda percorrido por muitos dos jogadores que chegam à seleção nacional. Liliyana Natsir, tetracampeã mundial que conquistou o ouro em duplas mistas nos Jogos Rio 2016, nasceu em Manado, um porto da ilha de Sulawesi, e aos 12 anos foi para o clube Tangkas em Jacarta.

Embora seus pais não jogassem badminton, disse ela, sua mãe era uma torcedora apaixonada do esporte e assistia aos jogos até tarde da noite quando estava grávida de Liliyana. “Ela me diz”, contou Natsir, “que acha que eu também estava assistindo”. Rudy Hartono, um dos maiores jogadores do país e força dominante do badminton internacional na década de 1970, disse que o amor profundo da Indonésia pelo esporte vem do fato de que sempre foi um jogo de quintal para as famílias indonésias.

“Quando você vai para as pequenas aldeias”, disse ele, “você pode ver à noite, das seis até meia-noite, as pessoas se juntando para jogar badminton”. Mas o apelo popular do jogo também tem sido uma “força unificadora”, de acordo com Yuppy Suhandinata, o dono do clube Tangkas, porque combina jogadores de diferentes etnias, diferentes religiões e diferentes origens. Embora a Indonésia seja a maior nação muçulmana do mundo em termos populacionais, seus jogadores de badminton – entre eles muitos de descendência chinesa – vêm de todas as religiões. Antes de cada treino no clube Tangkas, os jogadores são convidados a fazer uma oração de acordo com sua religião. É uma tradição que se repete até o mais alto nível, até mesmo nos treinos da seleção nacional.

Marcus Fernaldi Gideon é membro da principal dupla do mundo. Ele e seu parceiro vêm sendo considerados a maior chance da Indonésia conquistar a medalha de ouro em Tóquio. Agora, ele e todos os outros precisam encontrar uma maneira de se manterem motivados enquanto a pressão continua a aumentar. “Todo mundo espera que a gente ganhe”, disse ele, “porque é badminton e aqui é Indonésia”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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