(Nasuna Stuart-Ulin The New York Times)
(Nasuna Stuart-Ulin The New York Times)

Balarama Holness, o homem que luta para ser o Obama canadense

Holness se tornou uma figura de referência no Canadá ao levantar sua voz contra o racismo estrutural

Dan Bilefsky, The New York Times - Life/Style

11 de agosto de 2020 | 05h00

MONTREAL — Para Balarama Holness, o momento que definiu sua vida ocorreu quatro anos antes dele nascer. Foi num show de Bob Marley em Montreal, quando os olhos da sua mãe, originária do Quebec, e os do pai jamaicano, se encontraram, enquanto o cantor cantava: Get up, stand up, stand up for your rights! (Levante. Resista! Lute pelos seus direitos!).

Era o final dos anos 1970 e sua mãe francófona e o devoto pai anglófono eram estrangeiros naquela enorme arena de hóquei. Mas Holness disse que a barreira da língua e raça foi derrubada instantaneamente quando o hino de Marley envolvia a multidão. – uma rara alquimia que ele buscou em toda a sua vida. “A música dissolveu divisões fictícias na sociedade e em algum ponto entre o “dreadlocks”, termo usado no dialeto jamaicano, e o francês do Quebec, as sementes da minha existência foram plantadas, junto com meu futuro como um rebelde”, disse ele.

Professor, radialista, estudante de Direito e antigo jogador de futebol americano no Canadá, Holness, de 36 anos, aspira ser um “Obama canadense” – um “advogado birracial”, ele observou, que tem experiência como organizador comunitário. Sua outra inspiração é Colin Kaepernick, o quarterback negro cujo ato de ajoelhar durante a execução do hino nacional americano antes dos jogos da NFL se tornou um poderoso símbolo contra a injustiça social e racial.

A ambição e a presunção de Holness são talvez inevitáveis – ele destaca que por causa do respeito dos seus pais pela tradição hindu eles o chamaram de Balarama, considerado um deus com força extraordinária. Um primo dele, Andrew Holness, é primeiro-ministro da Jamaica.

No caso de Balarama Holness, ele foi manchete depois de incitar um movimento popular, nos últimos dois anos, pressionando a prefeitura de Montreal a realizar audiências sobre o racismo estrutural. O que não é um feito de menor importância no Quebec, província de maioria francesa onde o governo nega repetidamente a existência de racismo estrutural.

Durante 12 meses, sete mil pessoas testemunharam ou se apresentaram para prestar seu depoimento, o que culminou num relatório condenatório no mês passado que concluiu que a prefeitura vinha fazendo vista grossa à discriminação de perfil racial por parte da polícia.

Coube ainda à prefeitura criar uma força tarefa para examinar o fato de que não brancos representam somente 6% das 103 autoridades eleitas. Após o relatório, o premiê do Quebec, François Legault, nomeou dois ministros negros para comandarem uma força-tarefa contra o racismo, e Holness se tornou uma figura de referência nas universidades canadenses, nos eventos cívicos e ministérios de governo.

David Lametti, ministro da Justiça do Canadá e procurador geral, que tem buscado conselhos de Holness, lembrou que ele o questionou amigavelmente no seu programa de rádio. Durante uma entrevista, ele implorou para o ministro levar em conta nas suas decisões política o fato de os negros serem presos de uma maneira desproporcional pelo sistema penal. “Não foi fácil para mim – ele é uma pessoa inteligente sem ser prepotente”, afirmou Lametti. “Eu o vejo como um líder nacional. Precisamos da sua voz”.

Quando começou sua missão de combate ao racismo sistêmico, Holness lembrou, alguns nativos do Quebec o desprezaram e o acusaram de “fazer o papel de vítima”, ao passo que ativistas veteranos o rejeitaram como um arrivista petulante. Mas ele diz que a insurgência global em favor dos direitos dos negros desencadeada pelo assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis, engrandeceu sua voz e suas ambições.

