Lauren DeCicca para The New York Times
Lauren DeCicca para The New York Times

Menos comida de rua, mais shoppings: mudanças agitam centro de Bangcoc

Para administradores da capital, metrópole sofre de um excesso de gente, de obstáculos à circulação e ameaças à saúde

Hannah Beech, The New York Times

18 de dezembro de 2019 | 06h00

BANGCOC - O moedor de coco atinge o asfalto, e o aroma da pimenta sobe em uma névoa que faz tossir. Lascas de casca de limão. O carangueijo salgado libera seu sabor. Fatias de papaia verde são acrescentadas, molhadas em uma pasta de peixe temperada com açúcar de coco. O cheiro é asfixiante e irresistível. Essa salada de papaia verde contém o perfume de Bangcoc.

Mas, recentemente, os carrinhos de comida de rua vêm se tornando alvo de alguns dos administradores da capital. Para eles, essa metrópole de 10 milhões de habitantes sofre de um excesso de gente, de obstáculos à circulação e ameaças à saúde. Eles preferem uma Bangcoc cheia de ar-condicionados, com shoppings, ringues de patinação e cafés com espaço instagramável. Querem acabar com os carrinhos de comida.

Diante dessa perspectiva, Somboon Chitmani, que vende salada de papaia verde nas ruas há 36 anos, aguarda. Ela soube que, até o fim do ano, os carrinhos de comida de rua podem ser expulsos do centro de Bangcoc. O número de áreas designadas para esses carrinhos já foi reduzido de 683 para 175 em um intervalo de três anos, de acordo com a Rede Tailandesa de Carros de Comida de Rua pelo Desenvolvimento Sustentável.

O vice-prefeito de Bangcoc, Sakoltee Phattiyakul, afastou os temores de que a comida de rua logo desapareceria. “Não, não, ninguém está falando em uma proibição total", disse ele. Mas outros no governo emitiram sinais discordantes. “Se quiserem se livrar de nós, não podemos fazer muito contra isso, pois é a lei", disse Somboon. “Mas, para mim, o espírito de Bangcoc está na comida de rua.” A variedade de pratos impressiona - sopas reforçadas com capim-limão e sangue de porco, bolinhos de arroz recheados de cebolinha, roti com leite condensado e banana.

Quase 15% dos tailandeses vivem em Bangcoc. O tráfego pesado na capital dificulta a volta para casa na hora do jantar. Um estudo realizado pelo projeto Beyond Food, que pesquisa o impacto socioeconômico da comida de rua em Bangcoc, revelou que, se os consumidores tivessem que trocar os carrinhos por praças de alimentação ou lojas de conveniência, seria necessário trabalhar um dia extra por mês (pensando no salário mínimo).

Além disso, cerca de 80% dos operadores de carrinhos de comida de rua na Tailândia são mulheres, disse Raywat Chobtham, da rede de carros de comida de rua. “Centenas de milhares de mulheres sustentam o lar cozinhando em carrinhos desse tipo", disse ele. “Será desejável acabar com tantos empregos?”

A importância da comida de rua foi sublinhada quando o guia Michelin começou a reconhecer os estabelecimentos de rua. Por três gerações, um beco escuro no bairro chinês de Bangcoc abrigava uma banca de mingau de arroz aberta por um imigrante. Então, em 2017, a banca foi incluída na edição do Michelin dedicada a Bangcoc.

Jok Prince, como o lugar é conhecido, trocou a banca por um estabelecimento com endereço. Mas o mingau, defumado e cheio de almôndegas, continua o mesmo. Com o novo restaurante, “estamos a salvo", disse Sarunpraphut Unhawat, neta do criador da banca de mingau. “Mas eu me pergunto: se a comida de rua for eliminada de Bangcoc, qual será o grande atrativo da cidade?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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