Christophe Viseux para The New York Times
Christophe Viseux para The New York Times

Baixa do petróleo força sauditas a ampliar 'círculo de amigos'

Para compensar perdas em suas receitas, Arábia Saudita negocia com China, EUA e a rival Rússia

Clifford Krauss, The New York Times

09 Março 2018 | 10h00

A Arábia Saudita é, há muito tempo, a força dominante em petróleo, o que deixa o mundo à mercê de seus interesses. Mas a natureza mutável da indústria energética - o boom dos produtores nos campos de xisto dos Estados Unidos, a persistência da baixa dos preços do produto e a alta do gás natural - modificaram a equação geopolítica.

Embora a Arábia Saudita continue um grande produtor de energia, o país precisa compensar a perda de suas receitas. E Estados Unidos, China e Rússia a assediam na esperança de obter alguma vantagem.

A Rússia, experiente em matéria de sanções ocidentais e na queda dos preços do petróleo, trata de se aproximar da Arábia Saudita, apesar da rivalidade na Síria. A China, com o declínio acentuado da produção nacional de petróleo, busca um fluxo estável não apenas do petróleo saudita, mas de investimentos sauditas em seus florescentes setores da indústria petroquímica e de refino. Por sua vez, Washington está disposta a passar por cima destes flertes na esperança de que a Arábia Saudita continue a ser um baluarte estratégico contra o Irã.

Os desejos das três nações se une à estratégia da Arábia Saudita de encontrar parceiros em sua empreitada para diversificar a economia, sanar os déficits orçamentários e garantir o Estado previdenciário do reino e a monarquia. O ponto crucial do projeto é a proposta de uma oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da Saudi Aramco, a companhia nacional de petróleo, um negócio que poderá valer centenas de bilhões de dólares.

No entanto, o sucesso da IPO da Saudi Aramco, prometida para o fim do ano, continua duvidoso.

O presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, exigiu que a oferta fosse listada na Bolsa de Nova York. Agora, parece mais provável que ela seja listada na Arábia Saudita, com transações posteriores na de Londres ou Hong Kong. Os financistas globais avisam que querem uma parte da operação independentemente de onde ocorra. O interesse na oferta deu ao reino um peso maior em um momento em que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), por meio da qual ela vem exercendo seu poder, está perdendo prestígio.

Os sauditas, governados pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, tentam associar os cortes na produção da Opep, nos últimos dois anos, aos cortes da Rússia, a fim de reanimar os preços. A longo prazo, eles querem importar gás natural para utilizá-lo em lugar do óleo na produção de eletricidade para o consumo interno, liberando volumes maiores de petróleo para exportação. Também estão expandindo os investimentos em refinarias ao redor do mundo a fim de garantir os mercados de petróleo bruto vendendo, ao mesmo tempo, gasolina, diesel e outros produtos refinados de valor superior.

"Os baixos preços do petróleo tornaram insustentável o padrão de vida saudita, portanto seus governantes precisam encontrar alternativas", disse Bruce Riedel, ex-analista do Oriente Médio para a CIA. "E acolherão com entusiasmo qualquer parceiro que se disponha a ajudá-los".

O sócio mais surpreendente é a Rússia, que continua do lado oposto na guerra civil da Síria e também tenta estabelecer melhores relações com o Irã, rival da Arábia Saudita. No final de 2016, o pai do príncipe herdeiro, o rei Salman, fez a primeira viagem oficial de um monarca saudita reinante à Rússia. Na ocasião, foram assinados múltiplos acordos de cooperação, bem como um compromisso da maior companhia petroquímica da Rússia, a Sibut, de construção de uma fábrica na Arábia Saudita.

As relações entre as companhias petrolíferas chinesa e saudita tornaram-se mais estreitas nos últimos anos. A Aramco adquiriu uma participação de 25% em uma refinaria na província de Fujian, operada pela gigante petrolífera estatal Sinopec, e as companhias têm empreendimentos conjuntos na área de refino na Arábia Saudita. No verão passado, China e Arábia Saudita também assinaram um acordo preliminar, para a criação de um fundo de investimentos de US$ 20 bilhões para projetos de infraestrutura, energia e mineração.

"Poderemos também trabalhar com eles", afirmou Sadad Ibrahim al-Husseini, ex-vice-presidente-executivo da Saudi Aramco. "Eles precisam desesperadamente de energia, enquanto nós temos uma quantidade enorme de energia. Portanto, as necessidades se complementam".

Os esforços da Saudi Aramco para tornar-se uma potência global em refino só poderão aumentar o valor da proposta de oferta pública inicial da companhia, que já produz mais petróleo bruto do que qualquer outra no mundo. Muitos bancos internacionais, como JPMorgan Chase, HSBC, Goldman Sachs, Citigroup, Morgan Stanley e Credit Suisse, procuram um protagonismo em um eventual acordo.

O reino avaliou a companhia em US$ 2 trilhões, cifra que, segundo os bancos de investimento, seria realista se o petróleo custasse US$ 100 o barril, cerca de US$ 40 a mais do que o preço atual. Muitos especialistas em energia duvidam que a oferta seja completada por causa das questões referentes ao Estado de direito na Arábia Saudita.

"Será bastante difícil para eles convencer quem quer que seja a comprar um pedaço da Aramco se não chegarem à conclusão de que terão de ser mais transparentes quanto à parte que caberá aos governantes e ao valor real da companhia", explicou David L. Goldwyn, que foi a maior autoridade na área de energia para o Departamento de Estado do início do governo Barack Obama.

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