“O abuso de poder tem angustiado as pessoas negras e mulatas e já estamos fartos”, diz ele. Seu espirito igualitário se arraigou cedo, depois de os pais se separarem e sua mãe levá-lo e seu irmão gêmeo para viveram num ashram Hindu em Virgínia Ocidental. Ali as refeições eram comunitárias, diariamente havia meditação e ele tinha pouca consciência da sua etnia ou cor da pele.

Sua tenacidade foi aperfeiçoada quando ele estava com nove anos de idade, quando entrou na chamada tenda do suor, onde os membros vão rezar, e de repente se viu numa total escuridão, assustado, em pânico, incapaz de respirar. “Percebi pela primeira que conseguia utilizar minha mente para dominar meu medo”, afirmou.

Mas este mundo idílico virou de cabeça para baixo quando estava com 10 anos e sua mãe decidiu mudar para um bairro no subúrbio de Montreal predominantemente branco, onde abriu um estúdio de dança, mas a família se viu em dificuldades financeiras. Ele passou a morar com o pai devoto que renunciara aos bens materiais e se dedicava, em tempo integral, a um templo hindu.

Holness lembrou que era um garoto ansioso para se integrar, mas na escola pública francófona sua cor "atrapalhava" seus planos. “Um garoto me perguntou por que eu tinha lama no rosto. Outro me chamou de negro. Pela primeira vez, entendi que era diferente – um garoto birracial com cabelo encaracolado, um vegetariano com um nome engraçado”, disse ele.

Embora fosse um jogador de basquete talentoso no final da  adolescência, nunca havia jogado futebol num time organizado. Mas, ao assistir um jogo da NFL na TV, quando tinha 18 anos, decidiu se tornar um jogador de futebol americano quando viu um quarterback com 1,8m de altura e pesava 80 quilos, como ele. Holness acabou jogando no time da universidade de Ottawa.

Ele se chocou com o capitão da equipe e numa ocasião fraturou a mão numa briga. Mas sua velocidade em campo chamou a atenção dos olheiros da Liga de Futebol Canadense. Acabou firmando um contrato com o Winnipeg Blue Bombers, e depois que o contrato expirou, passou a jogar com o Montreal Alouettes. Graças à disciplina do futebol profissional, disse ele, “as drogas e as influências negativas não se arraigam”.

Em 2010, dois meses antes dos treinos para o campeonato da Copa Grey, equivalente canadense do Super Bowl, ele fraturou o pé e os médicos disseram que para ele a temporada havia acabado. Temendo perder seu lugar na equipe ele decidiu treinar apesar da dor. E, no final, ele ajudou os Alouettes a vencer o campeonato e ele ainda usa com orgulho seu anel de campeão. “Isto representou tudo o que superei”, disse ele.

Mas depois de uma série de lesões ele decidiu deixar o esporte profissional e se tornar professor. Em 2013, devastado com a morte da mãe, aos 57 anos, em decorrência de uma doença viral, ele resolveu viajar pelo mundo durante dois anos, vivendo algum tempo na China.

Depois de passar um período dando aulas, ingressou na faculdade de direito McGill, a mais respeitada universidade do Canadá, e durante seu primeiro ano como estudante, ele se candidatou para prefeito de Montreal Norte, um dos bairros mais pobres do país. Ele foi derrotado na eleição e acusou seu partido de esquerda de usar candidatos não brancos a título de relações públicas, mas não lhes dava o apoio necessário para vencerem as eleições.

Insubmisso, ele então assumiu a causa do combate ao racismo, mas afirma que conseguir que os nativos do Quebec reconheçam o problema tem sido difícil porque a minoria francófona na maior parte branca considerava o multilateralismo uma ameaça à sua própria cultura e identidade. Holness pensa agora em disputar a prefeitura de Montreal e entrar para a política nacional. “Meu objetivo derradeiro é que a sociedade se torne um lugar exatamente como naquele concerto em 1979”, afirmou. “Sou um sonhador como minha mãe”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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