Ksenia Kuleshova para The New York Times
Ksenia Kuleshova para The New York Times

Banco de alimentos define regra para atendimento exclusivo de alemães

Embora a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, critique a decisão, alemães ultranacionalistas a classificam como um 'ato de heroísmo'

Katrin Bennhold, The New York Times

22 Março 2018 | 15h00

ESSEN, Alemanha - Jörg Sartor não gosta de recusar a entrada aos recém-chegados que procuram seu banco de alimentos, principalmente no caso de mães solteiras, como a jovem síria e seu filho de 5 anos que esperavam do lado de fora desde antes do sol nascer.

Mas regras são regras. E, no momento, o serviço é apenas para alemães.

"Venha aqui", disse Sartor, acenando para que o menino se aproximasse. Sartor entrou no armazém da loja e voltou com um brinquedo de madeira. Então o menino e a mãe foram conduzidos até a porta, que, nas semanas mais recentes, ganhou cinco letras rabiscadas do lado de fora: "Nazis".

A decisão de um banco de alimentos da cidade de Essen, no oeste do país, de parar de receber novas inscrições de estrangeiros depois que os imigrantes se tornaram gradualmente a maioria de seus clientes levou a uma forte reação neste que já foi um centro de exploração do carvão no cinturão industrial da Alemanha, e também no restante do país. Até a chanceler Angela Merkel opinou: "Não se deve classificar as pessoas desse jeito".

Mas a desagradável realidade é que, três anos depois que a Alemanha abriu as portas para mais de um milhão de refugiados, boa parte do fardo da integração dos recém chegados coube aos mais pobres. Eles precisam concorrer pela habitação subsidiada, vagas nas escolas e, no caso do banco de alimentos, uma refeição gratuita.

Muitos dos alemães fazendo fila do lado de fora do banco de alimentos numa manhã recente chamaram Sartor de "herói popular". "Ele nos defende", disse Peggy Lohse, 36 anos, mãe solteira de três filhos.

Até recentemente, grupos de jovens imigrantes às vezes abriam caminho pela fila com truculência, disse Peggy. Ela diz ter voltado para casa de mãos vazias mais de uma vez. Algumas mulheres mais velhas se sentiram tão intimidadas que pararam de vir, disse ela.

"Trabalhamos e pagamos impostos nesse país: foram nossos pais que o construíram", disse Marianne Rymann, 62 anos, também na fila. "Como é que nós ficamos sem nada e os recém-chegados recebem tudo de que precisam?".

Quando cerca de 1,2 milhão de imigrantes chegaram à Alemanha em 2015 e no início de 2016, eles foram distribuídos pelo país para compartilhar os custos e aumentar suas chances de integração. Mas muitos deixaram os lares a que foram designados, procurando habitação em regiões onde a concentração de imigrantes já era grande.

Essen, cidade de 600 mil habitantes, viu sua comunidade de sírios aumentar de 1.300 para quase 11 mil pessoas em 2015, disse Peter Renzel, funcionário municipal. A maioria deles vive nos bairros de classe trabalhadora ao norte. "É um desafio", disse Renzel. "Alguns distritos suportam um fardo desproporcional".

Vários bancos de alimentos tentaram limitar as tensões separando alemães e estrangeiros com o atendimento específico em diferentes horários ou dias. Alguns proibiram a adesão de jovens, medida que não foi anunciada para afastar os imigrantes, mas, na prática, tem esse efeito.

Sartor, que trabalhava na indústria do carvão e se aposentou cedo depois que a mina em que trabalhava fechou, administra o banco de alimentos há 12 anos como voluntário. Ele deixou deliberadamente os insultos de Nazi na porta e nas sete vans de entregas da instituição de caridade, que também foram vandalizadas. "É absurdo", disse ele.

Até três anos atrás, um em cada três usuários do banco de alimentos era estrangeiro, disse ele. Em novembro do ano passado, essa proporção era de três estrangeiros a cada quatro beneficiados.

A ideia de impedir a inscrição de não alemães foi de Sartor. O banco de alimentos continua atendendo os estrangeiros que já estão inscritos em suas listas.

A mãe síria que não foi aceita, Habib Banavsch, disse detestar ficar na fila para receber caridade. "Preferia estar em casa, no meu país", disse em voz baixa. Mas a guerra continua na cidade dela, Afrin, e Habib precisa cuidar sozinha do filho, Yusef, depois que o pai os deixou.

"Precisamos de ajuda", disse ela.

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